sábado, 29 de agosto de 2009

"Cafézinho"



Ontem fui à casa do Yehuda Cavalli tomar café importado do Brasil já que ele estava achando essa história uma novidade e tanto, isto é, uma das maiores fabricas israelenses fazendo uma linha de pó de café estrangeiro. Pois fui, então, experimentar.

O Yehuda, enquanto eu iniciava o café, fez uma prédica sobre a propaganda que passa na televisão aqui em Israel. Pelo o que eu me lembro, um homem pulava de paraquedas em Salvador, no pelourinho, lotado de baianas e toma seu café. Ou algo assim. Antes: antes ele havia pedido para a aeromoça um café forte, com energia, com sabor, se anima nessas palavras, levanta da cadeira, a porta do avião abre espetacularmente, e, nosso modelo cai de paraquedas em Salvador.


Obviamente que meu amigo Yehuda, paulistaníssimo, criticava com razão o por que dessa imagem de Salvador, como se Salvador fosse a "cara do Brasil" com o pelourinho, lindas casinhas coloridas coloniais e enormes baianas negras com dentes e saias brancas girando sorrisos e doces tabuleiros.


Pois é, pensei, enquanto meu amigo Yehuda se indignava com essa imagem, o fato é que essa é uma boa imagem do Brasil: as baianas sorriem mesmo, requebram os babados das saias de tão contentes, o pelourinho é um dos poucos lugares que está completamente restaurado no país, e, por isso mesmo, digno de se mostrar, e os negros de Salvador são fortes e dão vitalidade de presente.

Que outra imagem teria do Brasil com essas caracteristicas juntas? Não ficararia bem para o Café Elite mostrar a Baia de Guanabara e o Cristo Redentor na televisão abrindo os braços para os israelenses e o lado europeizado do Brasil, São Paulo para baixo, é branco demais para simbolizar a energia negra do café brasileiro que a fabrica israelense quer vender.


Hoje quando acordei, Yehuda continuava a sua saga com o café brasileiro, para minha diversão. Vejam só que belo email sobre indignacação e café brasileiro:

"Na embalagem da nova linha de cafés de boa qualidade da Elite... no rótulo da parte de trás do que eles chamam de Kafé Brazilai (Café Brasileiro), vem um texto falando sobre o café do Brasil e há o parágrafo abaixo:

"יש אומרים שברזיל פועלת בכוח טעמו המלא העשיר של הקפה הנמכר ב'קפיזיניו', עגלות הקפה העומדת בכל פינת רחוב. אלו הן תחנות אנרגיה, מניעות את הערים הסואנות והתוססות של ברזיל."

"Há quem diga que o Brasil funciona com a força do rico e completo sabor do café vendido no 'Cafézinho',carrinhos de café parados em todas as esquinas. Eles são estações de energia, uma prevenção das cidades tumultuadas e agitadas do Brasil."


SÉRIO!!! Aonde a pessoa que escreveu esse texto foi? Eu sei que não conheço muito o Brasil, mas existe algum lugar que tem carrinhos/barraquinhas (igual de feira, pois é assim que eles mostram no comercial de TV!) chamadas "cafézinhos" em cada esquina???"

Yehudá Cavalli.



quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Portal Judaico

Dia 14 de Setembro é a inauguração do Portal Judaico na internet. Estréia junto minha coluna semanal de crônicas "Jerusa: além do que acontece no meu coração". Estou muito animada com o compromisso de escrever toda semana sobre as minhas pernadas sem fim por aqui. Vou escrever sobre a vida ao rés do chão em Jerusalém. E obviamente quero agradecer à Marylin Prado pelo convite e pela paciência que ela teve em, candidamente, durante meses, me convencer a aceitar a coluna. Admito que não facilitei mas ela é boa de conversa. Que paciência que ela teve com a minha majestade, uau...;)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Parabéns, Paulo!

Hoje é aniversário do meu amigo Paulo Coelho que compartilha vida longa com milhares e milhares de pessoas:

sábado, 15 de agosto de 2009

Nem luxo, nem Lixo



Sim, o assunto é lixo, coisa que me encanta desde que cheguei aqui em Jerusalém. Fiz algumas fotos do Jardim comunitário atrás da minha casa ( video acima), encantada que estava, e, ainda estou: sou frequentadora assidua da pracinha e as lavandas de um azul lilás cheiroso que enfeitaram as janelinhas da minha casa durante todo esse verão foram colhidas nela.
Além das caixas de lixos colocados em cada esquina há os murinhos dos prédios. Difícil é caminhar e não encontrar um murinho de pedra onde não haja algo que alguém deixou ali para quem queira. Sim, algo como "eu não quero mais mas pode ser que você queira", é a lógica. Foi assim que adquiri os vinte vazinhos que decoram minhas janelas, meu ferro para passsar roupas, meu criado mudo azul turquesa, as almofadas para encosto que compuseram meu sofá, a cestinha de palha onde coloco bujigangas, e, meu rádio-Cd que na semana seguinte da aquisição no murinho ao lado do lixo vi exposto igual em vitrine de loja. Sim, é tudo novinho, tudo em funcionamento perfeito. É feio deixar no murinho coisas impossiveis de uso, não faz parte da civilidade, ela existe por aqui.
Minha amiga sobre conversas de murinhos em Israel é a Ilana Bekin afeita à reciclagens de lixos que ela transforma em luminárias. Se tem algo que me encanta aqui são os livros deixados . Os ex proprietários espalham carinhosamente nos murinhos para que os títulos sejam mais visiveis: você quer, você pega, é seu.
Outro dia, numa caminhada, encontrei um murinho onde carinhosamente se organizavam chapéus-todas as cores- e lencinhos de seda generosamente dobrados. Também o vasculhei, como todas as mulheres que passavam por ali, e deixei como encontrei: todo arrumadinho como se fosse uma gaveta aberta para a rua, para o céu, para o outro.
Ontem, na volta do nosso tradicional jantar de Shabat na casa do Yehudá, deparei com uma kum-kum, a palavra hebraica que designa a garrafa elétrica para ferver a água do café, do chá, toda pia possui uma, é costume aqui. Hoje, não saberia mais viver sem uma kum-kum, ela facilita a vida e não entendo como até chegar em Israel pude sobreviver sem esse utensilio fundamental que faz café sempre na hora. Garrafa térmica é coisa do passado. Mas eu deixei a Kum-kum que encontrei ontem onde estava. Tenho a minha. Não preciso.
Ninguém aqui tem vergonha nem de deixar nem de pegar as coisas. Simples assim: civilidades. Quero saúde para gozar no final.






sábado, 8 de agosto de 2009

Constelações Familiares*


(*Constelação Familiar é um método psicoterapêutico recente, com abordagem sistêmica fenomenológica, de fundo filosófico, desenvolvido pelo filósofo e psicoterapêuta alemão Bert Hellinger.Hellinger desenvolveu seu método a partir de observações empíricas, fundamentadas em diversas formas de psicoterapia familiar, dos padrões de comportamento que se repetem nas famílias e grupos familiares ao longo de gerações.Fonte:Wikipédia, a enciclopédia livre.)

Desde 1994 que monto e desmontos casas. Sempre, sem esquecer nenhum detalhe. Tenho uma companheira enorme nessa saga que partilha comigo caixas, durex, caminhões, guarda-coisas, Ana Lucia, minha mãe, que é só eu falar que "acho que vou mudar" que ela aparece de onde está. Antes, soltamos boas risadas. Ela gosta. Eu também. Rimos muito nas mudanças, todas, lógico, simbolizam alguma perda com ganhos futuros nem um pouco previsiveis. Algumas vezes, muitas, eu nem participo da mudança. Vou embora e ela cuida de tudo. Reclama muito pouco, apenas comenta rindo: "quem pariu Moisés que o embale". Minha Tia Maria Lucia, filha de Eunice, irmã do meu avô, é igualzinha, e embala também as mudanças dos seus Moisés, Luciano, Ricardo e Guilherme Gama Ramalho, sendo que, a expressão "ter rodinha na bunda" é comumente usada em encontros familiares, sempre muito divertidos, porque todos os citados acima são piadistas e alegres.

A verdade verdadeira- para usar uma expressão do meu avô Mauricio Loureiro Gama- é que enjoamos das casas e da disposição das coisas. A casa da minha mãe na Mateus Grou está sempre em reforma. Ela cansa, eu também. Ela sabe que herdei esse gosto pelas mudanças através da nossa convivência. Ela mudou pouco de casa e de endereço quando comparado a mim mas , em compensação, nunca parou de mudar a casa inteira nos minimos detalhes. Temos, obviamente, histórias hilárias, como, por exemplo, quando minha mudança para a casa da Paes Leme, em Pinheiros, culminou com minha mãe desmontando o apartamento do guarujá e a casa da minha avó teia; após tudo arrumado, foram dias, me dei conta que eu possuia oito bandejas, quatorze cadeiras, duas geladeiras, aparelhos de louça para todas as ocasiões, tudo triplicado. Eu liguei para minha mãe e ela morria de rir. O resultado dessa história é que aos poucos fomos montando a casa de muita gente, como o Maestro Luciano, através da Neusa Romano e do Mauricio Negão, que, ficaram chiquéssimas e toda vez que os encontrava, eles lembravam, tiravam sarro das bandejas que impressionavam, coisas assim. Era divertido.

Do ano de 1994 até hoje, 2009, foram dez casas. Dessas, apenas duas eu encontrei sozinha: a que moro agora e a da Alziro Prates na Bahia. Um verdadeiro feito heróico para mim porque na verdade nunca precisei me preocupar muito com isso já que minha mãe procurava e achava as casas para mim e apenas me telefonava para ver se eu aprovava, se estava do meu gosto. Em muitas, eu impunha condições: sala grande ou janelas de ponta a ponta, ou paredes brancas ou assoalhos. Dependia da minha fase na época. Minha mãe entendia e atendia. Atordoava os proprietários com o seu magnâmico discurso e presença.

Outro dia ela me disse que viria para cá, Jerusalém me visitar. Eu, então, pedi para ela esperar um pouquinho porque, provavelmente eu vou mudar do studio onde estou morando e quero ter o prazer de que ela venha para me ajudar na mudança, pois, merecemos uma apuração internacional, depois de tantos anos. Não tenho quase nada aqui comparado as minhas outras todas casas. Em olha à volta e me pergunto como consegui acumular tanta coisa desde Janeiro, mês que mudei para cá, mas mesmo assim é uma mudança simples, como riu minha mãe ao telefone, me dizendo que essa é fichinha.

Perdi a conta de quantos ventiladores e ferros e liquidificadores e batedeiras comprei e doei nessa vida. Sempre rindo, principalmente quando tenho que comprar de novo, seja porque muda a voltagem e eu não sou a pessoa mais atenta do mundo para conviver com transformadores, seja porque não posso carregar peso na mala. Seja lá pelo que for e em que fase ou cidade ou pais me encontro uma coisa é certa: a cada nova reaquisição sinto que a vida é farta para mim, esteja eu com dinheiro ou não. Fartura nada tem a ver com dinheiro, assim como conforto e beleza depende somente de boa e muita vontade. Não está na prateleira.

Claro que tenho muita coisa espalhada pelo mundo. As pessoas se disponibilizam para a sentinela do que foi meu. Por causa disso, a parte mais intensa das minhas mudanças todas, é deixar exatamente o que a pessoa deseja ou necessita para guardar para mim. Eu nunca mais volto para pegar, claro está, e dependendo da dimensão da coisa fica por conta da minha mãe idas, voltas, carretos. Eu já não estou por perto e mesmo se estivesse seria por conta dela. Ela gosta. Eu também.

Sim, eu herdei dela o gosto pela coisa mas fui uma edição revista e aumentada. De quem, no entanto, minha mãe adquiriu a veia pelas mudanças? Por um lado, tenho certeza de que foi pela Vó Teia, mãe da minha mãe. Afora inicio e fim da vida, minha avó, muito discreta e elegante, nunca conseguiu parar muito tempo dentro de casa. Arranjava desculpas belissímas, arrumava a malinha, pegava a "jardineira" na rodoviária e partia linda, alegre, cheia de saúde para várias outras casas, como a do meu Tio Mauri em Tupã, a de amigas dela em Campinas, na da minha mãe em São Paulo e no casarão em Tatuí. Ela fazia visitas de uma forma tal que nunca passava mais de seis meses no mesmo lugar. Precisava sair e saía. Era sempre desejada e querida nos lugares. Depois que partia era rodeada de telefonemas de "quando você volta, Stellinha?".

No entanto, eu creio que minha mãe herdou muito do gosto pela mudança, pelo lado do meu avô, Mauricio, pai dela. Durantes anos escutei e internalizei que, se a familia tinha imóveis, era por esforço e obra da minha avó Teia com a economia do dinheiro ganho do meu avô Mauricio, que cá entre nós, possuia, além do garbo e da beleza, uma máquina de escrever e oito empregos.
Este homem, este meu avô Mauricio, de quem eu herdei sem sombra de dúvida, o vigor e a pândega de viver a vida sem aborrecimento, sustentou e amparou, com sua Remington, duas familias: uma, a nossa, que era constituida de minha avó Teia, tres filhos e seis netos. Meu avô ajudou todo mundo a ter casa em vida e em morte também, além de muita coisa que alguém quer ter dentro dessa casa, a saber, quase tudo que fica dentro da geladeira e a volta dela como piscina, sala, armários com roupa, sala com móveis, grama, cortina.

A verdade verdadeira é que nenhum de nós, em escala, jamais fomos tão brilhantes quanto ele, que por sua vez, adorava ser generoso com os que dependiam dele, isto é, todos da familia, incluindo os agregados, genros e noras. Cada um de nós na familia temos uma qualidade ou um defeito que vem dele mas somente ele condensava, espetacularmente, todas as virtudes e defeitos, que emanavam da sua pessoa. Quem teve o privilégio de conhecer meu avô sabe exatamente a que estou me referindo: meu avô era um homem bonito, impecável nos ternos, inteligente, bem sucedido e como se não bastasse essa conjunção favorável, era um homem importante, famoso, alegre e generoso. Sim, ele não era nada humilde mas quem é que pode ser humilde dormindo e acordando com tamanhas qualidades todos os dias? Ninguém que conviveu à sombra da luz do Mauricio pode ser humilde ou chorão mas nós todos nos tornávamos humildes quando ele estava por perto. Não havia outra realidade. Ele era melhor que todo mundo junto. Era fato. E então cuidava de todos como um rei cuida do seu reino. Por conta disso, apesar de humildes, levamos todos uma vida na realeza, no castelo que meu avô mantia para a familia dele.

Mas havia outra familia. A que nos ensinou o tabu. Meu avô possuia outra mulher, que por sua vez tinha três filhos que não eram dele, acho. Mas ele criou, ajudou e sustentou todo mundo por lá também. Assim como nós, ali ninguém era humilde. Ao contrário, todos da outra familia do meu avô, descendiam de nobre nome da imigração italiana da década de vinte. Essas crianças da outra familia cresceram com a presença do meu avô na casa delas. Depois, quando adultos, viam ele como a um pai, também brilhante, também importante, também incontestável, exatamente como nós.

Mas meu avô, esse ser inquestionável, jamais teve uma casa própria embora tenha dado casa para todo mundo. Ele simplesmente não quis o que não é a mesma coisa que não precisar. Ele não precisava também. Meu avô vivia a vida com um olhar acima das necessidades básicas e conhecia todas elas: veio de familia muito, muito pobre, coisa que não foi o suficiente para afastar dele a fartura da vida que foi farta para ele em tudo: amores, dinheiro, mulheres, festa, consagração, familia, e muita, muita dança, musica, trabalho e alegria. Sim, ele partilhava e dividia tudo isso. Tirando os ciumes e acessos doentios das mulheres da sua vida nunca soube de outro problema do meu avô. Nunca o vi chorando e só depois da sua morte, quando eu não conseguia me encaixar em algumas situações na minha vida, é que percebi que convivi a minha vida inteira com um homem, ele, que eu nunca ouvi reclamar de nada. Sim, era esse o segredo dele, o que o tornava um rei absoluto. Só após a sua morte é que me dei conta que ele devia ter muitos problemas como todos nós, como o mundo inteiro, mas era do seu feitio tirar tudo isso de letra e simplesmente não comentar sobre as intempéries da sua vida, ao mesmo tempo que, apagava o incendio de todo mundo.

Um nobre. Sim, ele se calava quanto aos problemas mas nunca se calou sobre o lado bom, o lado proveitoso de qualquer situação e foi assim que a vida o tornou farto e rico e expansivo. Passei a vida vendo as mulheres e homens ( esposas, filhos, netos) disputando a atenção do meu avô mas era impossível reclamar, financeiramente, dele. Dava tudo para todo mundo, o que acabou deixando tudo mais claro para mim quando tenho que calcular exatamente da onde vem determinadas reações minhas perante a vida. Sim, menos brilhante que ele, mas muito, muito parecida. Assim como meu primo Marcelo Gama. No entanto, não chegamos aos pés dele, temos ciência disso. É muito dificil para mim conviver com pessoas que não consigam administrar as pequenas coisas da vida com grande categoria e não saibam ministrar todo mundo junto.

Creio que foi por isso que depuz todas as minhas armas e minha parafernalia emocional conforme fui me certificando que o Samir, meu namorado, cuida de todo mundo da vida dele como se fosse a coisa mais natural do mundo sem nunca ouvi-lo reclamar: trabalho, seis filhos, a mãe dos filhos dele, e, para completar, eu, que cheguei chegando, e, claro, fui ficando conforme me certificava a cada dia que ali estava algo do meu avô, a ombridade, uma natureza sem suspiros que cuida dos seus com uma vontade férrea e espontânea onde todos são prioritários. O que ele recebe de volta? sorrisos na face quando ele chega, felizes com a sua presença.


O Samir construiu uma casa muito grande, de quatro andares, que abriga confortavelmente toda a sua familia. Outro dia, ele me disse, entre um gole de café e outro que, ele mesmo, não precisa de tanta coisa, que simplesmente, precisa apenas de uma cama, um quarto, e, claro, amor de uma mulher e de uma vasta familia. Eu, claro, sorri. Cresci vendo essa fita, essa pelicula, esse filme.

Eu me chamo Luciana em homenagem a um homem muito importante na vida do meu avô, que carinhosamente ele chamava de "Papai Luciano", mas que era seu avô, Luciano Loureiro de Mello. Foi quem criou o meu avô quando o pai dele, o Teófilo Andrade Gama, foi atingido por um raio quando falava ao telefone na farmácia de sua propriedade, em Tatui. E hoje estou certa de que meu primo, o Luciano Gama Ramalho, esse gênio do Phiton, possui o nome por homenagem também. No caso, penso eu, por causa do mesmo nome, eu e o Luciano temos uma ligação mais direta com o Vovô Luciano; do pouco que sabemos, um sujeito pacato, que criou os netos, Silvia, Eunice, Mauricio e Murilo.


Vovô Luciano era boiadeiro, não tinha propriedades, mas viajava comumente para Minas levando e trazendo bois para o interior paulista. Foi em Minas que importou Teófilo, recém formado em farmacia, para casar com sua filha Anésia, mamãe Nesita para os íntimos, depois conhecidissíma como Anésia Loureiro Gama, professora importante, nome de grupo escolar em São Paulo, rua em tatui, etc.

Posso dizer com segurança que não era nada comum possuir diplomas nas poucas faculdades existentes no Brasil do XIX. Nesse sentido, é simples imaginar que Teófilo de alguma forma possuia uma familia para lá de remediada, que permitiu que ele fosse um doutor em Farmácia, na faculdade de Ouro Preto. Creio que é essa a linhagem dos inteligentes da familia. Não são poucos. Aqui incluo, fora os já citados, o Paulo Gama Aires, filho da Tia Cecilia e neto da Tia Silvia, irmã querida do meu avô bem como as filhas da Tia Ana Maria, a Cris e a Andreia, mas elas também são Castrucci, por parte do pai e avô, garantia de inteligencia dupla.

Infelizmente, sei muito pouco sobre os filhos e netos do Murilo, irmão querido do meu avô e por isso não posso comentar sobre eles, sobre quem gosta de mudanças ou sobre quem é o inteligente alí. Uma coisa apenas eu tenho certeza, deve haver. Só não sei quem, ainda. Tio Murilo ficou em minha lembrança como um amador de pássaros, assim como meu avô, outra constelação da familia, os pássaros, que recaiu sobre meu tio Mauri, meu tio Tata, meu primo Marcelo, e eu, um pouquinho. Uma coisa é certa, alguém, acima deles amou também os pintassilgos.

Eu creio que é do Vovô Luciano, esse lobista do boi dos outros, que andava de lá para cá, sem parada, que está a chave pelo gosto de mudança de lugar que se apodera da minha mãe, da minha tia Maria lucia, dos meus primos Ricardo e Guilherme Gama Ramalho, do meu primo Marcelo Cardoso Gama, Maria Silvia, Mário e eu. Acho que os filhos do Tio Armando Carlos podem ser inclusos nessa lista quando o assunto é boiada. Somos todos bem corajosos quando o assunto é arrumar a malinha.
E ponto final.















sábado, 1 de agosto de 2009

Queridos Amigos


Tudo, que nada nonada, caminha pela aventura Maria Adelaide Amaral, aos meus queridos amigos, como nomeio e engasgo depois de maio quando fiz meus 43 anos:

Anna Rachel Machado. Depois de uma volta ao médico e na volta para casa escreveu, ela, poeta, um email onde eu estava inclusa:

Je n´aime pas du tout repasser ce genre de chose, mais...l´union de Fernando Pessoa, avec les mots de Brel, traduits par Chico Buarque, avec la voix de Maria Betânia me semble quelque chose que je peux appeler de "poésie totale". Bises à vous tous, partie de mes amis qui, à n´ímporte quel période de ma vie, m´ont fait apprendre à jamais laisser de "rêver des inacessibles rêves" .Bises. Anna Rachel.

De outra feita, Duda Sinkevisque me escreve um longo email, relembrando situações inusitadas com palavras que passamos juntos numa data perdida na lembrança mas relembradas no email. neste, me informa que conseguiu retomar contato com a Monica Vendramini, uma querida amiga, dos queridos amigos, falta eu conseguir retomar também.

Retomei uma conversa superbonita, familiar, com a Silvinha Macedo, minha prima irmã, e com O Rodrigo Macedo, meu primo irmão que eu nunca vi e que me conhece de fotografia, aquela que está a familia toda. Ele já é pai e fiquei emocionada quando constatei isso no facebook e pensei: ei, esse cara é meu primo..." tivemos uma longa conversa, e, descobri que ele é pai de uma linda judiazinha chamada Alice, nome também da minha avó, mãe do meu pai, tio dele.

Depois da despedida na rua Simão Alvares, na frente do taxi, em setembro do ano passado, no meu último dia de São Paulo(sim, eu fiquei na calçada vendo o taxi atingir a esquina), Douglas Bohm e Peter, chegam aqui dia 30 de agosto, o que significa muita coisa para mim, uma vitória, e, eles chegam para sempre. Sem passagem de volta.

A Tahia Macluf também chega para o Yom Kipur, animadíssima, e essa viagem eu vou ver de perto, pois será diversão garantida a Tahia por aqui. Minha mãe faz menções de pousar, enfim, em Jerusalém no mesmo mês, o que acalenta a minha alma. Estou com muitas saudades da minha mãe Ana Lucia. Ilana Bekin também está com o pé quase aqui.

E eu vou receber todo mundo. Estava prestes a passar uns dias no Brasil mas não será preciso. Quando cheguei aqui parecia que estava no Guarujá, sim, no centrinho tomando sorvete, de tanta gente conhecida que se encontrava na rua, muitas, que eu conhecia de vista e de chapéu, como diria Duda e Machado de Assis.

Neusa Romano vai estrear e encarnar a Araci de Almeida num musical em São Paulo "Eu sou o Samba" e o Gabriel, filho dela, já fez um ano e quatro meses. Está lindo.

Anna Villa no fim da saga entregar a tese e eu junto. Horas e horas debruçadas sobre pranchas e fotos de colunas so século XVIII o que me obriga a resgatar muita preceptiva sem nenhum exemplar por perto. Eu e o Ernest Curtius. Tenho que citar de lembrança. Claro, depois de anos tabulares elas não sairam de mim.

E Amilcar Torrao continua em Berlim. Uma ausência e tanto, completamente perdida sem ele. Tudo aqui, por sua vez, se resolve rapidamente, muito prático, trabalho, universidade e namoro, e o dia é curto, e a vida também. E D' us que me deu um amor no tempo de madureza, como diz Drummond, pois que tenho um amor, ladrilhá-lo.













quinta-feira, 30 de julho de 2009

Férias


Nada contra nada. Nonada mesmo. Férias, descanso: bom para misturar TPM com crítica Literária. i. A gente atira o pau no gato mas o gato não morre. Não entendeu porque precisa entortar o ouvido para ficar direito, retinho. Resposta a um libreto que o Eduardo Sinkevisque escreveu e me enviou para ler. Lá vai. (mesmo que lá vem):

"Oi duda, bom ler você. Sim, fiquei encantada com a Menta-Pimenta, com o bode, com a ordo toda da narrativa, entendi tudo e fiquei muito satisfeita, o que acabou me curando de um resfriado intelectual enorme, coisa que vem acontecendo desde que retomei a leitura dos teus textos. É uma coisa profunda na verdade e amarra várias outras, mas todas relativas ao pensamento. Entendi , lendo seus textos novos ou antigos que não era só meu ego de quinta grandeza de vampiro de literatura que gostava, porque venho passando por chata e intratável em vários lugares ou com alguns escritores.
Mas, lendo e questionando porque seus textos me são aprazíveis e meu intelecto se sente em paz ao lê-los acabei por formar uma opinião mais justa de mim, e , talvez do que me desanima, me chateia e por fim me deixa de saco cheio no texto literário alheio, nessa ordem, vou começando a me afastar educadamente e depois não aguento mais, chuto o pau da barraca, porque me parece que uma geração toda de escritores que não é a minha, perdeu a leitura do sutil, do não não quero obrigada e me obrigam a dizer, não gosto, não me satisfaz, acho burro.
E tudo isso tem a ver com o verossímel. claro, ouvir histórias e inventar outras, é interessante, mas conheço escritores que vivem disso, são incapazes de produzir um pensamento ou uma história inverossimel que possa ser crível...e são pobres, são vampiros da vida, da história alheia, e ficam no bar da esquina ouvindo histõrias para depois escrevê-las tim tim por tim tim. Então, bodeada com isso, esses escritores em sua maioria me adoram porque sou uma contadora de histórias minhas, tenho muitas, vivo a vida com uma deselegância ovidiana, ou seja, medindo o desmedido o tempo inteiro para deixa-lo natural, e ponho todos eles para correr, porque fico p da vida. Mas, porque seus textos são diferentes, me são gostosos de ler, me aliviam o cérebro, descobri que sim, que a diferença é que você, ao relatar, narrar, etc, procura, ou melhor, só considera a luz que permeia as cenas do seu olhar que você viveu ou escutou. E por isso fica tudo muito bem escrito, seu texto trás luz para o obscuro dos desencontros da vida, foca-os, lapida-os, e, o fato vira narração da boa, como todo bom escritor.
Então descobri que é justamente isso que tem me irritado com uma nova geração que é muito boa em ter livros editados mas péssima em filtrar a vida na representação, melhor, não tem representacão, é um texto macaco mesmo, dos bons, daqueles que não diferem o homem dos animais, viramos todos animais de bares em páginas de livros que reúnem diálogos que se dão em becos, de noite, mesa de bares, para isso, penso eu, não preciso de literatura vou no bar também. Quero uma reflexão da vida num conto que mude a natureza do que já é dado, quero mímese e não os vômitos das conversas alheias, sempre escuras se apenas repetidas. Quero que as palavras, todas juntas, contando uma história mudem a minha visão daquela história, sou uma leitora madura e não aguento ser leitora de estagiário de escritor, virei uma leitora muito madura e muito exigente, e a vida já está contada, já está lotada de fatos contantes, não preciso que alguém que acha que eu não vivo, que não saio de casa, me escreva contando como é a vida como ela é, ou seja, interessantissíma. Eu quero, um escritor como você que deixa as coisas e as pessoas interessantes mais interessantes ainda, me revelando a luz que eu não vi.
Seus escritos tem muita luz. É incrivel como você olha, anota, e transforma tudo em luz, como exemplo da história do traficante, e tudo vai se confabulando e se ajustando, para o tempo todo compartilhar com o leitor que viver vale a pena através do olhar e da palavra que olha, não deixa de ver nunca a luz que pode haver em qualquer situação, seja a dela própria, seja a que você entorna nela... fora isso, não é literatura, o que não arrebata, não tira o leitor da sua vidinha, não é literatura. Colocar as coisas em palavras não é literatura, senão, já dizia nosso Ari, no capitulo 1 da Poética, qualquer tratado de medicina seria poesia...
bjs
Lu



terça-feira, 21 de julho de 2009

Sossego

Enfim consigo alinhavar o sossego. Coisa rara, sou desassossegada por natureza, porque gosto dos muitos e curvos esses da palavra, cobra coral da língua portuguesa. Quase todo mundo voltando das viagens: Eduardo Sinkevisque de Fortaleza, A. de Paris, pai e mãe do Yehuda de volta ao Brasil, e Amilcar Torrão continua em Barcelona-Berlim, viajante ainda.
Trabalho sem parar: ora bolas não me amole com esse papo de emprego não está vendo não estou nessa. Dois episódios em particular me chamaram a atenção: no primeiro, cheguei na casa da senhora Clarita, noventa anos, e ela estava sentada na cama tentando telefonar apertando os números do relógio de pulso. Eu simplesmente tirei o relógio da mão dela e coloquei o telefone. Ela não se deu conta. Sabe e enxerga todos os números perfeitamente; no segundo episódio, já em outra casa, a do senhor e senhora Yacoov, há um belo escritório lotado de livros e computador novinho em folha com tela plana e tal. Aos poucos fui escutando um som muito antigo de máquina de escrever. Pois bem: na mesa da sala sr. Yacoov manejava feliz sua velha e boa lettera. Depois, vi as letrinhas na folha de papel branca quase amarela presa por vontade ao carro giratório. Alguém resistiu ao mundo letrado digital. Um herói esse sr. Yacoov.
Samir passou por aqui e devolveu os acentos ao meu computador. Recuperei todos: cedilha ç tio não circunflexo você crase à e acento agudo é . Perdi a interrogaçao mas a gente nao pode ter tudo além do quê não tenho nada vezes nada para perguntar minhas perguntas são todas retóricas e quintilianas: todas preceptadas e fazem parte da minha preceptiva eu que vivo fazendo análise do discurso alheio e não perdôo os bonzinhos que se esquecem que tenho anos de retórica e insistem em tentar captar a minha benevolência com um discursinho geral: esquecem que eu não faço parte da galera iletrada. Fazer o quê? :)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Haredim, virgula: qual?

Eu fico chateada como sempre com a falta de fontes: quando se comenta, superficialmente, da ultra ortodoxia ou ortodoxia em Israel eh bem comum as pessoas colocarem TODAS as faccoes, que sao muitas, no mesmo saco de gato, e dizem Haredim, sem determinar quais.
Uma pena. Vamos aprofundar? a senhora que eh o motim da bagunca no Mea Sharim, bairro ortodoxo, eh da seita Naturei Karta, a mesma que eh anti sionista e nao aceitam o estado de Israel. Antes de ontem , por exemplo, o rabino da seita foi encontrar com o povo do hammas, para dar apoio a eles. Foi pelo Egito.
A briga, entao, eh muito boa, mas para isso temos comentaristas a altura para que voce possa entender melhor o que acontece em Jerusalem: Vamos as boas fontes, portanto, comentaristas que entendem do assunto: ( Fonte: Jerusalem Post)

Comment: The haredi distrust


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With the haredi woman suspected of starving her three-year-old son, the evidence from doctors, social workers, and police appears to leave little room for doubt regarding the severity of the situation. The woman was allegedly a danger to her child, and thus measures were taken to protect him from further harm.

A police officer and a haredi...

A police officer and a haredi man argue during a protest against the arrest of a woman accused of child abuse in Jerusalem.
Photo: AP

The facts are presented; the evidence is concrete. Yet there are people rallying to her defense who are convinced of her innocence. They call the whole situation a blood libel, a condition of malicious slander and a vengeful nature. Whether or not her actions were intentional does not change the effects, yet the haredim purport to be certain. How can a community be so confident that she is not guilty when everyone else is resisting their every claim?

The question relates to many tensions involving the haredim that have been present for decades. The relationship between the vocal haredi community and the Israeli institutions is notoriously unstable, as indicated by riots and other aggressive protests that spring up every so often against municipal and government policy. According to Aharon Rose, an expert on haredi customs and history at Hebrew University, this antagonism is a symptom of a deep-seated distrust and suspicion on the part of the haredim. In the case of this convicted woman it manifests itself as a denial of reality, he says.

The general animosity between the haredi and secular communities is rooted in the State of Israel itself. While none of the haredim support the state, the mainstream sects at least cooperate with it and agree to participate in the elections.

Gilad Malach, a Hebrew University PhD student in Public Policy, estimates that the radical haredim, members of the Eda Haredit group, make up a mere 5% of the community. They too refuse to recognize the state, and unlike their brethren will not cooperate with it.

Dr. Tamar El-Or, professor of Sociology and Anthropology at Hebrew University, explains the frequency of the extremists' outbursts. "Every year, usually every summer, there are riots," she says. "It's nothing new." She attributes it to the fact that the more significant problems are not being confronted since no one is brave enough to approach them. Hence, the riots centering on issues like gay pride and parking lots being open on Shabbat are reflections of more serious problems that are not being taken care of by the leaders of Orthodoxy or by the Israeli institutions.

Dr. Yehuda Goodman, a lecturer and anthropologist at Hebrew University, explains that the tendency to riot is a part of the haredi identity. "They feel it's invading and corrupting and fighting to break down their way of life," he says. The haredi community is not just a ghetto, set up to keep out those who would threaten their way of life, Goodman says, it must also fight and maintain the superior stand they feel that they have over the secular world. He explains that the haredim need these fights as a part of the formation of their identity, in finding a symbolic place to fight the social other.

However, there is still the question of percentage. TheEda Haredit, and especially the woman's sect of Neturei Karta, is clearly outnumbered by the more mainstream haredim. How is it possible that these radical few can have such an impact on their society?

Professor Ira Sharkansky of the Hebrew University political science department writes, "When one of the communities finds an issue that excites others, the whole ghetto is likely to respond. None can remain behind on an issue that gains traction as defense of Judaism. The woman charged with abusing her child is an example. She had starved her three-year-old boy to the point where he was severely undernourished and weighed only 15 pounds. She was affiliated with one of the smallest and most extreme of the congregations, but the involvement of the police and municipal social services with a pregnant woman was enough to recruit others. The protest spread when the police arrived with their truncheons and horses to clear the streets."

While this opinion is generalized and based on a theory of adrenaline, it follows along with others' explanations of the haredi mainstream's silent compliance and inactiveness. The collective reasoning for protesting against the woman's conviction, however, cannot be based solely on a snowball effect.

Goodman points to the dishonor that would follow on the heels of abuse accusations. "It's a terrible issue of stigmatizing the entire haredi community," he says. "… It's much more intense because it's not a huge community, and people know each other personally - it's an attack on their specific group. It's not the general haredi fight as they understand it." The haredim are wary of secular media painting their family life as dangerously irresponsible, saying that their family units are too big, he adds.

Malach agrees with this assessment, saying, "Even though there are parts of haredi communities that don't like the points argued for parking and the woman, they're not sure she's right; despite that they wave and go in the way that 'We are haredim, so we have to defend ourselves; this is an attack against our community.'"

The haredi way of dealing with psychological disorders or abuse is as low-key as they come, kept under private control when possible and dealt with in spiritual ways when not. The fact that this woman's actions are being splashed across public media is a breach of their communal privacy, and, as they would have it, fodder for the secular opposition. Public accusations reflect upon them directly, so they will take to the streets no matter what.

Whether or not the haredim actually believe in the woman's condemnation is irrelevant at this point. They can testify for her character and they can portray her doctor as evil incarnate, but it is immaterial since their loyalties would not allow them to operate any other way. They will argue for her since to them, she represents their community to the outside world.


sexta-feira, 10 de julho de 2009

Tudo de Bom

para os que estao chegando ao Brasil, para os que foram para Paris e Berlim, para os que continuam aqui em jerusalem; tudo de bom para quem estah comecando namoro, para quem ta terminando, para quem continua namorando.
De saida para nosso tradicional jantar : eu, Y., H. e agregados. Shabat Shalom!