e-dição comemorativa: 1 ano em Jerusalém



domingo, 31 de janeiro de 2010

Parelha de contos de Eduardo Sinkevisque abrindo o ano de 2010:

À guiza de qualquer texto coisa palavra conto Ou prefação para Sinkevisque
( Por Luciana Gama)
O Acústico Jerusalém inicia seu ano letivo com dois textos inéditos. Maravilhoso e silêncioso. De Todorov a Adorno. De novo: O Acústico Jerusalém volta às aulas com dois textos inéditos do meu escritor favorito. Aquele, chamado Eduardo Sinkevisque, que escreve para que eu possa dormir, acordar, e depois, muito depois da minha leitura, compartilhar. Não sei se já comentei mas eu tenho um escritor que escreve diretamente para mim. Linha por linha. Depois, eu divido o lido. Antes. Antes, engasgo. Não disfarço tudo dentro, o texto com tudo dentro. Não sei como me desculpo que tenho um escritor que escreve só para mim: Talvez assim: sorry, periferia. Para gerar um Torquato, mais uma viagem à roda do meu quarto. Os netos do Tasso, nós. Eu, você, nós dois já temos um passado na rosa púrpura do Rosa na rosa dos ventos, ou, jardineira de meu pai não me corte os cabelos, ou, O: Van Gogh de Eduardo: Obrigada por iniciar meu ano. Os contos ( deixa que te conte) estão postados abaixo. Um sobre Guimarães Rosa e outro sobre Clarice Lispector. Texto ecoline. Velazquez sempre olhando. Sinkevisque só faz escrever ponto de fuga : Los Meninos. Bom ano, este. Promete. Que todos os ouvidos se desintortem. desentortem. Pão ou pães é tudo questão de opiniães, diz Rosa. Cotonete de criado mudo: livro. texto. Discurso é amor fragmentado. Só Barthes não bastava por isso Macabéa também foi atropelada. sobre a virada: temos paginado toda noite. Quando escrever era amanhecer nas mãos cacos de vidro. Ladrilho texto. Certo estava Gaudi que não terminava nada. Só azulejava. Se fosse português, semeava palavra, jogava por aí, caía no paissandu. Quem nem sereia a vaia alheia. Aquilo que o leitor não lê, cultive-o, é você. Vou chegando. Bye Bye so long very well.

CADA MACACO NO SEU GALHO por Eduardo Sinkevisque

Leio Guimarães Rosa pelas beiradas. Bordas de bordados de prefácios nada fáceis quatro. Leio Rosa pelo talo. Leio Guima pelos ímãs. Afastamentos distanciamentos brechtinianos de homem de teatro. Leio João com letras de irmão caçula, com letras de filho raspa de tacho, letras de filho bastardo. Leio João Guimarães Rosa como arara de olhos de Ara, mulher rara em homem viajador por Minas, mundo, Araraquara. Leio Joãozinho como Aracy em rede embala.Meus micro-escritos são micos-leões dourados, falhas nanotecnológicas, mas são sínteses lógicas do olhar muito focador. Lá fora as mortes, noves fora as naves caídas do céu, cada desolação é coreografia que nos desafia. Leio Guima indo embora. Leio Rosa chegando na chegança com a flor só sozinha de um sobrado, construção portuguesa anacrônica. Leio Guimarães Rosa no anacronismo da vida. Na barbearia, aparo fios, veredas das florestas de meus cabelos e barbas.João Guimarães Rosa, com borboleta no pescoço, não usava gravatas, tinha a espécie voadora como ornamento. Leio sua invenção de ficção palavra que, por ser invenção, não era regionalismo. Criação de língua, nó de asa que fez do regionalismo ficção. Osso de borboleta, ossada. Leio Jão-João, São João, por isso posso fazer de São Paulo meu sertão. Colocado o sobrado no lugar do soçobro, quando estou nas bordas, beiradas, estou no olho infinito do azul exclusivíssimo que fala a reescritura leitura dos prefácios não-prefácios de coisa grandíssima nomeada ninha, ninharia. Em posição cata-cavacos, meu corpo que esqueço, não me lembro, judio dele, negligencio, lê de quatro burrinho-pedrês, prosa como versinho, a super-valorização dos efeitos absolutos, dos efeitos hiperbólicos das medidas poucas, das mentiras loucas, deliciosamente verdadeiras, como os afetos são pathos, patéticos porque elétricos, não porque patetas, não no sentido comum do patético chato, século sem século do tédio fora de propósito. Efeitos são afetos. Leio Guima pelas alvoradas, pelas auroras, pelas manhãs que não vão embora, pelas tardes que nunca choram e, principalmente, pelas noites de gozo de cantos suspendidos no ar. Leio Guima e te conto. Mesmo em tempo morto, de consultórios, consultas e filas sem médicos, nem remédios, suspendo o gozo gozoso entre o inusitado do ritmo, o cajá já caiu cajá do cajá já caído do tambor de bater tambor da percussão em quintas, intervalos de quintas. Leio o Rosa com som que não bate com a boca. Leio em voz alta, oitavas rimas em escalas amplificadas. Escadas escaladas. Paradoxo roseano, parada na parada da passagem leitura em pé e deitada: o mínimo finito fica máximo infinito em jornadas noite a dentro. Enrolo rolos de carretel, papel aple de maçã interdita. Desenrolo o que de João Rosa leio. Desenrolo e te conto: Aletria e Hermenêutica; Hipotrélico; Nós os Tremulentos; Sobre a Escova e a Dúvida. Cada um deles, cada macaco no seu galho, mas na mesma árvore, macacos primos parentes. Não gêneros. Leio macacos roseanos e te abraço num abraço de apertar macaco antes da guerra. Primeiro macaco: “O O é um buraco não esburacado”; “Se o tolo admite, seja nem que um instante, que é nele mesmo que está o que não o deixa entender, já começou a melhorar em argúcia”. Segundo macaco:“pragmático mundo da necessidade, em que o objetivo prevalece o subjetivo, tudo obedece ao terra-a-terra das relações positivas, e, pois, as coisas pesam mais do que as pessoas”. Terceiro macaco:o olho muito focador lê o conto. Identifica os pontos. Salva textos em pastas. Doce de leite grosso em pasta. A vida só se salva náufraga, só quando naufragada. Embaixo da chuva meditativa, visão contemplativa. O olho muito focador não é aplauso de foca, cambalhota de compota doce na alegria de estômago oco. Agora, o poema é poema nenhum. A chuva basta. O olho muito focador enforca a iletralidade, a ilegibilidade teatral dos sentidos legíveis de quinta-feira sem essência. O olho muito focador diz, no interdito lido, que estar no mundo é Rosa, página 115 da edição de Tutaméia que se possui. Estar no mundo é desfocadora realidade convertida em irrealidade. O olho muito focador faz síntese que traz e traduz clorofila remanescente de antiqüíssima anedota que, na chuva, desfaz-se de si mesma. Quarto e último macaco: “tudo de cor se seguiu. Isto é: o rato, rápido; o gato mágico. Oh que para desejável amorável pervê-la eu precisaria de estar a raso grau. Mas todos somos bobos ou anões em volta do rei”.Macacos abraçados, guerra posta em linha de frente dos dias atuais, macacos me mordam se não concluir com o João num resto de árvore, resumo de galho, de nó de cerejeira:“Só sei que há mistérios demais, em torno dos livros e de quem os lê e de quem os escreve; mas convindo principalmente a uns e outros a humildade”. Só sei que há miados demais no mundo láforaquidentro. Só sei que esqueço os aquecimentos, não os cantos de trabalho ancestrais. Leio João Guimarães Rosa. Com ele não durmo, nem me deito. Invento a piada da vidente que, ao invés de trazer a pessoa amada em três dias, leva a pessoa amada para longe em três tempos.
Eduardo Sinkevisque 31/01/2010

LEITURA REPETENTE por Eduardo Sinkevisque

Sempre li Clarice. Sempre, desde sempre Lispector. Digo sempre, desde os treze anos. Há muitos anos. Não comecei com A mulher que matou os peixes, nem com livro sobre coelho, muito menos com compilação de contos populares, relidos reescritos por ela. Comecei, nos bancos do pátio do Colégio de São Bento (o de São Paulo, no Largo São Bento, não o do Rio de Janeiro), nas horas de intervalos de aulas, quando não fazia aulas de ginástica. Comecei Clarice pelo fim: Um sopro de vida – pulsações. Soube-a morta por um poema de Ferreira Gullar copiado no rosto em branco, na folha de rosto do exemplar que uma moça me emprestou.
A leitura trezeanista não prestou. Não entendia Lispector pelos fantasmas, pelo espectro, pelos plasmas, nem pelos ectoplasmas. Não entendia Clarice escritora compondo narrador de livro em livro sobre livro de Ângela. Muito menos percebia autor/autora. Entendia Clarice pelo espectro solar. Pelos chácras. Pelas chácaras que se abriam frente às leituras moralistas corretoras dos corredores e salas de aula do colégio. Eu era repetente. Clarice se repetia em páginas porque pensava (sem muita certeza, como ainda hoje) que ela falava de uma mesma coisa o tempo todo. Coisa-palavra, palavra-coisa.
Palavra me coitava. Perdi a virgindade com essa leitura. Virgindade de frente e de trás. Por todos os lados fui deflorado por ela. Tenho até hoje o exemplar do livro emprestado. Nunca o devolvi. Ele era meu. Só poderia, pelo tempo que quisesse. Quis pelo tempo do para sempre. Mesmo que pudesse comprar outro exemplar, nunca fiz isso. No imaginário de ginásio, outro não seria aquele, emprestado-roubado, transgredido. Outro não teria o poema do Gullar. Outro seria novo. Eu não era mais novo. Eu era usado, usadíssimo.
O livro combinava comigo. Fazia decoro. Li mais do que uma vez Um sopro de vida. Lia Rilke em conjunto, fazendo par de despedidas. Cada leitura, outra vez no era uma vez. Os instantes já eram instantes-já. Já eram, já foram.O livro de Clarice nunca ficou na estante. Falo de estantes já-já. Não é ainda o instante de falar de estantes. A hora da Estrela só li só mais tarde. Sabendo já ser dos últimos que após escritos matavam Clarice Lispector, que disse morrer, ao jornalista, quando terminou de compor a não-obra prima sobre não só a nordestina.
Disso, trato também quando me ocupar de estantes, ou logo após as estantes para ser mais preciso. Li os contos de Clarice, em várias edições antológicas organizadas pós-morte. Em outras compilações, em organizações feitas pela própria escritora. Não nomeio os volumes porque se avolumam na memória, avolumados na vida empírica, nas editoras, nas livrarias. Prefiro fazer brevidade de títulos. Li o Ovo e a galinha, substituindo termos por corpo e alma, por sugestão de Rosa-Rosinha, amiga judiadinha. Heresia com o texto? Talvez.
Experiência saborosa tal qual chocolate na boca e água de chuveiro do lado de fora do corpo. Leitura transistórica, tresleitura?Talvez. Porém, a galinha poderia estar para chocolate-corpo, assim como o ovo para água-alma. Em escritas que supõem arbitrariedade (não só do signo, dos significados) das coisas vivenciadas, das transitoriedades da vida, das epifanias não epifanias, malogradas, improváveis, em lugares pouco epifânicos, invenções valem dispositivos interventivos o quanto valores valem. Valorei e valorizei sempre Clarice Lispector.
Atribuí significados. Houve tempo em que fazia coragem, dispêndio, usava o tempo em sebos, alfarrábios à procura não de poesia, mas de edições (poéticas em prosa) das prosas editadas de Clarice em primeiras edições. Era e não era um fetiche da obra de arte, do objeto livro, do livro como objeto, da mercadoria. Não era um fetiche capitalista, embora em capitalismo inserido. Era um desejo de primeiro, que entendi mais tarde ser bobagem. Era uma vontade de viver o livro editado fresco, na época de seu lançamento.
Naquela época, já nem sei quantos anos tinha. Juntei várias primeiras edições. Não formei uma coleção. Toda vez que ficava enjuriado, jujuru sapo na lagoa, pensava em vender as primeiras edições do Lustre, de Água Viva, d’Onde estiveste à noite, d’ A maçã no escuro etc. Era raiva, ira não de Clarice. Da vida. Das pessoas. De mim mesmo, provável. Era tentativa de desprendimento. Não acúmulo, sei lá que coisa. Ler Clarice sempre foi uma coisa. Aqui me concentro em Macabéa coisa pouca, tutaméia, a d’ Hora da estrela. Em Olímpio arrivista, e no escritor-personagem do livro.Antes, o instante de falar já de estantes. Não coloco os livros de Clarice em estantes, nem longe, nem perto de mim. Não os coloco no escritório, nem na sala.
Os livros de Lispector moram no meu criado-mudo que, embora quieto, mudo, é o lugar mais lugar para eles. Sabemos o quanto são falantes os textos de Clarice, escrituras em livros romances não-romances, não morte de romance; romances modernos, contos, novelas, crônicas, conselhos irônicos a donzelas, noivas, jovens esposas, mulheres velhas, lidos como lidos, como livros, principalmente, conselhos para sustentar filhos, lidos positivamente como conselhos de prosa deliberativa. Livros cor-de-rosa nada Rosa.
Embora falantes, textos de fala, não de língua, porque criam situações de fala, não se satisfazem no sistema da língua, abstraem o abstrato da língua, rompendo com tiranias lingüísticas, o criado-mudo cai bem para livros de Clarice. Princípio não paradoxal propriamente. Contraste de coisas, inclusões.No vazio do mudo, do mundo criado-mudo, as letras sentidas, inventadas, rearranjadas, dialogadas, dialetáis, dialógicas dos tecidos finamente confeccionados por Clarice, falam mais. Ficam gritantes, erguem estantes.
Depois, há uma razão amorosa, particular, que menos conta, mas não posso deixar de contar: estando os livros de Lispector no criado-mudo de meu quarto, ao lado de minha cama, ficam mais perto de mim enquanto durmo. Eles moram no meu quarto, local intimíssimo. São leituras possíveis no impossível de quando não os leio. São livros que sempre leio. Várias vezes, de perto. São leituras de câmara, não de arenas, nem teatros. Sempre desde os treze. Certo que um dia, há muitos anos, me perdi em Clarice. Então, decidi não mais ler seus livros.
Passaram-se quase trinta anos de absoluta privação. Daí, me encontrei hoje. Ontem. Outro dia. Já não me lembro mais em que instante-já que já passou. Voltei a ler a Lispector. Clarice luz claríssima, caríssima. Posso voltar a me perder. Mesmo perdendo-me nela, sei também achar-me com ou sem ela. Esse encontro é definitivo. Definitivo mistério que não se desfia, não se definha, não se amesquinha, mas desafia. Comecei Clarice aos treze, pelo fim. Sempre desde sempre Clarice felicidade clandestina. Meu criado-mudo é minha rede de amante. Às vezes, desloco um volume do criado-mudo, levando-o à cama. Finjo que ele se perde em meio a lençóis, que se perde entre pernas em meio a minhas pernas, agarro o livro com braços e mãos de polvo, coisa apertável com olhos e corpo. Bizarra forma de vida.
Cafona relação de leitura. Kitsh aproximação de livro, gente, cama. Para compor melhor (ou pior) o quadro, o quarto em que Clarice mora comigo: Roberto Carlos, das Canções que você fez pra mim seria trilha. Trilha de livros trilhados à voz de Maria Bethânia. Livros repatriados, com outras cidadanias. Estranhamentos de estranhamentos, nunca acanhamentos tacanhas. De todos os lidos livros de Clarice não tenho preferido. Todos queridos amantes, todos livros-livros, lidos-lidos, todos livros lidos livres. Entretanto investigo A hora da estrela. Cumpro o prometido linhas antes de digressões escaldantes.
Li A hora da estrela em livro, depois em cinema. Furto-me falar do filme, porque oitava arte demais para mim, porque oitava acima. Afinal, de cinema sou um pobre amador. Acorda, amor. Li o livro. Li sobre o livro, o que disseram a seu respeito. Não tudo, que tudo não aguento. Tudo muita coisa. Tudo é paranóia. A Hora da Estrela, hora de dramatização da ficção da linguagem. Livro de epifanias (no plural), não apenas uma; a do escritor-personagem, com a revelação que ele, Rodrigo S. M., tem (recebe) ao ver, (de relance) a nordestina (Macabéa) na rua, ao se deparar com o tipo; epifania acrescida, paralela, em concorrência com a epifania que Macabéa tem (recebe ou sofre) quando do episódio da Madama Carlota e ao morrer, já um desdobramento do episódio, como metáfora continuada epifânica da revelação da cartomante. Alegoria de poetas.
Entretanto, como em Drummond, da "Máquina do Mundo", do Claro Enigma, a epifania de Macabéa é não-epifania, ou falsa epifania, pois moderna, fraturada. Com a diferença que no poema de Drummond há uma recusa, na de Maca não há recusa; em ambas as situações, uma impossibilidade do mistério. Disseram do livro: Benedito (bendito) Nunes, João Adolfo Hansen, entre tantos outros, entre mestres e mestrandos refutáveis. Outros doutores useiros e veseiros em viezes que não me atrevo. Um amazonense (não Belmiro) e um vindo do interior de São Paulo não são pares complementares (convergências/divergências), mas tem hipóteses pertinentes: naufrágio da introspecção, estrela de mil pontas.
O primeiro pensa identidade entre Clarice, escritora-Clarice, personagem-escritor e Macabéa. O segundo propõe homologia, afinidade, identidade de discursos entre as vozes, os atos de fala, da personagem-escritor, Macabéa e escritora Clarice (não necessariamente nessa ordem). O primeiro pensa na crise da linguagem, morte do romance etc., enquanto o segundo não. Eu, embora fale a partir do que leio deles, falo a partir do que leio dela, do falo de Clarice. Falo a partir da clave em que ela conclava a linguagem, falo no etc. do et cetera, entre outros plurais de linguagem. Linguada minha língua no beijo de língua do atropelamento do peixe em milagre. Leio Clarice desvirginado desde sempre. Desde os treze anos de idade. A moça que me emprestou Um Sopro de Vida anda sumida.
É de tamanha magreza que não tenho certeza ter corpo. Encolheu da memória. Agora, será que existiu? Era um ectoplasma? Existiu no mistério da palavra (ainda existe), como Clarice, no incômodo do professor de física (das aulas de laboratório, com luz de serviço apagada) que via meus olhos desviarem das trajetórias da luz das experiências, voltando-se para as letras tingidas no livro em ambiente de trevas: nem só de literatura vive o homem; de física, principalmente, me disse o docente.Um problema que nunca resolvi com o professor de física: o pathos sempre foi em mim, desde os treze, não a Paixão Segundo GH, mas foi (é) paixão por CL. Questão de química, não de fisis. Cardiologia, não lógica, nem pediatria.
Eduardo Sinkevisque 30/01/2010

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Especial de Fim de Ano do Acústico: Retrospectiva 2009

" Viver é afinar o instrumento de dentro pra fora de fora pra dentro. A toda hora a todo momento.
Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo"
(Walter Franco, claro)
A curva generosa da compreensão passa pela minha geração que cresceu ouvindo beleza ( no rádio, nos discos, nos bares, nas ruas brasileiras. Aproveitando: nunca entendi porque o Gil perdeu a oportunidade de colocar nessa letra que " o verdadeiro amor é são"...:) De qualquer forma, essa musica me dá forças. Você nunca dormiu numa caminha dura que se transforma numa cama de tatame pela vida afora? Eu acho explendorosa essa alegoria. Esses versos não são metáforicos pois são muito complexos para tanto. É mesmo uma alegoria. Dessas que curam. O dia que você considerar sua dura caminhada como um tatame sua vida vai ter outra coloratura, outro jogo de cintura: é muito gostoso...:)


...que doçura de versão que só podia nascer da e na Bahia: ( "-Bem bom viver". Verdade, verdade. Essa canção, como tantas do Timbalada, possui a alegria e a ingenuidade necessárias nos pequenos momentos. Estar vivo para passear de mãos dadas é bom demais...)




Não sei se vocês esqueceram mas não custa relembrar que sou fã número um do Roberto e essa é minha canção preferida. Me emociono com a possibilidade de sentimentos limpidos e de quem acredita -ainda- no amor. Daí o carinho por essa letra. Adoro versos como " eu não vou saber me acostumar sem tua mão para me acalmar" ou " anjo bom amor perfeito no meu peito". Se você nunca, nunca, nunca, foi despertado por uma canção do Roberto, sinto por você nunca ter experimentado a simplicidade das coisas boas, a bondade das coisas simples. Praticamente um Manuel Bandeira de microfone esse Roberto Carlos.:)


hum...a canção abaixo eu ouvi até rachar nesse 2009. Era chegar em casa, ligar no Youtube e tomar banho dançando e rindo; talvez porque a Bahia já me deu régua e compasso para eu viver aqui em Jerusalém. Acho que é isso:)
Fecho minha restropectiva do ano sutilmente com minha canção "confesso", com a canção que é a minha " cara", com a canção que fala da minha alegria em estar aqui em Israel, entendam como quiserem mas é meu hino aqui e me agrada a possibilidade de dividi-la, enfim, não posso não me permitir a alegria que sinto por ter chegado até aqui, da maneira que eu sei, rindo.:)

domingo, 27 de dezembro de 2009

Porque somos poeiras de estrelas

a luz do que termina, continua...um feliz 2010 para todos os pacientes leitores do acústico!

( a música abaixo é de uma flor de compositora israelense chamada Daniela Spektor e fala sobre isso...estrelas estão mortas mas sua luz continua...essa doce música tem sido meu fundo musical já faz um mês mais ou menos...:)


ביצוע אקוסטי לשיר היפיפה

הכוכב הזה מת / מילים ולחן: דניאלה ספקטור

הכוכב הזה מת
אבל רואים אותו כאן
הוא כבר לא באמת
אבל האור שלו לא נעלם

הוא בדרך אליי
רק לוקח לו זמן
הכוכב הזה מת
אני רואה אותו

הלילה

אתה אומר לי דברים
בסוף תשכח גם אותי
לא זה לא משנה
לא זה לא משנה

אתה אוהב אותי
ולוחש לי מילים
לא אכפת לי דבר
לא אכפת לי דבר

הלילה
לא איכפת לי דבר
לא איכפת לי דבר

הכוכב הזה מת
אבל רואים אותו כאן
הוא כבר לא באמת
אבל האור שלו לא נעלם

גם אותנו רואים
במקומות אחרים
האור שלנו ממשיך
אנחנו נגמרים


הלילה

אתה אומר לי דברים
בסוף תשכח גם אותי
לא זה לא משנה
לא זה לא משנה

אתה אוהב אותי
ולוחש לי מילים
לא אכפת לי דבר
לא אכפת לי דבר

הלילה
לא איכפת לי דבר
לא איכפת לי ד

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Entrevista com Jusberto Cardoso Filho, poeta querido de Ouro Preto




Fonte: uZina, Marta Rezende.




Quando um muro separa, uma ponte une


Marta Rezende – Você contou que estava lendo O muro, do Jean Paul Sartre, e isso nos
inspirou o mote para a entrevista. Qual é o muro que separa a poesia?

Jusberto Cardoso Fº - Esse conto do Sartre aborda a dificuldade do homem moderno
tomar decisões. É realmente dramática essa questão, assim como são dramáticos os
muros que separam a poesia, como a censura. Mesmo não havendo a censura explícita,
há a censura velada e ela se manifesta de vários modos. Por exemplo, a dificuldade para
a poesia ter acesso aos meios de comunicação. Editar um livro atualmente é muito caro,
distribuí-lo e divulgá-lo são tarefas árduas muitas vezes. Há também a censura quando a
poesia fere algum interesse, econômico, político, social ou qualquer outro tipo de
interesse. A poesia jamais perderá o aspecto marginal, marginalizante.

M – E as pontes que facilitam a vida da poesia?
J – Teremos agora a Academia Ouropretana de Letras que esperamos ser uma bonita,
resistente e agregadora ponte. Uma ponte importante no mundo contemporâneo é a
internet que contribui muito para a interação entre poetas e desses com os leitores e para
a divulgação da poesia, o que é importante pois possibilita mais gente ler e produzir
poesia. Apesar do risco de banalização, creio que a poesia não perde o seu potencial de
resistência. Ao mesmo tempo em que a poesia é badalada, alguns poetas como parte
dos círculos de poder, ela tem o papel de resistência, como fizeram os poetas
inconfidentes e outros tantos fizeram e fazem.

M – A filosofia está muito presente nos seus poemas. Por exemplo, o poema Depois
das horas pode ser remetido à idéia “Eu sou corpo, por inteiro corpo e nada mais”, do
Nietzsche.
J –.Já ouvi gente classificar meus poemas de filosóficos e também de concretos.
Concreto porque há um hiato entre a coisa e a palavra, a palavra como símbolo. Mas a
palavra pode também expressar pensamentos. Pensar e filosofar estão intimamente
ligados.

M – Por outro lado, seu poema Gerações feridas diz "Ideologias e filosofias tornam-se
muito arcaicas".
J – Esse é um poema que fiz na adolescência que acho muito maduro e atual, pelo fato
de que hoje há uma crise de ideologias, descrença na política e crise de valores.
Filosofias consagradas por muito tempo também são superadas, mas sempre aparecem
novas referências, novos conceitos filosóficos.

M – Já em Paris Texas, é a presença do cinema, da imagem, conduzindo o poema.
J – O cinema está muito presente na poesia contemporânea. Um mar de imagens. Há
críticas a essa tendência da imagem tomar conta das artes, do risco do vazio que as artes
correm ao se aproximarem da publicidade. Mas, há idéias que só a palavra é capaz de
expressar. Quanto a Paris Texas, tentei expressar o que entendi desse filme badalado,
que fala sobre um caminho sem fim, e sua belíssima música.

M – Sua poesia está muito antenada com o tempo presente, com as angústias do homem
contemporâneo.
J – Com a angústia da “modernidade líquida”, como conceituado pelo sociólogo
Zygmuth Bauman. Líquida porque as relações estão cada vez mais fluídas,
inconstantes, móveis.

M – Você organizou a mais completa antologia de poesia sobre Ouro Preto (Antologia
poética de Ouro Preto). Qual a importância desse trabalho?
J – O livro reúne poetas de primeira grandeza com 85 poemas inspirados na cidade. A
principal importância é que cada poema foi muito bem escolhido, cada poeta
selecionado conta com obra fortíssima. É o caso não só dos mais conhecidos pelo
grande público, mas também de outros menos conhecidos, mas também excelentes
poetas.

M – Ouro Preto exerce forte atração sobre os poetas de fora, além de contar a cidade
com rica tradição de produção poética local. .Ao seu ver é a paisagem que propícia
isso?
J – A paisagem tem seu importante papel, mas a própria história da cidade suscita
poesia. A paisagem e a história levam a gente a querer poetizar.

M – Você nos disse está com tudo pronto para a segunda edição da Antologia. O que
muda?
J – Entram mais poemas, totalizando agora em torno de 100. Deve sair em breve,
provavelmente por uma grande editora do país.

M - Como anda sua produção poética atualmente?
J – Além do livro Ponto, publicado, vou publicar em breve Inspiração arcádica e
outros poemas. Tenho mais dois prontos, Pensamentos poéticos e Poesia sempre.

M- Para fechar, fale um poema seu que remete aos muros e também às pontes.
J – Poeternizar que alinhava perspectivas, que podemos dizer serem pontes, e também
do mal estar da civilização, muitas vezes decorrentes dos muros que impedem ou
dificultam os encontros.

Poeternizar
agulha e fagulha
ponto a ponto
alinhavando perspectivas
com a tesoura de ouro
como um alfaiate
teço a fímbria de meu tecido
tecido hemacitopoiético
para sempre
no mal estar da civilização


Jusberto Cardoso Filho é natural de Ouro Preto, MG. Formado em filosofia pela
Universidade Federal de Ouro Preto, é organizador da Antologia Poética de Ouro Preto,
1ª edição, 1995 (premiado pela União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro,1997),
Antologia Poética de Ouro Preto, 2ª edição (a ser publicado em breve) e autor dos
livros de poesia: Ponto (1999), Inspiração Arcádica e outros poemas (no prelo),
Pensamentos Poéticos e Poesia sempre (ambos, aguardando publicação). Participa de
Poetas del mundo e Cadernos Literário Pragmatha.
Para ler os poemas do Jusberto citados nessa entrevista, clique em:
http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_america.asp?ID=5249

domingo, 22 de novembro de 2009

Curriculum Vitae: Luciana Gama, Jerusalém



"Fotografia é o retrato de um concavo,de uma falta,de uma ausencia"

Clarice Lispector


Foto do acervo de seu filho Paulo Gurgel Valente.

Fotos que Fazem Fotógrafos por Eduardo Sinkevisque




Não faço crítica, nem críticas, nem faço mágica. Não estabeleço nexo, nem sentidos, nem verdades absolutas ao ver fotografias de Shlomit Or Gama/Luciana Gama. Retratos tirados das cenas e pessoas presentes e ausentes, retratos que retratam a fotógrafa. Retrato é gênero por Plínio, o velho, preceituado. Em Shlomit Or Gama/Luciana Gama, as fotografias retratam e são retratadas. Não faço mapas, nem legendas, nem índices, muito menos análise de gênero. Meus olhos clicam ao ver as fotos. Meus olhos piscam pela luz das fotos.

Discurso sobre elas do geral para o particular. Falo delas por inteiro (elas inteiras, por inteiras) em primeiro lugar. Falo (mesmo que pouco) de uma por uma, aos poucos. Estabeleço relações entre objetos. Sujeitos, ornatos. Relações entre coisas e sujeitos fotografados. Fotógrafa e fotografados. Fotografáveis. Meu texto não é legenda, nem as fotos são ilustrações do meu texto. Meu texto é uma co-presença. Corre junto das fotos, por isso foto/texto são concorrências.

Penso sempre na grafia das fotos. Grafia de fotografia que escreve, desenha, pinta, elege, delimita; inscreve ao escrever. Penso na fotografia do meu texto apenas visto porque as fotos de Shlomit Or Gama/Luciana Gama se fazem vistas. Shlomit Or Gama fotografa. Luciana Gama escreve. Quando fotógrafa, quando escritora. Uma coisa de cada vez, as vezes podem ficar misturadas, as duas misturadas Shlomit Or Gama/Luciana Gama; às vezes, ambas ao mesmo tempo, simultâneas, porque Luciana Gama é muito simultânea, muito contemporânea.

Escrevo sem óculos. Vi, li, reli, revi as fotos. Com óculos. De perto. De longe. Uma, duas, três vezes. Vi as fotos de Shlomit Or Gama/Luciana Gama de perto/longe por muitas vezes. Aqui de longe, o conjunto me fez leitor/vedor delas, me fez rever Luciana depois de tantos anos. Conhecer Shlomit Or sem o peso dos anos, com sua Gama.

Eu não importo. “Eu” não importa. Ela não importa, embora importe, exporte. Eu importei as fotos. Me importei com elas. Eu me reporto não às figuras, mas à sugestão delas. Ao que as fotos me sugerem, o que os retratos retratam. Retratam o que retratam e o que deles (neles) é possível ver, ler. Faço um texto-leitura, um textohipótese. As fotos são essas: Ears and Siren; Shavot 5769 & Camel.

A foto é o olhar, a luz do olhar, não só a captação da luz exterior ao olhar. O olhar da fotógrafa Shlomit Or Gama/Luciana Gama é que dá luz a luz das fotos que ela faz. Luciana Gama fornece a luz do olhar para olhar, para olharmos. A luz sobre o olhar. Vejo, tecnicamente, três fotos bem tiradas, porém vejo três fotos metaforicamente de luz estouradas, porque estouram nos meus olhos míopes, nos meus olhos astigmáticos. Vejo hipérbole de leitora insatisfeita sempre com as palavras. Leitora fotógrafa, cujo olhar faz olhar, faz ver.

Ao fotografar, Shlomit Or Gama/Luciana Gama é fotografada. Faz ver e se deixa ver. Salvo nos meus olhos, no meu olhar, no PC, em pasta DOC. as fotos Gama para olhar, re-olhar, tresolhar. Saturadas lá (aqui), só assim, posso escrever sobre elas, com elas, nelas, delas; porque, vejo sobre, com, em, de ...

As fotografias são visões que nos deixam ver em exposição, mas para mim são diapositivos, slides. Diapositivos de serem vistos, teatrais, alegres, dramáticos, coletivos pessoais intransferíveis. Revelações, luminosidades, lanternas no mar das guerras. Fotogramas do filme em ação, não do filme interrompido pelos corpos que caem. Fotogramas de fotografias digitais sem filme

3

material antigo, nem pensamento analógico de arte mecânica. Faço analogias sobre arte digital contemporânea. Com as fotos digitais, Shlomit Or Gama/Luciana dá, confere, materialidades às coisas humanas, materiais e imateriais. O modo digital permite a captação das almas, espíritos infotografáveis. Nesse modo, técnica, mais olhar de Luciana, os diapositivos, slides, das fotografias que vejo, ficam dias positivos/dias negativos revelados na ardentia de caber demais. Dias positivos coloridos, preto-e-branco mostrado invertido pelo lume das cores captadas, capturadas, que particularizo, para finalizar meu texto, depois de falar demais, depois de ser geral demais. Coloco os óculos de novo para refocar com meu olhar (não retocar, nem corrigir) as fotos uma por uma:

Ears and Siren

Photo exclusive Agency Reuters Shlomit Or/© Thomson Reuters 2009 All rights reserved
Photo exclusive Agency Reuters Shlomit Or/© Thomson Reuters 2009 All rights reserved


Ears and Siren - Pietá não católica de reflexos em vidros por Shlomit Or Gama. Mãos que seguram, afagam, protegem do mundo adjacente. Mundo de sementes, mas de ervas daninhas. Pietá que dá a possibilidade de outra história, não as continuidades das histórias. Pietá oriental em azuis e pratas. Pintura maternal. Pintura solar de luz pragmática. Pintura imaterial de luz afetiva abstrata.


Shavot 5769 –

Shlomit Or/© Thomson Reuters 2009 All rights reserved A Jewish Orthodox man picks flowers on the street for the celebration of Shavuot in Jerusalem, Israel.
Shlomit Or/© Thomson Reuters 2009 All rights reserved A Jewish Orthodox man picks flowers on the street for the celebration of Shavuot in Jerusalem, Israel.
© Shlomit Or 2009 All rights reserved/ A Jewish Orthodox man picks flowers on the street for the celebration of Shavuot in Jerusalem, Israel.
© Shlomit Or 2009 All rights reserved/ A Jewish Orthodox man picks flowers on the street for the celebration of Shavuot in Jerusalem, Israel.
Shlomit Or/© Thomson Reuters 2009 All rights reserved A Jewish Orthodox man picks flowers on the street for the celebration of Shavuot in Jerusalem, Israel.
Shlomit Or/© Thomson Reuters 2009 All rights reserved A Jewish Orthodox man picks flowers on the street for the celebration of Shavuot in Jerusalem, Israel.

Shavot 5769 – Tríade de um só. Esconde-esconde de avô do mundo. Avô de Pluft em Jerusalém. Olhos azuis que azulam meu imaginário. Casulam em mim o teatro infantil inteligente de Maria Clara Machado. Aposto que o Sr. de chapéu e longas barbas colheu as flores para a fotógrafa Shlomit Or Gama.


Camel

Shlomit Or/© Thomson Reuters 2009 All rights reserved A camel is seen at the Mount of Olives in Jerusalem May 20, 2009.
Shlomit Or/© Thomson Reuters 2009 All rights reserved A camel is seen at the Mount of Olives in Jerusalem May 20, 2009.

Camel – Presença e ausência no mesmo lugar. Tenho que descrever o que vejo, o que a mim se mostra. Difícil falar do que não se vê, mas se sabe ali estar. É o lombo do camelo, corcova, cacunda da representação com a cidade ao fundo. Cidade presente também ausente pelo desfocamento do segundo plano. O colorido bemtecido, bem bordado do assento ornamentado de primeiro plano diz: Shlomit Or Gama sabe o que vê. Faz ver o que sabe ver. Faz ver o que sabe. A foto é ut pictura de Luciana, nada de Horácio. Camel pode ser lida como um convite para que o espectador do retrato da ausência/presença sente-se, mas não necessariamente com o corpo todo, nem com o corpo empírico. É um convite para que os olhos se sentem no camelo e vejam o que somente só Shlomit Or Gama/Luciana Gama vê, viu.

Eduardo Sinkevisque 10/07/0917:00 h.s. em Santana/São Paulo/Brasil

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Protocolo de Leitura


Tanta coisa para contar, uma semana tão intensa e meus comentários cada vez mais entrando no mundo das letras. Acontece que essa semana revisitei pessoas e lugares tão conhecidos e que há muito tempo não via e devo voltar a conviver com eles de forma intensa. Sim, de uma feita- já que eu nunca me permito recuperar os procedimentos do caminho que tomamos- estava eu envolta e mergulhada em velhos conhecidos: Torquato Tasso, Palaviccino e Cicero e Quintiliano. Ainda bem que gosto e me divirto porque é uma palmilhada dura, pedregosa, e muito, muito solitária, porque é coerente que quase ninguém no mundo está interessado em discutir retórica do século XV ou XVI. Muito menos ouvir você contando as maravilhas que ela produz, sua eficácia, vamos dizer assim. Uma paisagem chumbo com reflexo ouro. E no fecho da tarde, enquanto as Instituições Oratórias se misturavam ao silêncio de meus croqs de plástico embaixo da mesa, eu folholhava tão desenganada uma edição digital, pensando que estava com saudades de virar as páginas ao invés de ficar apertando o teclado, o dedo já cansado, pensando que tinha tantas fotos para fazer e não faria mais por causa dos estudos do doutorado quando a máquina do mundo se abriu na minha frente:




Você repare: essa imagem é uma sinedoque da mulher que escaneou as Instituições Oratórias de Quintiliano, a partir da coleção de livros da Universidade de Michigan. No caso, essa edição é uma edição que gosto muito, de 1788, compilada nos moldes do iluminismo português por Jeronimo Soares Barbosa, lente da Universidade de Coimbra, salvo engano. O arquivo está corrompido para download em pdf mas pode ser lido on line no googlebooks. E há essa maravilhosa intervenção que deixaria qualquer amante de protocolo de leitura, encantado: na foto há a inscrição da rapidez e da desatenção ao trabalho proposto, isto é, a digitalização das Instituições Oratórias. O dedo que vira a página é como uma iluminura contemporânea, rosa e anel indicando que uma mulher faz esse serviço. Com uma certa pressa deixa sua assinatura digital num exemplar do século XVIII, digitalizado. O que mais me comove é que ela virou as páginas que eu não posso tocar, apenas ler, embora eu saiba que o acesso visual ao livro seja muita coisa quando você está no Oriente Médio convivendo com um mundo de palavras semíticas e quadráticas e eu sigo minha leitura vagarosa enquanto minhas mãos continuam pensas.







domingo, 8 de novembro de 2009

Gramática Gerativa Transformacionalíssima....

Porque não sei se hoje vou conseguir escrever, escrever, escrever até dizer tudo. Então, vou falar pouquinho. Hoje, comi a farofa que eu mesma preparei e de repente não entendi porque estava achando estranho comer farofa e me toquei que estou decididamente em processo de aquisição de linguagem - espero que meus amigos lingüistas chomkysnianos entendam minha sagaz apropriação do termo- e saboreando adquirir uma língua aos 43 como se fosse uma criança de sete anos. Além do estranhamento da farofa ( senti tão fora da minha frequência israelense aquela farofa, embora meu processo seja oswaldiamente, antropofágico: ninguém se livra das teorias avós que bebeu!) tive anteriormente dois sinais em semanas distintas:

Sonhei, o primeiro sinal, que eu falava em hebraico com uma pessoa desconhecida. Acordei maravilhada em sonhar que eu estava falando hebraico. Semanas depois, segundo sinal, sonhei que eu estava assistindo aula em hebraico onde aprendia e via e escrevia palavras novas. Um luxo. Acordei rindo. Melhor, sorrindo. Eu havia dormido e acordado com a língua hebraica. É completamente diferente de conviver com a língua e a fala o dia inteiro na rua, no ônibus, na aula. Acordar, depois de dormir e sonhar, com uma língua é praticamente uma intimidade que não se desfaz, não acaba o dentro. Muito prazer.


E então, depois desses três processos reparei que estou pensando as duas línguas, o hebraico e o português, em situações muito simples e de uma forma muito, muito risonha: eu penso a situação com palavras em hebraico - palavras simples: onde, como, porque, etc.- e se não tenho o vocabulário apropriado encaixo imediatamente uma palavra em português. Quem me alertou primeiro para esse processo, dando risadas, foi meu orientador de doutorado que é lingüísta, e me disse que colocava na minha fala em português palavras em hebraico e que eu não estava me dando conta.

Hoje, então, reparei em meio a farofa, que estou pensando da mesma forma mas fazendo o contrário, isto é, começo pensando em hebraico e daí encaixo a palavra em português, com frases bem mais completas e complexas e sou grata a todos os trocentos anos "perdidos" estudando análise do discurso, estrutura da linguagem instrumental e retórica: o hebraico está entrando, entrando e vovô vê e entende tudo o que compõe a conjectura da uva. Escrevo, leio, falo e penso. Logo, o Ben Yehudá continua existindo. Que notável viver e aprender uma nova língua na curva dos quarenta: uma pétala vazia que me penetra e me apresenta a síntese da flor que não sabe como é feita, amor.