sábado, 20 de novembro de 2010

GAMA, Luciana. Os Macunaítas: exéquias. ex(c)ertos. trechos. Cienc. Cult. [online]. 2010, vol. 62, no. 4, pp. 66-67. ISSN 0009-6725.


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Ciência e Cultura

ISSN 0009-6725 versão impressa

Cienc. Cult. v.62 n.4 São Paulo out. 2010


 


Luciana Gama

Os Macunaítas: Exéquias. Ex(c)ertos. Trechos


"Do muito que li, em ócio, e viajei, em férias, partes da formação da minha nobre educação Icamiaba, tornaram minha chegada nessas terras de Jerusalém, letrinha miúda, de maneira que aqui cheguei já na consideração que não merece pouca estimação, o que, desprezando os mimos e regalos da sua pátria, busca as alheias para nela se qualificar com mais largas experiências: por cuja razão é sair o da pátria o que faz aos homens mais capazes e idôneos para mui grandes empresas e suficientes para tudo: como o tem feito a tantos varões ilustres. Porém é certo que quem peregrina acompanhado de seus vícios mais valerá não ter saído; pois tornará mais perdido, que aproveitado: porque as enfermidades da alma não se curam com a mudança de lugar, de modos que aqui cheguei, doente de doença Brasil, país sem saúde, o dístico do pai espiritual do meu povo não é nada perto do meu: escrevem bonito e fazem feio, os males do Brasil são!"

"Eu pensei em ser breve nestas bem traçadas mas você repare na grandeza da matéria o que não me permite qualquer outra alternativa imposta pelo gênero. Não é nada desprezível o aprendizado que tenho angarinhado com o povo do livro. Sim, eles são o povo do livro. Você, então, imagine os estatelos e estupefatos a que sou submetida a cada pernada pela rua ou sentada no ônibus, eu, uma legítima Icamiaba, conviva dos melhores salões da nobreza paulistana, descendente exemplar do povo do Texto, os Macunaítas."

"Me acuda, prima, para brincar todas as noites. De manhã, quando Vei a sol chega estou exausta, quem tem força para levantar e ir trabalhar para ganhar vintém para pagar a universidade? Bem que eu quis impor à minha ardida chama uma abstinência, penosa, para poupar despesas à prima; porém que ânimo forte não cede ante os encantos e galanteios da homarada nordestina [sic] palestina daqui? Sei que vais me recordar, em argumentação carinhosa, que podia entregar de vez a muiraquitã pro meus cuidados e por ele pra correr, como boa Icamiaba que sou, mas você não imagina que os homens árabes daqui parecem Icamiabas de tão homens que são e contam nossas luas de sangue porque querem os filhos machos para eles e já que eu não reproduzo o homem vem brincar toda noite, a muiraquitã tá na mesinha ao lado da cama, empoeirada que só vendo a belezinha, ele dá safanão no meio da noite e eu vou parar longe, a muiraquitã e o criado mudo vão juntos, uma delícia, eu acordo feito fúria e cresço para cima dele. Brincamos assim. Pode enviar apenas um pouco mais de dinheiro porque com pouco a vossa abstemia acadêmica se contenta; se não puderdes enviar duzentos reais, mandai cem a mais, ou mesmo cinquenta! "

"A cidade velha, cercada com seus muros do fim do século XVI mas onde as pessoas jeremiam seus lamentos como se fosse o que restou da queda do segundo templo em 70 D.C, é um parque temático ao gosto do freguês, seja ele católico, muçulmano, judeu, budista, ateu ou arqueólogo. A cidade se abre para realizar qualquer fantasia de crença que uma pessoa tenha, da igreja do Santo Sepulcro, o castelo mal assombrado mais antigo do mundo até a maravilhosa, sem dúvida, esplanada da mesquita Esh-Sharif, que deixa o castelo da Cinderela no sapatinho embora ambos possam ser vistos a partir de qualquer canto dos seus reinos: Disney ou Jerusalém. Ninguém, ninguém aqui ladrilhou ou semeou, embora a cidade, como todas, viva de apropriações e desapropriações, mas nenhuma igual a que o padre Sergio Buarque de Holanda fez com a frase do historiador Antônio Vieira. Jerusalém nada tem de colonial (...)."

"Acontece, atente nisto, que o povo do livro acredita que somos o povo do Texto porque despregamos de uma folha perdida por uma então perdida tribo das dez tribos perdidas, desertores dos desertores, povo meio que do B das antigas, pensei gargalhando botões, fala sério, mas a hipótese seria a seguinte: nós nos perdemos, em algum momento, nos quarenta anos de caminhada das doze tribos pelo deserto que aportaram em Canaã. Tô boa, santa: um Macunaíta jamais se perderia, pensei, quanto mais cinco ou seis ou vinte e cinco juntos, pelo simples motivo de que jamais pensaram em encontrar qualquer coisa que fosse, quer dizer, a menos que seja para desencontrar. Se for verdade o que eles dizem, fique certo como eu estou certa, de que logo na primeira semana dos quarenta dias, assim que atravessaram o mar vermelho, os Macunaítas farejaram que aquilo tudo era uma chatice sem tamanho e desertaram bacana. No entanto, argumentam que as semelhanças entre nosso tio avô feiticeiro, Maanape e Araão, mano de Móises, não são nada desprezíveis.

"O povo do livro também assevera que algumas semelhanças textuais asseguram um passado em comum entre eles e nós, o povo do Texto, como por exemplo – eles se apoiam em Vasconcellos, por certo a palavra Tupan-Abá é uma curruptela que precedeu deTupinambá e significa "Povo de Deus". Uma outra, conceptual e agudérrima, é a de que a palavra arara deriva de ararat, o monte bíblico onde Noé aposentou as galochas, revelando assim uma memória assombrada e assombrosa de tempos imemoriais em cujo caminho a letra t criou asas".

"Para chegar ao Muro das Lamentações tem que descer uma escadaria de arrepiar o Bonfim e é suja, prima, tão suja que merecia uma lavagem de água de cheiro. Morro de vontade de fazer a lavagem das escadas do Kotel, ô saudades! O povo do livro também tem uma tradição culinária de comer sanduíches com bolinhos fritos de grão-de-bico na rua, imagina só, pensei então que poderia montar uma barraquinha perto da escadaria do Muro das Lamentações e me tornar a baiana do falafel."

Luciana Gama (Shlomit Or), 44, é escritora, fotógrafa, cronista e doutoranda na Hebrew University Jerusalém no Departamento de Spanish and Latino Studies.Brasileira e israelense, possui artigos publicados na Revista USP, Iararana e do Centro de Estudos Judaicos de Minas Gerais.Faz fotoliteratura, cujo foco, a narração das ruas, estão divulgadasem diversas mídias/jornais como Reuters e Haaretz. É autora de Os macunaítas: um povo sem solução, romance inédito, de onde o trecho acima foi retirado. Blogs: www.acusticojerusalem.blogspot.com; www.photojerusalem.blogspot.com; http://macunaitas.tumblr.com

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

José Candido de Carvalho e Cyro dos Anjos, amém.


Adquiri esse livro, sabe lá quando, por uma preço infímo, coisa de cinco ou sete reais, nesses sebos insuportavelmente evangélicos e organizados por sobrenome de autor no bairro de Pinheiros, São Paulo. Mas graças ao Deus da confusão dos assuntos das estantes dos sebos e graças as bençãos que esse mesmo Deus emana aos autores que não são conhecidos dos livreiros evangélicos- nem todo achado é Machado- saí rindo do sebo com essa preciosidade de autógrafo nas mãos. Hoje, ao abrir uma das caixas de livros no fundo da casa de minha mãe ri do mesmo riso que me acometeu quando do seu-meu achamento  entre os  evangelistas. Esse abraço do Coronel Ponciano no Amanuense Belmiro não é coisa prá qualquer um não: só para os descanonizados ou vacinados contra os canônes da  literatura brasileira.
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sábado, 21 de agosto de 2010

transjerusalém - são pulo, brasil (Gama, Luciana. "exéquias" In Os Macunaítas)

Para efeito epigráfico: epígrafe de epigrafe tudo é epígrafe

"Fatigado
Das minhas viagens pela terra
De camelo e táxi
Te procuro
Caminho de casa
Nas estrelas
Costas atmosféricas do Brasil
Costas sexuais
Para vos fornicar
Como um pai bigodudo de Portugal
Nos azuis do clina
Ao solem nostrum
Entre raios, tiros e jaboticabas."

(Oswald de Andrade  In Serafim Ponte Grande: Fim de Serafim)

domingo, 1 de agosto de 2010

Trechos: Os Macunaítas de Luciana Gama

(Tudo bem. Você pede noticias devidas ao sumiço. Me cobra que devo satisfação aqui no blog, lá vai, se segura, malandro: Uma semana perdida fazendo as exéquias dos Macunaítas, cujos recortes, trechos -para usar palavra mais simpática- vão sair numa revista de literatura. Quando? não sei, aviso. Chancelaram, por fim, Os Macunaítas. Depois, mais dez dias em plena narrativa: não vi o tempo passar e nem as páginas crescerem. Somente ria e via ao meu redor um monte de santo: José Candido de Carvalho, Manuel Antonio de Almeida, Machado do Memórias Póstumas, e, Millôr de vez em quando. O capítulo II, "O Sequesttro da Sátira", é desenho com mínimos detalhes, croqui,  tinta a óleo, moldura. Mando amostra grátis . beijo na familia, na Cecília e nas crianças, prá todo pessoal, adeus:)


"...Mário de Andrade também não era. O achamento de um povo que sempre se entranhou na veia da sua terra e se misturava impertinente também a sua biblioteca cerebral a partir daquele instante, o do descobrimento vital propriamente dito, levou-o a arrumar algumas poucas peças de roupa e abrir a mala poenta por cima da cadeira do quarto: dois ternos de casimira inglesa, o terceiro, de linho branco s120, iria no corpo assim como o chapéu de aba larga para o forte sol de Araraquara  que levaria enterrado na cabeça; camisas de manga, quatro, papel, loção francesa Revê Rose para passar na calvície, caneta e tinteiro, pó-de-arroz- poderia ser útil em algum evento social à noite- e os lenços caprichosamente bordados com suas iniciais, MA, por tia Nhanhã, misturados a três sambas-canção e ceroulas, poderiam ser  úteis mesmo no calor, o pijama de listras largas com botões grandes, o robê de seda, chinelos e meias: Mário não andava descalço. Livro nenhum entrou na mala de organizada angustia, somente os fichamentos das ultimas leituras que vinha fazendo. Não eram poucos: os do cinco volumes de Von Roraima Zun Orinoco  ocupava o equivalente a um par dos sapatos sob medida da Sapataria Guarani, a mais cara de São Paulo, sempre no modelo escocês furadinho de bico afinado.(...)" (Gama, Luciana. Os Macunaítas, In: cap II, O Sequestro da Sátira ou O Rapto dos Macunaítas ou O Nome da Palmeira)

 (...)De vez em quando, era notório, Mário gargalhava refestelado e esquecido da sua gravidade de maneiras e lotava o ambiente chacoalhando risonho todo seu corpo alto, magro, enorme; mesmo assim, era riso que em nada lembrava a sonora gargalhada dos índios Umutina quando o Padre Salesiano Nicolau Badariotti, às vezes, assentado sobre uma pedra ou sobre algum tronco de madeira rodeado de trinta ou quarenta índios contava coisas da Europa procurando explicar-lhes por meio de imagens. Os índios Umutina imaginavam que o Brasil fosse todo o mundo; admiravam-se pois ouvindo o padre dizer que além do grande rio (oceano) existia a Europa dividida em muitos países de línguas diferentes, etc; o cúmulo de admiração era significado por sonora gargalhada, então. Essa gargalhada, a mesma de Oswald, jamais seria a de Mário."
(Gama, Luciana. Os Macunaítas, In: cap II, O Sequestro da Sátira ou O Rapto dos Macunaítas ou O Nome da Palmeira)

(...) Mário voltou para casa puto, atordoado, mais atordoado do que puto, varou o resto da noite, madrugada adentro, retirando e abrindo livros da sua biblioteca, nenhum, nenhum, nenhum, nenhum, nada sobre macunaítas, esses macunaítas não existem, concluía Mário, exausto, lá pelas sete e meia da manhã, agora muito puto, pressentindo que caíra numa piada invenção de Oswaldo que levou toda sua noite. Acordou tarde, meio dia, desperto pela conversa entre sua mãe e tia Nhanhã, uma ladainha sussurrada que chegava até seus aposentos e desceu as escadas, sonolento, no robe de seda, que interromperam a conversa com sorrisos de senta aqui, meu filho, vamos preparar seu desjejum. Pouco importava para elas, mãe e tia, tão bom era aquele filho sobrinho, suas peregrinações dentro da noite veloz e tampouco se acordava tarde ou cedo tamanha a dedicação que Mário, sujeito pacato e estudioso desde menino, pena que não continuou sua dedicação à igreja, começou tão menino, coroinha exemplar, pensavam em conjunto mas jamais comentavam entre si que Mário, depois de dezessete mais ou menos, nunca mais as acompanhou à missa, pouco importava, nosso menino, agora moço, continuava exemplar, cuidadoso, cada dia mais refinado, discreto, estudioso , caseiro e tímido, o que era a mais pura verdade: pouco importava para a mãe, para a tia, para o irmão, para os moços de então que se sonhavam futuros escritores e poetas  que escreviam cartas que Mário respondia com dedicação e ardor, como Carlos e Fernando, pouco importava para amigos mais íntimos como Manuel e Rosário Fusco, ou para aqueles alegres rapazes de Clima, ou mesmo para as viúvas de Mário, como ficaram conhecidas à boca miúda as cuidadoras oficiais do seu espólio intelectual no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo incentivadas por aqueles mesmos alegres moços de Clima, agora homens feitos, pouco importava que nosso menino não casou, que nosso menino gostava de meninos e meninas e bananeiras e galinhas e uma vez, uma mula, arre, tão pouco importava que esse pedaço da história não foi importado mas deliberadamente ocultado aqui, ajustado ali, será o benedito, importava mesmo que nosso menino, naquele dia, sentado no sofá, cruzando as pernas do robe de seda sulferino escuro que deixava uma listra larga da perna  direita do pijama de fora, enquanto a mãe e a tia preparavam o café gostoso, o café bom, o café preto que nem a preta velha, haveria de numa pulsão nunca cometida por ele antes, nem mesmo em Há uma Gota de Sangue em cada Poema ou na torrente de inspiração lírica que o acometeu em Paulicéia Desvairada, haveria de no dia seguinte, de noite, já em Araraquara e poucadissímo esquecido da raiva que Oswald o havia feito passar, ora bolas, uma noite toda procurando em sua vasta biblioteca por um povo que jamais existiu, começar, deitado na rede, o que viria a ser também em seis dias, o seu gênese, o nosso antigo testamento, o livro que o tornaria Deus: Macunaíma, o Herói sem nenhum caráter. (...) (Gama, Luciana. Os Macunaítas, In: cap II, O Sequestro da Sátira ou O Rapto dos Macunaítas ou O Nome da Palmeira)