domingo, 10 de maio de 2009
Porque nunca desfiz de mim
Ultima pagina do "Livro do Guimel", Luciana gama, 1999
Pagina do meio de "Embalos na rede: balancos Frugais:, Luciana Gama, 1996
sábado, 9 de maio de 2009
Minha Historia
Kabalistas
Com kabbalah nao se brinca. Eu tenho a honra de ter amigos que estudam Kabalah e assim levam a vida, de segredo em segredo. Inclusive, passei meses participando de refeicoes no Shabat, principalmente a havdalah, cerimonia que separa o Shabat dos outros dias da semana, e essas pessoas deveriam saber o quanto aquelas refeicoes se tornariam importantes para mim no meu mundo vindouro, onde estou, Jerusalem. Eu apenas ia, via, comia. Eram lindas. Sempre sai correndo de onde estava apenas para chegar, todo Shabat, ali, naquela mesa com aquelas pessoas lindas, fortes, saudaveis que se entoavam em Hebraico, essa lingua estranha, e me aceitavam ali, como uma hospede bem vinda. Tambem tive a honra de passar o Shavuot passado com eles, sem dormir a noite inteira, ouvindo o Livro de Ruth e as discussoes que fariam qualquer alma dormente, acordar. As vesperas dos meus 43 anos, em pleno Omer, eh deles que me vem a lembranca confortavel de quem experimenta raridades na vida.
Mas, entre outras coisas, de segredo em segredo, kabalistas conversam com voce. Eu levei muita bronca, recebi muitos toques, e um deles, uma vez, - falavam pouco comigo, quase nada- me disse que eu participava, que eu era convidada porque um dia, eu nao estaria ali, estaria onde deveria estar, aqui. Mas que eu soh recordaria quando estivesse. Eis-me aqui, recordando.
Um deles, chamado Zuvh, Chazan, um homem que com sua estatura, gordura e kavana, sempre me deixou impressionada e ele sabia, sabia, eu tinha medo dele. Zuvh olhava dentro da gente e dizia exatamente o que voce estava pensando.
A ultima vez que o vi fiquei sem dormir. No dia seguinte, telefonei para ele e disse que nao havia pregado os olhos. Ele riu e desligou o telefone. Simples assim. Naquele dia anterior, logo apos a cerimonia da Havdala, Zuvh conversou duas horas comigo sobre martelos.
Durante toda a conversa eu apenas pensava que aquele homem era louco, que falava de martelos comigo e quando eu ja nao podia mais com aqueles martelos todos, ele se levantou enorme da cadeira e me disse: voce ainda vai se lembrar dessa conversa de martelos e dar muita risada, me levando para fora da sala, me colocando para fora da sala. De logico, que me pareceu completamente insensato naquele dia, Zuvh me disse que eu deveria olhar mais para os homens nao judeus. Eu fiquei revoltada, o que aquele Judeu religioso estava me dizendo? Diante da minha surpresa, ele completou: voce eh judia, voce eh mulher, dando de ombros com as maos.
Hoje, toda vez que o Samir me telefona e eu nao consigo ouvi-lo por causa do barulho dos martelos, ouco uma inaudivel melodia, grande, gorda, rindo como o Zuvh na minha frente, compartilhando o que nao existe: nem o antes, nem o agora, nem o depois.
A Manga do vestido de Noiva
Pronto. Agora jah posso. Eu ia sair para fotografar mas um gato sentou na minha janela recem aberta. Resolvi, por conta dele, ficar, fazer outro cafe e retomar para a minha cama com meus tres travesseiros primos. O gato ficou me olhando atraves do vidro. Pensei sim em dar leite para ele mas seria uma alianca para a vida toda. Gatos possuem uma maneira solida de fundamentar relacoes. Basta o branco no pires, o pires na janela, a janela para a rua.
Algumas fotos seriam p&b. Principalmente, antes da cerimonia. No casamento, eu estaria livre, a noiva, enquanto conversava comigo, estava por demais envolvida na sua vida e confiava nos profissionais que a acompanhariam. Durante o tempo que conversamos sobre o ensaio fotografico que faria com ela, antes, durante e depois da cerimonia, ficou estabelecido que as minhas fotos seriam mais artisticas, enquanto o fotografo principal cuidaria das exposicoes tradicionais e classicas. Eu, obviamente, que caso com todas as minhas fotos estava preocupada com o balanco do branco do vestido da noiva. Seu vestido eh branco, perguntei, ela nem me ouviu. Me contou detalhes das rendas, dos brocados e dos docinhos, e do rabino, e do convite, convivas, as noivas falam sem parar, pensei, e perguntei se podia fazer fotos dela se vestindo, do vestido ainda pendurado, vou te acompanhar, completei.
Adoro fotografar noivas. Eh uma maneira adentro da felicidade alheia, caminho raro que a fotografia permite. Meus casamentos, ou tentativas de, foram todos um fracasso. E eu acredito que foi justamente isso que me abriu o olhar para o instante da alegria . Fracassos refinam, Luiz, Eduardo, Alexandre, Douglas, Ricardo, Chico, Rui, Uri, Nando, sendo que a luz vem fielmente junto das nossas bandidagens e bandagens.
A noiva me telefonou por esses dias dizendo que nao haveria mais casamento e disparou a contar, descontar. Durante toda conversa eu apenas refletia que deveria ser comigo, nao com ela. Eu tiraria essa historia de letra se o Samir me deixasse plantada na Cidade Velha. Sentaria com meus amigos daqui, faria um chororo de pao com hummus, eles diriam que me avisaram, eu diria que sabia e pronto, bola pra frente. Mas aquela noiva, como qualquer noiva, acreditava no casamento. Eu tambem penso, numa mistura atonita, que talvez tenha sido melhor assim. Mas, la pelas tantas ela me disse, ah, eu ia devolver o vestido mesmo, a manga nao ficou boa. Eu somente pisquei na demora de quem joga fotografia fora.
Condoer, doi.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
A manga do Vestido de Noiva
Eu tenho uma historia para contar.
mas preciso de um fole para esse sopro de vida.
Ja volto com meu folego.
twiter
Toda vez que como chocolate meio amargo eu penso profundamente no Twiter e nos 14o caracteres. Sim, eh uma delicia, vicia, mas toda vez que como meu chocolate eu penso que serio seria eu tuitar : "comendo chocolate meio amargo..."
A quem interessa se estou comendo chocolate meio amargo? Ou, fazendo outras pequenas coisas que sempre fiz e nunca liguei para ninguem para dizer?
O que ocorre eh que a brincadeira eh seria mesmo. O Twiter me dah a impressao, na maioria das vezes que eu, ou as pessoas que sigo, revelam que nunca sairam da fase oral. Penso que muito do sucesso e do vicio do Twiter deriva do fato de ser um dispositivo para se colocar o id com a sensacao de que, enfim, alguem se interessa pelo o que voce estah fazendo, e o que eh pior, pelo o que voce estah pensando. Eh realmente uma formula magica. Todo terapeuta dereria indicar o twiter para seus pacientes que nao sairam da fase infantil. Hoje em dia, gracas ao twiter, sei o que faz e o que pensam pessoas que nunca tive um convivio completo e na maioria das vezes, o que eu acho a maior graca, as pessoas enviam noticias como se ninguem lesse jornal, e sei praticamente tudo o que aquela minha conhecida de oi e tchau pensa ( praticamente nada), faz e ve na televisao.
Nada contra. Tenho pessoas legais no meu twiter. Mas que eu tenho vontade de pedir para as pessoas pararem de colocar os proprios bofes para fora do umbigo delas, ah, isso eu tenho...mas eh legal saber que estah chovendo, super bacana e original. Me lembra Quintiliano, quando da sua retorica, exemplificando a chuva como argumento para testemunho ocular. Sim, estou me referindo ao retor latino. Analise de discurso que seria chata no Twiter. Melhor saber que estah chovendo. Fato, do latim, factum. Aquilo que nao depende se voce esteve ou nao, viu ou nao. Choveu. E viva o Twiter!
obs: obviamente, eu me controlo horrores para nao desbundar no twiter. Uma pena esse meu controle. Tenho vontades incontrolaveis de escrever: " Dei muito" . " Gozei trez vezes" . " ih, dei o rabo, doeu"
bj. Me liga quando acordar!;)
Samyanalytics
Tenho escutado muito Chico Buarque ultimamente. Assim, por nada mesmo. Fiz o download de toda discografia do Chico, como tambem fiz varias outras completas, mas sabe la porque, fui insistindo no Chico enquanto lavo a louca ( sim, tem uma louca na minha pia que surtou depois de perder o acesso aos cedilhas), enquanto tomo banho, enquanto o meu dia, nessa viagem a roda do meu quarto, vai margeando todos os meus enquantos. Sou mesmo uma pessoa de enquantos. Nao tem melhor tentativa de definicao para mim, por enquanto.
Intensamente, o que adjetiva meu comportamento normal por qualquer coisa que me agrade, passei a ouvir Chico o tempo todo. Foi assim com Joao. Esta sendo com Chico. Chico tem me apontado um frescor nas suas cancoes, uma leveza, e, sobretudo, uma forma tao menos grandiloquente de simplificar as coisas complicadas que passei a gostar do que ouco. Versos como "tem um olho que nao estah, meus olhares evita" , tem-me arrancado singelamente do chao. Assim como a cancao Renata Maria. Sao esses os meus pequenos menires.
Ancorei o paragrafo acima apenas para colocar uma pequena e talvez insignificante cancao do Chico, que me lembra muito o Samir quando ele nao estah aqui, junto comigo. Talvez pela simplicidade das coisas mais simples, como o amor, por exemplo:
"Eu não sabia explicar nós dois
Ela mais eu
Porque eu e ela
Não conhecia poemas
Nem muitas palavras belas
Mas ela foi me levando pela mão
Íamos todos os dois
Assim ao léo
Ríamos, choravamos sem razão
Hoje lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu"
( Chico Buarque In" Porque era ela, porque era eu". Carioca, Ao Vivo. )
terça-feira, 5 de maio de 2009
A Paixao Segundo H.
Almoco na nova casa Jerusalomita de H. Incrivel como H. sabe fazer qualquer lugar ficar confortavel, com jeito e cheiro de casa. Eh um dom. Eu tambem o tenho e por isso sei reconhece-lo em H.
H. ficou H. Nosso misterioso H. Muito, porque nao queremos dividi-lo, todo mundo quer H. Bastante, porque o que era uma protecao inicial, nao expor seu nome aqui, por motivos religiosos, acabou acabando e resolvemos manter H. como H. assim mesmo, por puro divertimento.
H. fez um almoco incrivel onde tudo estava com gosto de H: o peru, a lentilha, o arroz e o chocolate suico. Os livros na estante tambem.
H. hoje resolveu todos meus pequenos problemas, aqueles, que nunca ninguem da importancia porque eles nao tem importancia nenhuma mesmo. Precisava de um protetor solar. H resolveu. Precisava -mas nao queria- comprar umas tranqueiras na farmacia. H. o fez.
Me despedi de H. na calcada da rua Ben Yehuda pensando que eu podia hoje estar, realmente, sem nada, coisa alguma, zerada. Nao eh verdade. Tenho tudo aqui. Mas caso eu nao tivesse eu estaria completamente lotada do amor do companheirismo das amigagens de H.
Nao temos livros da Clarice Lispector aqui. Mas temos H. O que para mim talvez tenha uma igual significancia. Um mesmissimo conteudo vidente, vivente.
sábado, 2 de maio de 2009
Aqui mas La...
Ando bem sumida daqui do Acustico, eu sei. Acontece que sou supostamente desorganizada para o meu referencial de perfeicao. Nao consigo escrever quando fotografo e ha semanas incriveis que somente consigo fotografar. Como ha semanas otimas tambem que soh consigo escrever. Estou na fase da fotografia que basicamente consiste em muita coisa junta: paciencia, tecnica, olhar, just in time, sorte, observacao, estudo e muitas, muitas horas alem de pernadas sem fim. Fotografar demanda muito tempo. Tanto quanto escrever. Mas, efetivamente, nao consigo me dedicar as duas coisas, tudo- ao- mesmo- tempo- agora. Nas ultimas semanas minha presenca se faz em outro blog, tambem meu, e assinado pela Shlomit Or, tambem eu. Para quem nao sabe tenho dois nomes, um brasileiro e outro israelense. Os dois sao verdadeiros. A Shlomit Or eh a fotografa. Existe uma excelente fotografa brasileira, minha homonima, chamada Luciana Gama, e para que eu nao atrapalhasse a vida dela com as minhas parcas fotos, aproveitei meu nome israelense para assina-las. Foi assim que a Shlomit Or assumiu que era fotografa. Passa la:
www.photojerusalem.blogspot.com
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