terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Especial de Fim de Ano do Acústico: Retrospectiva 2009

" Viver é afinar o instrumento de dentro pra fora de fora pra dentro. A toda hora a todo momento.
Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo"
(Walter Franco, claro)
A curva generosa da compreensão passa pela minha geração que cresceu ouvindo beleza ( no rádio, nos discos, nos bares, nas ruas brasileiras. Aproveitando: nunca entendi porque o Gil perdeu a oportunidade de colocar nessa letra que " o verdadeiro amor é são"...:) De qualquer forma, essa musica me dá forças. Você nunca dormiu numa caminha dura que se transforma numa cama de tatame pela vida afora? Eu acho explendorosa essa alegoria. Esses versos não são metáforicos pois são muito complexos para tanto. É mesmo uma alegoria. Dessas que curam. O dia que você considerar sua dura caminhada como um tatame sua vida vai ter outra coloratura, outro jogo de cintura: é muito gostoso...:)


...que doçura de versão que só podia nascer da e na Bahia: ( "-Bem bom viver". Verdade, verdade. Essa canção, como tantas do Timbalada, possui a alegria e a ingenuidade necessárias nos pequenos momentos. Estar vivo para passear de mãos dadas é bom demais...)




Não sei se vocês esqueceram mas não custa relembrar que sou fã número um do Roberto e essa é minha canção preferida. Me emociono com a possibilidade de sentimentos limpidos e de quem acredita -ainda- no amor. Daí o carinho por essa letra. Adoro versos como " eu não vou saber me acostumar sem tua mão para me acalmar" ou " anjo bom amor perfeito no meu peito". Se você nunca, nunca, nunca, foi despertado por uma canção do Roberto, sinto por você nunca ter experimentado a simplicidade das coisas boas, a bondade das coisas simples. Praticamente um Manuel Bandeira de microfone esse Roberto Carlos.:)


hum...a canção abaixo eu ouvi até rachar nesse 2009. Era chegar em casa, ligar no Youtube e tomar banho dançando e rindo; talvez porque a Bahia já me deu régua e compasso para eu viver aqui em Jerusalém. Acho que é isso:)
Fecho minha restropectiva do ano sutilmente com minha canção "confesso", com a canção que é a minha " cara", com a canção que fala da minha alegria em estar aqui em Israel, entendam como quiserem mas é meu hino aqui e me agrada a possibilidade de dividi-la, enfim, não posso não me permitir a alegria que sinto por ter chegado até aqui, da maneira que eu sei, rindo.:)

domingo, 27 de dezembro de 2009

Porque somos poeiras de estrelas

a luz do que termina, continua...um feliz 2010 para todos os pacientes leitores do acústico!

( a música abaixo é de uma flor de compositora israelense chamada Daniela Spektor e fala sobre isso...estrelas estão mortas mas sua luz continua...essa doce música tem sido meu fundo musical já faz um mês mais ou menos...:)


ביצוע אקוסטי לשיר היפיפה

הכוכב הזה מת / מילים ולחן: דניאלה ספקטור

הכוכב הזה מת
אבל רואים אותו כאן
הוא כבר לא באמת
אבל האור שלו לא נעלם

הוא בדרך אליי
רק לוקח לו זמן
הכוכב הזה מת
אני רואה אותו

הלילה

אתה אומר לי דברים
בסוף תשכח גם אותי
לא זה לא משנה
לא זה לא משנה

אתה אוהב אותי
ולוחש לי מילים
לא אכפת לי דבר
לא אכפת לי דבר

הלילה
לא איכפת לי דבר
לא איכפת לי דבר

הכוכב הזה מת
אבל רואים אותו כאן
הוא כבר לא באמת
אבל האור שלו לא נעלם

גם אותנו רואים
במקומות אחרים
האור שלנו ממשיך
אנחנו נגמרים


הלילה

אתה אומר לי דברים
בסוף תשכח גם אותי
לא זה לא משנה
לא זה לא משנה

אתה אוהב אותי
ולוחש לי מילים
לא אכפת לי דבר
לא אכפת לי דבר

הלילה
לא איכפת לי דבר
לא איכפת לי ד

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Entrevista com Jusberto Cardoso Filho, poeta querido de Ouro Preto




Fonte: uZina, Marta Rezende.




Quando um muro separa, uma ponte une


Marta Rezende – Você contou que estava lendo O muro, do Jean Paul Sartre, e isso nos
inspirou o mote para a entrevista. Qual é o muro que separa a poesia?

Jusberto Cardoso Fº - Esse conto do Sartre aborda a dificuldade do homem moderno
tomar decisões. É realmente dramática essa questão, assim como são dramáticos os
muros que separam a poesia, como a censura. Mesmo não havendo a censura explícita,
há a censura velada e ela se manifesta de vários modos. Por exemplo, a dificuldade para
a poesia ter acesso aos meios de comunicação. Editar um livro atualmente é muito caro,
distribuí-lo e divulgá-lo são tarefas árduas muitas vezes. Há também a censura quando a
poesia fere algum interesse, econômico, político, social ou qualquer outro tipo de
interesse. A poesia jamais perderá o aspecto marginal, marginalizante.

M – E as pontes que facilitam a vida da poesia?
J – Teremos agora a Academia Ouropretana de Letras que esperamos ser uma bonita,
resistente e agregadora ponte. Uma ponte importante no mundo contemporâneo é a
internet que contribui muito para a interação entre poetas e desses com os leitores e para
a divulgação da poesia, o que é importante pois possibilita mais gente ler e produzir
poesia. Apesar do risco de banalização, creio que a poesia não perde o seu potencial de
resistência. Ao mesmo tempo em que a poesia é badalada, alguns poetas como parte
dos círculos de poder, ela tem o papel de resistência, como fizeram os poetas
inconfidentes e outros tantos fizeram e fazem.

M – A filosofia está muito presente nos seus poemas. Por exemplo, o poema Depois
das horas pode ser remetido à idéia “Eu sou corpo, por inteiro corpo e nada mais”, do
Nietzsche.
J –.Já ouvi gente classificar meus poemas de filosóficos e também de concretos.
Concreto porque há um hiato entre a coisa e a palavra, a palavra como símbolo. Mas a
palavra pode também expressar pensamentos. Pensar e filosofar estão intimamente
ligados.

M – Por outro lado, seu poema Gerações feridas diz "Ideologias e filosofias tornam-se
muito arcaicas".
J – Esse é um poema que fiz na adolescência que acho muito maduro e atual, pelo fato
de que hoje há uma crise de ideologias, descrença na política e crise de valores.
Filosofias consagradas por muito tempo também são superadas, mas sempre aparecem
novas referências, novos conceitos filosóficos.

M – Já em Paris Texas, é a presença do cinema, da imagem, conduzindo o poema.
J – O cinema está muito presente na poesia contemporânea. Um mar de imagens. Há
críticas a essa tendência da imagem tomar conta das artes, do risco do vazio que as artes
correm ao se aproximarem da publicidade. Mas, há idéias que só a palavra é capaz de
expressar. Quanto a Paris Texas, tentei expressar o que entendi desse filme badalado,
que fala sobre um caminho sem fim, e sua belíssima música.

M – Sua poesia está muito antenada com o tempo presente, com as angústias do homem
contemporâneo.
J – Com a angústia da “modernidade líquida”, como conceituado pelo sociólogo
Zygmuth Bauman. Líquida porque as relações estão cada vez mais fluídas,
inconstantes, móveis.

M – Você organizou a mais completa antologia de poesia sobre Ouro Preto (Antologia
poética de Ouro Preto). Qual a importância desse trabalho?
J – O livro reúne poetas de primeira grandeza com 85 poemas inspirados na cidade. A
principal importância é que cada poema foi muito bem escolhido, cada poeta
selecionado conta com obra fortíssima. É o caso não só dos mais conhecidos pelo
grande público, mas também de outros menos conhecidos, mas também excelentes
poetas.

M – Ouro Preto exerce forte atração sobre os poetas de fora, além de contar a cidade
com rica tradição de produção poética local. .Ao seu ver é a paisagem que propícia
isso?
J – A paisagem tem seu importante papel, mas a própria história da cidade suscita
poesia. A paisagem e a história levam a gente a querer poetizar.

M – Você nos disse está com tudo pronto para a segunda edição da Antologia. O que
muda?
J – Entram mais poemas, totalizando agora em torno de 100. Deve sair em breve,
provavelmente por uma grande editora do país.

M - Como anda sua produção poética atualmente?
J – Além do livro Ponto, publicado, vou publicar em breve Inspiração arcádica e
outros poemas. Tenho mais dois prontos, Pensamentos poéticos e Poesia sempre.

M- Para fechar, fale um poema seu que remete aos muros e também às pontes.
J – Poeternizar que alinhava perspectivas, que podemos dizer serem pontes, e também
do mal estar da civilização, muitas vezes decorrentes dos muros que impedem ou
dificultam os encontros.

Poeternizar
agulha e fagulha
ponto a ponto
alinhavando perspectivas
com a tesoura de ouro
como um alfaiate
teço a fímbria de meu tecido
tecido hemacitopoiético
para sempre
no mal estar da civilização


Jusberto Cardoso Filho é natural de Ouro Preto, MG. Formado em filosofia pela
Universidade Federal de Ouro Preto, é organizador da Antologia Poética de Ouro Preto,
1ª edição, 1995 (premiado pela União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro,1997),
Antologia Poética de Ouro Preto, 2ª edição (a ser publicado em breve) e autor dos
livros de poesia: Ponto (1999), Inspiração Arcádica e outros poemas (no prelo),
Pensamentos Poéticos e Poesia sempre (ambos, aguardando publicação). Participa de
Poetas del mundo e Cadernos Literário Pragmatha.
Para ler os poemas do Jusberto citados nessa entrevista, clique em:
http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_america.asp?ID=5249

domingo, 22 de novembro de 2009

Curriculum Vitae: Luciana Gama, Jerusalém



"Fotografia é o retrato de um concavo,de uma falta,de uma ausencia"

Clarice Lispector


Foto do acervo de seu filho Paulo Gurgel Valente.

Fotos que Fazem Fotógrafos por Eduardo Sinkevisque




Não faço crítica, nem críticas, nem faço mágica. Não estabeleço nexo, nem sentidos, nem verdades absolutas ao ver fotografias de Shlomit Or Gama/Luciana Gama. Retratos tirados das cenas e pessoas presentes e ausentes, retratos que retratam a fotógrafa. Retrato é gênero por Plínio, o velho, preceituado. Em Shlomit Or Gama/Luciana Gama, as fotografias retratam e são retratadas. Não faço mapas, nem legendas, nem índices, muito menos análise de gênero. Meus olhos clicam ao ver as fotos. Meus olhos piscam pela luz das fotos.

Discurso sobre elas do geral para o particular. Falo delas por inteiro (elas inteiras, por inteiras) em primeiro lugar. Falo (mesmo que pouco) de uma por uma, aos poucos. Estabeleço relações entre objetos. Sujeitos, ornatos. Relações entre coisas e sujeitos fotografados. Fotógrafa e fotografados. Fotografáveis. Meu texto não é legenda, nem as fotos são ilustrações do meu texto. Meu texto é uma co-presença. Corre junto das fotos, por isso foto/texto são concorrências.

Penso sempre na grafia das fotos. Grafia de fotografia que escreve, desenha, pinta, elege, delimita; inscreve ao escrever. Penso na fotografia do meu texto apenas visto porque as fotos de Shlomit Or Gama/Luciana Gama se fazem vistas. Shlomit Or Gama fotografa. Luciana Gama escreve. Quando fotógrafa, quando escritora. Uma coisa de cada vez, as vezes podem ficar misturadas, as duas misturadas Shlomit Or Gama/Luciana Gama; às vezes, ambas ao mesmo tempo, simultâneas, porque Luciana Gama é muito simultânea, muito contemporânea.

Escrevo sem óculos. Vi, li, reli, revi as fotos. Com óculos. De perto. De longe. Uma, duas, três vezes. Vi as fotos de Shlomit Or Gama/Luciana Gama de perto/longe por muitas vezes. Aqui de longe, o conjunto me fez leitor/vedor delas, me fez rever Luciana depois de tantos anos. Conhecer Shlomit Or sem o peso dos anos, com sua Gama.

Eu não importo. “Eu” não importa. Ela não importa, embora importe, exporte. Eu importei as fotos. Me importei com elas. Eu me reporto não às figuras, mas à sugestão delas. Ao que as fotos me sugerem, o que os retratos retratam. Retratam o que retratam e o que deles (neles) é possível ver, ler. Faço um texto-leitura, um textohipótese. As fotos são essas: Ears and Siren; Shavot 5769 & Camel.

A foto é o olhar, a luz do olhar, não só a captação da luz exterior ao olhar. O olhar da fotógrafa Shlomit Or Gama/Luciana Gama é que dá luz a luz das fotos que ela faz. Luciana Gama fornece a luz do olhar para olhar, para olharmos. A luz sobre o olhar. Vejo, tecnicamente, três fotos bem tiradas, porém vejo três fotos metaforicamente de luz estouradas, porque estouram nos meus olhos míopes, nos meus olhos astigmáticos. Vejo hipérbole de leitora insatisfeita sempre com as palavras. Leitora fotógrafa, cujo olhar faz olhar, faz ver.

Ao fotografar, Shlomit Or Gama/Luciana Gama é fotografada. Faz ver e se deixa ver. Salvo nos meus olhos, no meu olhar, no PC, em pasta DOC. as fotos Gama para olhar, re-olhar, tresolhar. Saturadas lá (aqui), só assim, posso escrever sobre elas, com elas, nelas, delas; porque, vejo sobre, com, em, de ...

As fotografias são visões que nos deixam ver em exposição, mas para mim são diapositivos, slides. Diapositivos de serem vistos, teatrais, alegres, dramáticos, coletivos pessoais intransferíveis. Revelações, luminosidades, lanternas no mar das guerras. Fotogramas do filme em ação, não do filme interrompido pelos corpos que caem. Fotogramas de fotografias digitais sem filme

3

material antigo, nem pensamento analógico de arte mecânica. Faço analogias sobre arte digital contemporânea. Com as fotos digitais, Shlomit Or Gama/Luciana dá, confere, materialidades às coisas humanas, materiais e imateriais. O modo digital permite a captação das almas, espíritos infotografáveis. Nesse modo, técnica, mais olhar de Luciana, os diapositivos, slides, das fotografias que vejo, ficam dias positivos/dias negativos revelados na ardentia de caber demais. Dias positivos coloridos, preto-e-branco mostrado invertido pelo lume das cores captadas, capturadas, que particularizo, para finalizar meu texto, depois de falar demais, depois de ser geral demais. Coloco os óculos de novo para refocar com meu olhar (não retocar, nem corrigir) as fotos uma por uma:

Ears and Siren

Photo exclusive Agency Reuters Shlomit Or/© Thomson Reuters 2009 All rights reserved
Photo exclusive Agency Reuters Shlomit Or/© Thomson Reuters 2009 All rights reserved


Ears and Siren - Pietá não católica de reflexos em vidros por Shlomit Or Gama. Mãos que seguram, afagam, protegem do mundo adjacente. Mundo de sementes, mas de ervas daninhas. Pietá que dá a possibilidade de outra história, não as continuidades das histórias. Pietá oriental em azuis e pratas. Pintura maternal. Pintura solar de luz pragmática. Pintura imaterial de luz afetiva abstrata.


Shavot 5769 –

Shlomit Or/© Thomson Reuters 2009 All rights reserved A Jewish Orthodox man picks flowers on the street for the celebration of Shavuot in Jerusalem, Israel.
Shlomit Or/© Thomson Reuters 2009 All rights reserved A Jewish Orthodox man picks flowers on the street for the celebration of Shavuot in Jerusalem, Israel.
© Shlomit Or 2009 All rights reserved/ A Jewish Orthodox man picks flowers on the street for the celebration of Shavuot in Jerusalem, Israel.
© Shlomit Or 2009 All rights reserved/ A Jewish Orthodox man picks flowers on the street for the celebration of Shavuot in Jerusalem, Israel.
Shlomit Or/© Thomson Reuters 2009 All rights reserved A Jewish Orthodox man picks flowers on the street for the celebration of Shavuot in Jerusalem, Israel.
Shlomit Or/© Thomson Reuters 2009 All rights reserved A Jewish Orthodox man picks flowers on the street for the celebration of Shavuot in Jerusalem, Israel.

Shavot 5769 – Tríade de um só. Esconde-esconde de avô do mundo. Avô de Pluft em Jerusalém. Olhos azuis que azulam meu imaginário. Casulam em mim o teatro infantil inteligente de Maria Clara Machado. Aposto que o Sr. de chapéu e longas barbas colheu as flores para a fotógrafa Shlomit Or Gama.


Camel

Shlomit Or/© Thomson Reuters 2009 All rights reserved A camel is seen at the Mount of Olives in Jerusalem May 20, 2009.
Shlomit Or/© Thomson Reuters 2009 All rights reserved A camel is seen at the Mount of Olives in Jerusalem May 20, 2009.

Camel – Presença e ausência no mesmo lugar. Tenho que descrever o que vejo, o que a mim se mostra. Difícil falar do que não se vê, mas se sabe ali estar. É o lombo do camelo, corcova, cacunda da representação com a cidade ao fundo. Cidade presente também ausente pelo desfocamento do segundo plano. O colorido bemtecido, bem bordado do assento ornamentado de primeiro plano diz: Shlomit Or Gama sabe o que vê. Faz ver o que sabe ver. Faz ver o que sabe. A foto é ut pictura de Luciana, nada de Horácio. Camel pode ser lida como um convite para que o espectador do retrato da ausência/presença sente-se, mas não necessariamente com o corpo todo, nem com o corpo empírico. É um convite para que os olhos se sentem no camelo e vejam o que somente só Shlomit Or Gama/Luciana Gama vê, viu.

Eduardo Sinkevisque 10/07/0917:00 h.s. em Santana/São Paulo/Brasil

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Protocolo de Leitura


Tanta coisa para contar, uma semana tão intensa e meus comentários cada vez mais entrando no mundo das letras. Acontece que essa semana revisitei pessoas e lugares tão conhecidos e que há muito tempo não via e devo voltar a conviver com eles de forma intensa. Sim, de uma feita- já que eu nunca me permito recuperar os procedimentos do caminho que tomamos- estava eu envolta e mergulhada em velhos conhecidos: Torquato Tasso, Palaviccino e Cicero e Quintiliano. Ainda bem que gosto e me divirto porque é uma palmilhada dura, pedregosa, e muito, muito solitária, porque é coerente que quase ninguém no mundo está interessado em discutir retórica do século XV ou XVI. Muito menos ouvir você contando as maravilhas que ela produz, sua eficácia, vamos dizer assim. Uma paisagem chumbo com reflexo ouro. E no fecho da tarde, enquanto as Instituições Oratórias se misturavam ao silêncio de meus croqs de plástico embaixo da mesa, eu folholhava tão desenganada uma edição digital, pensando que estava com saudades de virar as páginas ao invés de ficar apertando o teclado, o dedo já cansado, pensando que tinha tantas fotos para fazer e não faria mais por causa dos estudos do doutorado quando a máquina do mundo se abriu na minha frente:




Você repare: essa imagem é uma sinedoque da mulher que escaneou as Instituições Oratórias de Quintiliano, a partir da coleção de livros da Universidade de Michigan. No caso, essa edição é uma edição que gosto muito, de 1788, compilada nos moldes do iluminismo português por Jeronimo Soares Barbosa, lente da Universidade de Coimbra, salvo engano. O arquivo está corrompido para download em pdf mas pode ser lido on line no googlebooks. E há essa maravilhosa intervenção que deixaria qualquer amante de protocolo de leitura, encantado: na foto há a inscrição da rapidez e da desatenção ao trabalho proposto, isto é, a digitalização das Instituições Oratórias. O dedo que vira a página é como uma iluminura contemporânea, rosa e anel indicando que uma mulher faz esse serviço. Com uma certa pressa deixa sua assinatura digital num exemplar do século XVIII, digitalizado. O que mais me comove é que ela virou as páginas que eu não posso tocar, apenas ler, embora eu saiba que o acesso visual ao livro seja muita coisa quando você está no Oriente Médio convivendo com um mundo de palavras semíticas e quadráticas e eu sigo minha leitura vagarosa enquanto minhas mãos continuam pensas.







domingo, 8 de novembro de 2009

Gramática Gerativa Transformacionalíssima....

Porque não sei se hoje vou conseguir escrever, escrever, escrever até dizer tudo. Então, vou falar pouquinho. Hoje, comi a farofa que eu mesma preparei e de repente não entendi porque estava achando estranho comer farofa e me toquei que estou decididamente em processo de aquisição de linguagem - espero que meus amigos lingüistas chomkysnianos entendam minha sagaz apropriação do termo- e saboreando adquirir uma língua aos 43 como se fosse uma criança de sete anos. Além do estranhamento da farofa ( senti tão fora da minha frequência israelense aquela farofa, embora meu processo seja oswaldiamente, antropofágico: ninguém se livra das teorias avós que bebeu!) tive anteriormente dois sinais em semanas distintas:

Sonhei, o primeiro sinal, que eu falava em hebraico com uma pessoa desconhecida. Acordei maravilhada em sonhar que eu estava falando hebraico. Semanas depois, segundo sinal, sonhei que eu estava assistindo aula em hebraico onde aprendia e via e escrevia palavras novas. Um luxo. Acordei rindo. Melhor, sorrindo. Eu havia dormido e acordado com a língua hebraica. É completamente diferente de conviver com a língua e a fala o dia inteiro na rua, no ônibus, na aula. Acordar, depois de dormir e sonhar, com uma língua é praticamente uma intimidade que não se desfaz, não acaba o dentro. Muito prazer.


E então, depois desses três processos reparei que estou pensando as duas línguas, o hebraico e o português, em situações muito simples e de uma forma muito, muito risonha: eu penso a situação com palavras em hebraico - palavras simples: onde, como, porque, etc.- e se não tenho o vocabulário apropriado encaixo imediatamente uma palavra em português. Quem me alertou primeiro para esse processo, dando risadas, foi meu orientador de doutorado que é lingüísta, e me disse que colocava na minha fala em português palavras em hebraico e que eu não estava me dando conta.

Hoje, então, reparei em meio a farofa, que estou pensando da mesma forma mas fazendo o contrário, isto é, começo pensando em hebraico e daí encaixo a palavra em português, com frases bem mais completas e complexas e sou grata a todos os trocentos anos "perdidos" estudando análise do discurso, estrutura da linguagem instrumental e retórica: o hebraico está entrando, entrando e vovô vê e entende tudo o que compõe a conjectura da uva. Escrevo, leio, falo e penso. Logo, o Ben Yehudá continua existindo. Que notável viver e aprender uma nova língua na curva dos quarenta: uma pétala vazia que me penetra e me apresenta a síntese da flor que não sabe como é feita, amor.



domingo, 1 de novembro de 2009

Novo nome, oras: Shlomit Santob!


Tanta coisa para comentar, tanta coisa para contar. Confesso que fiquei escrevendo no blog na minha cabeça durante essa semana passada, uma semana engraçada em que minha nova vida foi entrando nos eixos, vida novinha em folha, bacana, bacana ver a vida se inaugurando com novos horários, novas rotinas, novos costumes. Bem, podemos dizer que agora meu dia gira em torno da Universidade. Chique demais morar na Universidade Hebraica de Jerusalém. Até parei para ler a placa em homenagem aos donatários do meu novo apartamento, gente bacana, pensei, esses Liberman, uma familia argentina que doou o dinheiro para construir um dormitório para estudantes que mais parece um flat, com direito a tudo e algo mais além de conforto, limpeza, e, o que é uma universidade de país desenvolvido, beleza. Aqui é uma gracinha mas quando você entra no elevador enorme, moderno, espelhado, você pode, como eu, lembrar dos dormitórios da triste Usp, lá na Colméia. Sem contar meu microondas, meu ar condicionado, meu ar quente, meu fogão, minha ducha, minha mesa, minha cadeira, minha estante, minha cama, minha janela com tela, minha mais nova geladeira, os armários-cozinha e roupa- tudo em compensado clarinho, piso branco, uma pequena arquitetura que deixa espaço para se estudar sossegado. Enfim, sós. Adoro esse plural. Meus amigos, meus livros, meus discos e nada mais. Voltei feliz da biblioteca, com o peso dos livros entre os braços, sofreguidão do bem.

Entre sexta e sábado não parava de pensar na moça do vestido rosa curto e aquela cena, escandalosa, no You Tube, uma universidade inteira parada, gritando. Você viu? Que tipo de formação a Uniban está dando para seus alunos? Aqueles alunos todos representam uma instituição educacional? Que país é esse? Que formação é essa? Não é à toa que a Uniban está tirando os videos do ar. Pega muito, muito mal para uma universidade, lugar de formação de advogados, administradores, professores, economistas. O vestido era curto mas mais curta são as pessoas que compartilharam aquela vaia, aquele xingamento. Me lembrei, claro, da Geni do Chico e logo em seguida me questionei sobre uma, duas, três gerações que não viveram a ditadura, que não sofreram com a repressão no Brasil, que não leram nos muros "é proibido proibir", "anistia ampla geral irrestrita", uma gente que não viu a volta do irmão do Henfil. Senti saudades do tempo em que nossos professores na universidade faziam questão de voltar a essa questão, sim - diziam- vocês não viveram mas precisam saber, aprender a abstrair ( "não é porque eu não vivenciei que eu não posso saber como foi" : sempre o velho e bom Aristóteles). saudades do básico da PUC, saudades das greves de professores e das greves de ônibus, quando também juntavam com as enchentes em São Paulo e a gente ficava na Universidade porque não conseguia sair e ficávamos ouvindo aquele professor ainda de cabelo comprido e barba grande conversando no refeitório sobre revolução russa. Ele era tão estranho, tão fora do nosso tempo...mas, se não fosse ele... como era mesmo o nome dele? ah, era Erson... não saberíamos nada de Mayakovsky, nada de Yakobson, nada de formalismo russo. Para que serviu tudo isso? Para que serviu aquela professora que nos ensinou tudo sobre Saussure e Pearce? Tudo sobre semiótica e semiologia? Para que serviu para a gente achar tão normal procurar o significante, o significado, o símbolo, o ícone, e, desperdiçar quase todos os versos de Fernando Pessoa na mesa do bar? Sei sim. Serviu na época para rirmos, tomarmos cerveja, conhecer novas pessoas. Depois, nosso mundo ficou maior e a grande maioria do estudantes da minha época seria incapaz de pensar um ato coletivo como esse que fizeram com a menina do vestido rosa curto. Pessoas curtas. Que pena. Na minha época a gente abraçava a Puc, assim, todos os alunos e professores e funcionários davam as mãos e iam abraçando a faculdade no quarteirão da Monte Alegre. Era esse nosso sentimento e ações de protesto coletivo: Paz e amor.

Coisas divertidas da semana: meu vizinho de frente é um árabe que faz pós doutorado em física e só consegue ficar no apartamento dele de porta aberta e falando sem parar ao telefone como se o prédio fosse somente dele. Silêncio? Nem pensar. A vida é muito animada para um árabe e possivelmente ele deve achar essa gente que fica de porta fechada, muito fechada.;)

Já o Samir caiu na asneira de me fornecer a senha do seu facebook numa briguinha caseira e eu aproveitei para entrar e examinar tudo: msn, skype, hotmail. Resolvi, então, que era hora de uma limpeza geral e escrevia em hebraico depois que deletava o que eu queria e o que eu não queria mesmo: "Shlomit fez faxina aqui". Algo como a marca do zorro. O safo Samir, aceitou e ai dele se trocar de senha...o bom de namorar um escorpião quando você sabe astrologia é que você também sabe que eles sempre vão esconder alguma coisa. Faz parte da sobrevivência emocional deles.

E por falar em Shlomit: ganhei sobrenome novo! Faz um mês que tento trocar o erro do meu sobrenome na Universidade e hoje, desisti de vez. Troquei e o moço confirmou que na carteirinha viria o nome certo. Não veio. Eles tiraram o "s" do Santos e colocaram um "beit" ou "vav", ou seja, só hoje percebi que meu novo nome é muito simpático: Shlomit Gama Santob. Santov. Como o Santob de Carrion, ( ou ShemTob) poeta espanhol medieval. Sabe que aderi? Faltava mesmo um sobrenome para a Shlomit e esse veio de graça. Para quem tem tantos nomes como eu, mais um, só vai aumentar minhas divisões curriculares. Mas fiquei contente. Agora sou a Shlomit Gama Santob! Eles também tiraram o "Or" do meu nome. Beseder. Vida nova, nome novo. Tudo de muito bom para você também nessa semana!









sábado, 24 de outubro de 2009

Festival de Fotografia Artistica: Israel 2009


Hoje eu e a Ana Villanueva colocamos a conversa em dia. Aliás, desde ontem estamos fazendo isso. E, claro, esgueladas de tanto rir e refletir a cada bobagem, comentávamos sobre o sacrifício que é ser viciada em trabalho. Contei, então, que, essa semana, entre mudança de casa, trabalho e uma otite que (quase) me derrubou, consegui fazer uma conta que tenho evitado, ou seja, a lista dos meus afazeres: nove trabalhos, um doutorado, um msn, um skype, um facebook, dois blogs ativos, um namorado e uma mãe. Isso não tem importância; o que importa, e disso conversávamos, é que uma hora e meia sem fazer nada, é o suficiente para que eu fique perdida, desesperada. Conversávamos sobre um vicio apenas inteligível para quem é viciado: não saber parar, não saber não fazer nada. Assim, o vicio possui requintes: só posso descansar, trabalhando, ou seja, pensando ou ganhando enquanto estou parada. E tem mais: o dia começa às cinco e meia da manhã porque senão não dá tempo para fazer tudo e arranjar afazeres a mais.

Telefone e internet ligados full time, principalmente enquanto durmo, porque acordo de vez em quando para checar o que está acontecendo e sempre está acontecendo alguma coisa. Arranjei dois fusos, dois horários e trabalho em dois lugares, Brasil e Israel. Tudo organizado. Nem uma linha fora do lugar. Todos os compromissos sempre em dia. Eu acho que faz parte da agenda dos viciados em trabalho uma organização maníaca, insuportável para os demais. Dividir quase uma dezena de tarefas, a maior parte delas, intelectuais. Dois computadores e uma vida nas nuvens. Mas preciso de um hd externo, e, mais uma vez descubro que, empurrar com a barriga a compra de um Mac, só atrasa a qualidade do meu trabalho fotográfico. Vou para três notebooks logo, logo. Tenho muitos amigos e converso regularmente com todos. Mas encontrar, almoçar, sair, ir ao cinema, viajar, nem pensar. Desorganiza. E dá-lhe telefone, conta para mim muito mais importante do que a do supermercado. O namorado, o Samir, é viciado em trabalho também. Nos encontramos nas arestas e pelas frestas. Agora, por exemplo, estou faz meia hora caindo de cansada, mas é cedo, são apenas nove e meia da noite, e não conseguiria dormir sem postar o comentário de sábado do Acústico Jerusalém, dia da mudança do post. Sou, sem tirar nem por, o coelho da Alice.

A mudança para a nova casinha foi cronometrada também. Lá pelas tantas já estava na casa nova, sendo que a ultima coisa desligada na casa antiga foi o computador e a primeira ligada no novo lar. Entre caixas, sacolas, sujeira: trabalhando, escrevendo, enviando escritos, emails e arrumando armário e limpando a casa. Fichinha. Mas uma dor de ouvido me derrubou e eu pensei, claro, faltava isso. Aprendi ( não me lembro se em algum livro, se no psicoterapeuta corporal, se no acupuntor, ou se foi na praça da Benedito Calixto ou na cerveja do bar da esquina) que quando você precisa parar e não pára o corpo dá um jeito de avisar. Acho que é uma coisa meio Yunguiana, lembrando melhor, acho que li no "Homem e seus Simbolos" quando era adolescente e tinha tempo para esse tipo de leitura. Então, comenta Yung, você é pego de surpresa e o corpo é afetado. Aprende a parar na marra.

Mas como eu comentava com a Ana Villanueva, nós, somos já doutoras em polianagens, em limonadas e limões; resolvi, então, que era hora de estudar as farmácias de Jerusalém em busca de um antiinflamatório. E lá fui eu, inchada, mal podia andar de dor, mas fui. Claro que isso depois de um dia e meio com dor e fazendo mudança. Eu achei que a dor ia se resolver sozinha. Não resolveu. O resultado é que agora já sou graduada em antiinflamatório israelense, anota aí, Ibuprofen e Nurofen, equivalem ao Ponstan. Resolvem dor muscular também mas não são iguais ao dorflex. O Acamol, remédio que é praticamente uma gíria aqui, é o equivalente da aspirina, um analgésico. "Você tem uma dor de cabeça?" "Tome um Acamol". Li tudo sobre os remédios na wikipédia. Já sei todos os equivalentes básicos. Anota também: enquanto você sente dor você deve continuar trabalhando e sempre responder que está tudo bem quando as pessoas perguntam como você está. Faz parte da lista dos viciados em trabalho.

Mas comecei esse post porque queria falar sobre a exposição de fotografia de Arte que fui convidada, como premiada lá no penúltimo post, pelo curador, o Leonid Padrul. Tudo bem, tudo bem, vamos expor em Israel, pontos para a viciada em vencer que compete com ela mesma. Mas o que eu queria comentar é que o Leonid Padrul é um superbaitahiper fotógrafo, russo e israelense e queria convidar vocês para conhecer o trabalho dele que, como todo bom profissional, descobriu o trabalho alheio e tratou de me procurar além de arranjar um tradutor cubano, que traduziu a conversa do russo para o espanhol, apenas para me dizer que era curador do festival de foto de arte de Israel e que queria expor meu trabalho. Gente bacana, vocês sabem, que alargam a vida e possuem vida larga, ampla e expansiva possuem espaço garantido aqui no Acústico. Vão lá no site do Leonid Padrul que o cara é fera mesmo e agora meu curador , em todos os sentidos:








sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Mudei de novo!!! Eba!!!!!!!!!!!!





"Mudei e vou mudar enquanto não morrer" (Taiguara)

Então, queridos e queridas, mudei de casinha aqui em Jerusalém. Perdi a conta se essa, agora, é a décima ou décima segunda na vida, mas é a terceira casinha aqui em Israel. Sempre para melhor porque você sabem, a minha vida só anda para o futuro...:) Espero visitas, e, logo, antes que eu mude de novo, claro! ;)





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sábado, 17 de outubro de 2009

Prêmio de Fotografia




Pois então: aquela história do post passado resultou que ganhei o prêmio máximo da secretaria de Cultura de Jerusalém. Na carta está escrito, após quatro traduções amigas, que eles consideraram a minha apresentação do ensaio fotográfico "zé mitztaien bimiuchad", ou seja, particularmente excelente, acima da média, o melhor de todos, excepcional, por isso me concedem o prêmio máximo, sendo que os adjetivos a mais ficam por conta dos amigos que conhecem como se dá o processo de conhecimento no meu cérebro, melhor, no meu ego. Mas, a verdade é que é verdade: o melhor de todos os apresentados. Adooooro ser "maaara"! ( e isso também é mais que verdade, não é? )
O engraçado é que ninguém sabe quando vou receber nem quanto é o prêmio. Achei divertido: talvez em dezembro, talvez em janeiro. Mas quem precisa receber prêmio? oras, a carta já vale, posso por aqui no blog, vocês podem saber, esse é meu prêmio, compartilhar vitórias.
Ainda não posso postar o ensaio fotográfico para o publico mas está lindo. O ensaio "Jerusalém: uma cidade, três religiões" ganhou pesquisa e tratamento literário do Djabal ( Erwin Maack) que forneceu sua incrível inteligencia para contextualizar as fotos conforme o livro da Karen Armstrong.
Mas voltando ao prêmio me senti meio que naquela campanha do Mastercard e montei uma prá mim:

Material fotográfico: 13.000 euros
Dois sapatos croq gastos: 300 reais
Ganhar o primeiro lugar de um prêmio que você não sabe quando nem o valor: Não tem preço

;)
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sábado, 10 de outubro de 2009

Jerusalém: uma cidade,


três religiões. Esse é o título do ensaio fotográfico que apresentei para uma comissão da secretaria de Cultura de Jerusalém. Um ano de ensaio fotográfico, trinta anos de leitura nos olhos, nas costas dos olhos. A recepção foi muito, muito surpreendente. Ouvi vários "Óóósss" e "Aaaaaaaah" quando as fotos foram colocadas na ordem da exposição. Não calculei que as fotos iam causar tanta surpresa, mas depois, voltando a pé para casa, comecei a pensar que eles, os da comissão, tinham razão pelo impacto. Fotografei Jerusalém com muita intensidade, horas e horas nos mesmos lugares, voltando dias e dias para as mesmas pessoas e cenas. Sol a pino, croqs gastos, inverno queixoso, um ano. Não poderia produzir coisas básicas com tamanha dedicação. As fotos estão lindas e depois de reveladas, em grande formato, fiquei com lágrima nos olhos. Pura emoção. Era além de mim, além da minha narrativa, além dos meus olhos: era Jerusalém.

Mas, tudo bem, enquanto espero a resposta sobre a exposição em Jerusa, preparo mais duas pastas de apresentação do ensaio. Estou literalmente moída com tanto trabalho mas quem espera para ver meu ensaio fotográfico sentada na mesa de casa ou do escritório é nada mais, nada menos que a Karen Armstrong, autora do livro que me guiou e inspirou o ensaio. Sim, nos falamos essa semana. Karen espera meu ensaio fotográfico em Londres. Veja bem, ela, enquanto autora, guiou meu ensaio. Sem ela, ele não existiria, e eu, bem, eu seria bem mais ignorante sobre a história de Jerusalém sem os livros da Karen Armstrong.

Mas não só. Também preparo uma pasta carinhosa para o Moacir Amâncio, poeta e crítico, bom das vistas, das cores e um grande conhecedor de Jerusalém e da cultura judaica. E, vamos ver se consigo uma exposição no Brasil. Sinceramente, eu sempre tenho esperança de fazer alguma coisa no Brasil mas eu faço um esforço enorme para não entender porque há sempre espaço para mim no mundo e o Brasil nunca consigo ter tempo ou lugar . E, então, contribuinte da saga dos Luizes Costas Limas e dos João Hansen, vou seguindo reconhecida e respeitada em outros lugares , menos no Brasil, onde basicamente, não existo, nunca existi. Mas eu tenho esperança. Tenho esperança no Brasil. Bom lugar para olímpiadas sendo que fica a desejar quando se trata de fortalecer músculos intelectuais ou os ouros do intelecto.

Além da dor nas costas hoje acordei com a noticia do ano, uma passagem intensa de Amilcar Torrão por essas bandas. Agora sim poderei compartilhar Jerusalém com um historiador de cidades. Jerusalém, a retórica da cidade, é fundamental para se caminhar, melhor, voltar para nossos caminhos historiográficos. Durante a estadia de Amilcar aqui, não farei mais nada há não ser acompanhá-lo e deixar-me surpreender, de novo, pela cidade, que não se desloca jamais dos livros. Jerusalém, cidade-livro. Amém.


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Samira, a gata. Yossef, o gato

Samira, raro momento, nunca se deixa fotografar. Saboreando seu leite
 


Yossef: posa sempre, adora a máquina e observar dentro de casa.
 
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sábado, 26 de setembro de 2009

janelas abertas n°4


Samira, a gata, aquela que eu cismei que trazia presságios em tempos de vacas magras, apresentou minha janela para um conhecido. Ele é ruivo, muito mais arisco do que Samira ( que nessas alturas do campeonato já me deixa acariciá-la, mas continua sem entrar em minha casa) sendo que não posso fazer menção de nenhum movimento mais próximo que ele sai correndo. No entanto, ela o trouxe, eu vi. E agora se encontram na minha janela. Acham que dividem o leite, ou talvez não, talvez houvesse uma conspiração cósmica para que eu dobrasse os potinhos de margarina. Yossef, este é seu nome, é um gato askenazi, israelense, judeu. Depois de estudar com olhos muito atentos a desenvoltura de Samira no parapeito da janela resolveu dar uma passo adiante, e, ao contrário dela que faz carinho, come e vai embora, ele não faz menção de afeto explicito: se farta de leite exatamente como ela mas dorme na janela. Não vai embora. Deita no parapeito e descansa olhando para dentro, medindo cada movimento meu. Emana longas piscadas do seus olhos e ressona sossegado e atento. Um guardião.
Quando Yossef chegou pelas patas de Samira pensei que deveria assumir também a presença dele. Afinal ele não é um gato qualquer, é um gato grato, que me doa companhia. Ainda com uma certa intuição de que Samira era um recado benfazejo achei que dois gatos, então, era recado duplo. E era mesmo.

Ganhei, através de um doador amigo que me inscreveu numa ONG, duas cestas básicas por mês além do passe livre para o ônibus. Essa semana vi a cesta básica entrar, e, havia tanto leite nela, além de queijo cottage, manteigas, kashe, champignon, azeitona, milho, uma quantidade absurda de maça, pêssego,kiwi, cenoura, geléia de morango, atum, bolacha, batata, enfim, a lista é grande, e nada do que vem dentro dela é passível de se comparar com uma cesta básica brasileira. Só a farinha, talvez.
Não coube tudo na geladeira, claro, mas vou ter que me acostumar com o fim das vacas magras e aprender a passear de ônibus por Jerusalém sem pagar. Ao contrário de outros lugares, aqui, qualquer lugar que se vê pela janela, você está em Jerusalém: é sempre um passeio charmoso, interessante e cultural andar de ônibus pela cidade. Até porque, escaldada de ônibus paulistano e frequentadora assídua em ler xerox de texto, em pé, no Butantã-Usp, os ônibus israelenses, confortáveis, limpos, com ar condicionado no calor, aquecedor no frio, e espaços entre os bancos que nos informam que seres humanos existem e precisam de conforto, ainda me causam sensação de civilidade e surpresa, embora eu já ande de ônibus aqui há um ano. Talvez seja exatamente como diz minha amiga Carol Vasconcelos, a gente nunca esquece do perrengue.

(Detalhe tipicamente israelense: ganhei a cesta nadabásica e o ônibus pelos próximos quatro ou cinco anos porque agora sou uma estudante de doutorado da Universidade Hebraica e nova imigrante. Outro: as ONGS aqui, funcionam.)


Essa semana também descobri que quando entro no meu prédio, Samira sai correndo do meio das plantas do jardim para minha janela. Entendi, então, porque toda vez que abro a porta ela está me esperando.
E para findar o post da semana: Eduardo Weisz completou o ciclo talmudico e hospitaleiro da minha entrada na Universidade Hebraica de Jerusalém. Fechamos o ciclo fazendo a minha matricula, indo à Biblioteca, retirando livros, macarrão, vinho tinto, e, para registrar, posamos para fotos no anfiteatro da Universidade Hebraica no Monte Scopus, com o deserto da Judéia como pano de fundo. ah, e para variar, estou de mudança, mas esse é assunto para outro dia.


Shlomit e Eduardo Weisz no anfiteatro da Universidade Hebraica de Jerusalém.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos


Começam nossos preparativos para o jantar de Rosh Shaná hoje à noite. Durante toda a semana ficamos de lá para cá, quero dizer, de casa em casa, falando ao telefone com o Hugo no supermercado ( falta passas! falta beterraba! compra manteiga!) trazendo e unindo as coisas: mel, maças, frango, peixe, cebola, alho,arroz, bolo, lista infindável que ia direto para a geladeira e congelador do Yehudá. Não tivemos, como era natural, nenhum conflito, e conforme a semana foi passando, a geladeira lotando das compras, fui percebendo que formávamos uma familia bacana, praticamente perfeita: Yehudá fornece o conforto da mesa, da sala, da cozinha, da casa dele que é linda e os superfluos essencias e chiques como vinho, por exemplo; eu, cozinho e cuido das comidas e o Hugo, bem, o Hugo é o dono do dinheiro, o provedor da festa que a gente faz acontecer com nossa geladeira com tudo dentro.
Como não podia deixar de acontecer pensei, pensei e sorri bastante. Formamos sim uma familia ao estilo Rent, o musical do Jonathan Larson. Partilhamos o ano inteiro companhia, comida, falta e chegadas de dinheiro, uma gripe aqui outra acolá, e o aluguel sempre entre nossas conversas.
Quero deixar aqui um carinho para o Yehudá e para o Hugo que me trouxeram a lembrança esse musical incrível que fala do amor entre os amigos:

"Quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos
Quinhentos e vinte e cinco mil momentos bons
Quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos
Como se mede... mede um ano a mais?
Em dias? Em pores-do-sol?
Em noites? Em copos de café?
Em polegadas? Em milhas?
Em risos? Em conflitos?
Em quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos
Como você mede um ano pra viver?
Que tal medir em amor?
Meça em amor
Tempos de amor

Quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos
Quinhentos e vinte e cinco mil jornadas para planejar
Quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos
Como medir a vida
de uma mulher ou de um homem?

Em lições que ela aprendeu,
Ou nas vezes que ele chorou
Em pontes que ele ergueu,
Ou no caminho que ela morreu?

É agora o tempo - para cantar
Essa história que nunca termina
Vamos celebrar
Relembrar um ano
Na vida de amigos
Relembrar o amor
Meça em amor
Meça
Meça sua vida em amor
Tempos de amor
Tempos de amor"

terça-feira, 15 de setembro de 2009

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Janelas Abertas nº 3

"Mas eu prefiro abrir as janelas..." (Caetano Veloso em Janelas Abertas nº2)

Aqui ela se chama Samira. Não sei se possui outros nomes, outras pessoas, outras janelas. Chega com muita, muita fome. É uma bela gata malhada de branco, amarelo e cinza. Olhos esverdeados, carinhosos. Patas e unhas nem tanto. Já experimentei. Fiquei brava, fechei a janela. A gata sentiu. Se tornou um pouco mansa após o ocorrido. Um pouco. Não mais que isso. O suficiente: um pequeno carinho quando sirvo o leite. Não lhe agrada entrar. Toma seu leite e depois senta na janela olhando para fora, de onde veio, enquanto eu fico olhando-a de dentro, donde estou. Outro dia o Samir, meu namorado, se deu conta da estátua viva sentada na janela, tentou espantá-la. Ela não gostou e não se moveu. Eu ri. Gosto dela. Está prenha. São dois meses de uma discreta amizade e respeito entre nós duas. Na verdade ela apareceu antes. Mas meu susto gritou tanto que o vizinho colocou a cabeça para fora da sua janela para ver se estava tudo bem comigo. Estava. A gata desapareceu e eu passei por maluca. Mas ela voltava a voltar, espionava meu silêncio.

Na semana em que entrei com o pedido de doutorado na Universidade Hebraica de Jerusalém, há uns dois ou três meses atrás, a gata ganhou leite pela primeira vez. No dia seguinte, apareceu de novo, leite outra vez, e nessa ganhou o nome, Samira. Conforme a gata vinha, as semanas iam, a geladeira escasseava devido a quantidade de documentos traduzidos e juramentados que a Universidade Hebraica exigia e Samira passou a tomar água aqui em casa. Ela e eu. Dei para conversar com a gata em português. Palavras poucas: -Samira, as coisas vão melhorar e vamos voltar a ter leite, nós duas. A gata fazia que entendia. Generosa, me poupava traduções.

Quando fui ao escritório da Universidade Hebraica entregar a última tradução juramentada, e, enquanto a senhora Tova abria o armário para retirar a pasta do meu processo de doutorado e falava, eu apenas ouvia e via caixinhas e caixinhas de leite transformadas nela. Voltei para casa nessa tarde pensando no ônibus que miséria pouca era bobagem mesmo, e , afinal, eu havia conseguido traduzir e juramentar todo meu curriculo. Hora de comemorar. Passei no supermercado, comprei um litro de leite e esperei Samira. Nos fartamos. Dali em diante, mesmo contando moedas, passei a comprar leite uma vez por semana muito mais para a Samira do que para mim. Cismei, ou inventei, tanto faz, que a gata trazia um recado de prosperidade em tempo de leites magros.

Posso explicar um pouco melhor para não acarretar sentimentos de comiseração no leitor, coisa que não carece: durante todo esse tempo estive com trabalhos; fotos, a Dona Clarita de quem sou dama de companhia aos domingos, artigos, os Iacoov para quem dou uma ajudazinha na cozinha kasher da senhora Ruth, revisão da tese no Brasil, enfim, superlotada de afazeres remunerados. Não faltou trabalho. Nem dinheiro. O caso, é que tive que diminuir consideravelmente o consumo dos luxos e depois das amenidades conforme aumentavam as páginas que iam para a tradutora juramentada que, talvez, tenha feito o seu supermercado por minha conta durante os últimos dois meses.

Então, eu sabia que minha fase de misere estava escaldada por uma causa justa, o doutorado, porque o processo aqui é completamente diferente do Brasil. Tive banca que leu minha tese de mestrado, que leu meus artigos, que deu pitaco no meu curriculo. Além disso, para você ter o direito à formação de uma banca somente para você não basta ter lindos olhos: é necessário ter aprovação da tese de mestrado acima da nota 85, artigos publicados em revistas especializadas e cartas de referência de profissionais renomados na sua área, dizendo que sim, que você dá conta do recado, além de ser afável, inteligente, pesquisador, leitor, estudioso e possui um futuro promissor. E dá-lhe tradução de toda uma vida dedicada ao estudo.

Claro que essa conjectura era formada também por uma comissão de amigos e conhecidos aptos para ajudar e dar mais que uma força: duas, três, quatro, cinco, seis forças. A comissão era pequena e muito ativa: Hugo, Eduardo Weiss, Yehudá, Samir, Ana Villanueva e minha mãe. Mas a Samira, a gata , virou uma espécie de Ganesha com patas, e ao compartilhar água comigo como se fosse leite dos deuses, trouxe-me a sensação de que a fartura é composta pela expansividade de saber entrar, permanecer e sair pela janela, como se portas fossem coisas por demais óbvias para uma gata que não se incomoda nem se acomoda.

Numa dessas idas e vindas de Samira quando já não havia nada a fazer senão esperar o resultado da Universidade Hebraica, recebi a carta oficial parabenizando-me por ser aceita como pesquisadora. Vibraram, os de longe e os de perto, os que não tinham dúvida e os que já sabiam por intuição. Todas as pessoas que dividiram a vitória comigo, comemoraram. Era certo que eu também comemoria com um bom vinho tinto israelense. Postei em meu MSN e Skipe a palavra "comemorando" e voltei do supermercado com três litros de leite integral. Esperei Samira que chegou sem nenhuma dúvida. Fiz um chocolate para mim, e, enquanto ela se enroscava no vidro da janela, preparei seu leite no potinho vazio de margarina. Coloquei-o no parapeito, e, brindando, desejei que Samira e seus filhotes sempre encontrem janelas bacanas que dividam seu leite com ela.
Le Chaim!*


* "à vida" , brinde em Hebraico.




segunda-feira, 31 de agosto de 2009

sábado, 29 de agosto de 2009

"Cafézinho"



Ontem fui à casa do Yehuda Cavalli tomar café importado do Brasil já que ele estava achando essa história uma novidade e tanto, isto é, uma das maiores fabricas israelenses fazendo uma linha de pó de café estrangeiro. Pois fui, então, experimentar.

O Yehuda, enquanto eu iniciava o café, fez uma prédica sobre a propaganda que passa na televisão aqui em Israel. Pelo o que eu me lembro, um homem pulava de paraquedas em Salvador, no pelourinho, lotado de baianas e toma seu café. Ou algo assim. Antes: antes ele havia pedido para a aeromoça um café forte, com energia, com sabor, se anima nessas palavras, levanta da cadeira, a porta do avião abre espetacularmente, e, nosso modelo cai de paraquedas em Salvador.


Obviamente que meu amigo Yehuda, paulistaníssimo, criticava com razão o por que dessa imagem de Salvador, como se Salvador fosse a "cara do Brasil" com o pelourinho, lindas casinhas coloridas coloniais e enormes baianas negras com dentes e saias brancas girando sorrisos e doces tabuleiros.


Pois é, pensei, enquanto meu amigo Yehuda se indignava com essa imagem, o fato é que essa é uma boa imagem do Brasil: as baianas sorriem mesmo, requebram os babados das saias de tão contentes, o pelourinho é um dos poucos lugares que está completamente restaurado no país, e, por isso mesmo, digno de se mostrar, e os negros de Salvador são fortes e dão vitalidade de presente.

Que outra imagem teria do Brasil com essas caracteristicas juntas? Não ficararia bem para o Café Elite mostrar a Baia de Guanabara e o Cristo Redentor na televisão abrindo os braços para os israelenses e o lado europeizado do Brasil, São Paulo para baixo, é branco demais para simbolizar a energia negra do café brasileiro que a fabrica israelense quer vender.


Hoje quando acordei, Yehuda continuava a sua saga com o café brasileiro, para minha diversão. Vejam só que belo email sobre indignacação e café brasileiro:

"Na embalagem da nova linha de cafés de boa qualidade da Elite... no rótulo da parte de trás do que eles chamam de Kafé Brazilai (Café Brasileiro), vem um texto falando sobre o café do Brasil e há o parágrafo abaixo:

"יש אומרים שברזיל פועלת בכוח טעמו המלא העשיר של הקפה הנמכר ב'קפיזיניו', עגלות הקפה העומדת בכל פינת רחוב. אלו הן תחנות אנרגיה, מניעות את הערים הסואנות והתוססות של ברזיל."

"Há quem diga que o Brasil funciona com a força do rico e completo sabor do café vendido no 'Cafézinho',carrinhos de café parados em todas as esquinas. Eles são estações de energia, uma prevenção das cidades tumultuadas e agitadas do Brasil."


SÉRIO!!! Aonde a pessoa que escreveu esse texto foi? Eu sei que não conheço muito o Brasil, mas existe algum lugar que tem carrinhos/barraquinhas (igual de feira, pois é assim que eles mostram no comercial de TV!) chamadas "cafézinhos" em cada esquina???"

Yehudá Cavalli.



quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Portal Judaico

Dia 14 de Setembro é a inauguração do Portal Judaico na internet. Estréia junto minha coluna semanal de crônicas "Jerusa: além do que acontece no meu coração". Estou muito animada com o compromisso de escrever toda semana sobre as minhas pernadas sem fim por aqui. Vou escrever sobre a vida ao rés do chão em Jerusalém. E obviamente quero agradecer à Marylin Prado pelo convite e pela paciência que ela teve em, candidamente, durante meses, me convencer a aceitar a coluna. Admito que não facilitei mas ela é boa de conversa. Que paciência que ela teve com a minha majestade, uau...;)