sábado, 20 de novembro de 2010

GAMA, Luciana. Os Macunaítas: exéquias. ex(c)ertos. trechos. Cienc. Cult. [online]. 2010, vol. 62, no. 4, pp. 66-67. ISSN 0009-6725.


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Ciência e Cultura

ISSN 0009-6725 versão impressa

Cienc. Cult. v.62 n.4 São Paulo out. 2010


 


Luciana Gama

Os Macunaítas: Exéquias. Ex(c)ertos. Trechos


"Do muito que li, em ócio, e viajei, em férias, partes da formação da minha nobre educação Icamiaba, tornaram minha chegada nessas terras de Jerusalém, letrinha miúda, de maneira que aqui cheguei já na consideração que não merece pouca estimação, o que, desprezando os mimos e regalos da sua pátria, busca as alheias para nela se qualificar com mais largas experiências: por cuja razão é sair o da pátria o que faz aos homens mais capazes e idôneos para mui grandes empresas e suficientes para tudo: como o tem feito a tantos varões ilustres. Porém é certo que quem peregrina acompanhado de seus vícios mais valerá não ter saído; pois tornará mais perdido, que aproveitado: porque as enfermidades da alma não se curam com a mudança de lugar, de modos que aqui cheguei, doente de doença Brasil, país sem saúde, o dístico do pai espiritual do meu povo não é nada perto do meu: escrevem bonito e fazem feio, os males do Brasil são!"

"Eu pensei em ser breve nestas bem traçadas mas você repare na grandeza da matéria o que não me permite qualquer outra alternativa imposta pelo gênero. Não é nada desprezível o aprendizado que tenho angarinhado com o povo do livro. Sim, eles são o povo do livro. Você, então, imagine os estatelos e estupefatos a que sou submetida a cada pernada pela rua ou sentada no ônibus, eu, uma legítima Icamiaba, conviva dos melhores salões da nobreza paulistana, descendente exemplar do povo do Texto, os Macunaítas."

"Me acuda, prima, para brincar todas as noites. De manhã, quando Vei a sol chega estou exausta, quem tem força para levantar e ir trabalhar para ganhar vintém para pagar a universidade? Bem que eu quis impor à minha ardida chama uma abstinência, penosa, para poupar despesas à prima; porém que ânimo forte não cede ante os encantos e galanteios da homarada nordestina [sic] palestina daqui? Sei que vais me recordar, em argumentação carinhosa, que podia entregar de vez a muiraquitã pro meus cuidados e por ele pra correr, como boa Icamiaba que sou, mas você não imagina que os homens árabes daqui parecem Icamiabas de tão homens que são e contam nossas luas de sangue porque querem os filhos machos para eles e já que eu não reproduzo o homem vem brincar toda noite, a muiraquitã tá na mesinha ao lado da cama, empoeirada que só vendo a belezinha, ele dá safanão no meio da noite e eu vou parar longe, a muiraquitã e o criado mudo vão juntos, uma delícia, eu acordo feito fúria e cresço para cima dele. Brincamos assim. Pode enviar apenas um pouco mais de dinheiro porque com pouco a vossa abstemia acadêmica se contenta; se não puderdes enviar duzentos reais, mandai cem a mais, ou mesmo cinquenta! "

"A cidade velha, cercada com seus muros do fim do século XVI mas onde as pessoas jeremiam seus lamentos como se fosse o que restou da queda do segundo templo em 70 D.C, é um parque temático ao gosto do freguês, seja ele católico, muçulmano, judeu, budista, ateu ou arqueólogo. A cidade se abre para realizar qualquer fantasia de crença que uma pessoa tenha, da igreja do Santo Sepulcro, o castelo mal assombrado mais antigo do mundo até a maravilhosa, sem dúvida, esplanada da mesquita Esh-Sharif, que deixa o castelo da Cinderela no sapatinho embora ambos possam ser vistos a partir de qualquer canto dos seus reinos: Disney ou Jerusalém. Ninguém, ninguém aqui ladrilhou ou semeou, embora a cidade, como todas, viva de apropriações e desapropriações, mas nenhuma igual a que o padre Sergio Buarque de Holanda fez com a frase do historiador Antônio Vieira. Jerusalém nada tem de colonial (...)."

"Acontece, atente nisto, que o povo do livro acredita que somos o povo do Texto porque despregamos de uma folha perdida por uma então perdida tribo das dez tribos perdidas, desertores dos desertores, povo meio que do B das antigas, pensei gargalhando botões, fala sério, mas a hipótese seria a seguinte: nós nos perdemos, em algum momento, nos quarenta anos de caminhada das doze tribos pelo deserto que aportaram em Canaã. Tô boa, santa: um Macunaíta jamais se perderia, pensei, quanto mais cinco ou seis ou vinte e cinco juntos, pelo simples motivo de que jamais pensaram em encontrar qualquer coisa que fosse, quer dizer, a menos que seja para desencontrar. Se for verdade o que eles dizem, fique certo como eu estou certa, de que logo na primeira semana dos quarenta dias, assim que atravessaram o mar vermelho, os Macunaítas farejaram que aquilo tudo era uma chatice sem tamanho e desertaram bacana. No entanto, argumentam que as semelhanças entre nosso tio avô feiticeiro, Maanape e Araão, mano de Móises, não são nada desprezíveis.

"O povo do livro também assevera que algumas semelhanças textuais asseguram um passado em comum entre eles e nós, o povo do Texto, como por exemplo – eles se apoiam em Vasconcellos, por certo a palavra Tupan-Abá é uma curruptela que precedeu deTupinambá e significa "Povo de Deus". Uma outra, conceptual e agudérrima, é a de que a palavra arara deriva de ararat, o monte bíblico onde Noé aposentou as galochas, revelando assim uma memória assombrada e assombrosa de tempos imemoriais em cujo caminho a letra t criou asas".

"Para chegar ao Muro das Lamentações tem que descer uma escadaria de arrepiar o Bonfim e é suja, prima, tão suja que merecia uma lavagem de água de cheiro. Morro de vontade de fazer a lavagem das escadas do Kotel, ô saudades! O povo do livro também tem uma tradição culinária de comer sanduíches com bolinhos fritos de grão-de-bico na rua, imagina só, pensei então que poderia montar uma barraquinha perto da escadaria do Muro das Lamentações e me tornar a baiana do falafel."

Luciana Gama (Shlomit Or), 44, é escritora, fotógrafa, cronista e doutoranda na Hebrew University Jerusalém no Departamento de Spanish and Latino Studies.Brasileira e israelense, possui artigos publicados na Revista USP, Iararana e do Centro de Estudos Judaicos de Minas Gerais.Faz fotoliteratura, cujo foco, a narração das ruas, estão divulgadasem diversas mídias/jornais como Reuters e Haaretz. É autora de Os macunaítas: um povo sem solução, romance inédito, de onde o trecho acima foi retirado. Blogs: www.acusticojerusalem.blogspot.com; www.photojerusalem.blogspot.com; http://macunaitas.tumblr.com

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

José Candido de Carvalho e Cyro dos Anjos, amém.


Adquiri esse livro, sabe lá quando, por uma preço infímo, coisa de cinco ou sete reais, nesses sebos insuportavelmente evangélicos e organizados por sobrenome de autor no bairro de Pinheiros, São Paulo. Mas graças ao Deus da confusão dos assuntos das estantes dos sebos e graças as bençãos que esse mesmo Deus emana aos autores que não são conhecidos dos livreiros evangélicos- nem todo achado é Machado- saí rindo do sebo com essa preciosidade de autógrafo nas mãos. Hoje, ao abrir uma das caixas de livros no fundo da casa de minha mãe ri do mesmo riso que me acometeu quando do seu-meu achamento  entre os  evangelistas. Esse abraço do Coronel Ponciano no Amanuense Belmiro não é coisa prá qualquer um não: só para os descanonizados ou vacinados contra os canônes da  literatura brasileira.
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sábado, 21 de agosto de 2010

transjerusalém - são pulo, brasil (Gama, Luciana. "exéquias" In Os Macunaítas)

Para efeito epigráfico: epígrafe de epigrafe tudo é epígrafe

"Fatigado
Das minhas viagens pela terra
De camelo e táxi
Te procuro
Caminho de casa
Nas estrelas
Costas atmosféricas do Brasil
Costas sexuais
Para vos fornicar
Como um pai bigodudo de Portugal
Nos azuis do clina
Ao solem nostrum
Entre raios, tiros e jaboticabas."

(Oswald de Andrade  In Serafim Ponte Grande: Fim de Serafim)

domingo, 1 de agosto de 2010

Trechos: Os Macunaítas de Luciana Gama

(Tudo bem. Você pede noticias devidas ao sumiço. Me cobra que devo satisfação aqui no blog, lá vai, se segura, malandro: Uma semana perdida fazendo as exéquias dos Macunaítas, cujos recortes, trechos -para usar palavra mais simpática- vão sair numa revista de literatura. Quando? não sei, aviso. Chancelaram, por fim, Os Macunaítas. Depois, mais dez dias em plena narrativa: não vi o tempo passar e nem as páginas crescerem. Somente ria e via ao meu redor um monte de santo: José Candido de Carvalho, Manuel Antonio de Almeida, Machado do Memórias Póstumas, e, Millôr de vez em quando. O capítulo II, "O Sequesttro da Sátira", é desenho com mínimos detalhes, croqui,  tinta a óleo, moldura. Mando amostra grátis . beijo na familia, na Cecília e nas crianças, prá todo pessoal, adeus:)


"...Mário de Andrade também não era. O achamento de um povo que sempre se entranhou na veia da sua terra e se misturava impertinente também a sua biblioteca cerebral a partir daquele instante, o do descobrimento vital propriamente dito, levou-o a arrumar algumas poucas peças de roupa e abrir a mala poenta por cima da cadeira do quarto: dois ternos de casimira inglesa, o terceiro, de linho branco s120, iria no corpo assim como o chapéu de aba larga para o forte sol de Araraquara  que levaria enterrado na cabeça; camisas de manga, quatro, papel, loção francesa Revê Rose para passar na calvície, caneta e tinteiro, pó-de-arroz- poderia ser útil em algum evento social à noite- e os lenços caprichosamente bordados com suas iniciais, MA, por tia Nhanhã, misturados a três sambas-canção e ceroulas, poderiam ser  úteis mesmo no calor, o pijama de listras largas com botões grandes, o robê de seda, chinelos e meias: Mário não andava descalço. Livro nenhum entrou na mala de organizada angustia, somente os fichamentos das ultimas leituras que vinha fazendo. Não eram poucos: os do cinco volumes de Von Roraima Zun Orinoco  ocupava o equivalente a um par dos sapatos sob medida da Sapataria Guarani, a mais cara de São Paulo, sempre no modelo escocês furadinho de bico afinado.(...)" (Gama, Luciana. Os Macunaítas, In: cap II, O Sequestro da Sátira ou O Rapto dos Macunaítas ou O Nome da Palmeira)

 (...)De vez em quando, era notório, Mário gargalhava refestelado e esquecido da sua gravidade de maneiras e lotava o ambiente chacoalhando risonho todo seu corpo alto, magro, enorme; mesmo assim, era riso que em nada lembrava a sonora gargalhada dos índios Umutina quando o Padre Salesiano Nicolau Badariotti, às vezes, assentado sobre uma pedra ou sobre algum tronco de madeira rodeado de trinta ou quarenta índios contava coisas da Europa procurando explicar-lhes por meio de imagens. Os índios Umutina imaginavam que o Brasil fosse todo o mundo; admiravam-se pois ouvindo o padre dizer que além do grande rio (oceano) existia a Europa dividida em muitos países de línguas diferentes, etc; o cúmulo de admiração era significado por sonora gargalhada, então. Essa gargalhada, a mesma de Oswald, jamais seria a de Mário."
(Gama, Luciana. Os Macunaítas, In: cap II, O Sequestro da Sátira ou O Rapto dos Macunaítas ou O Nome da Palmeira)

(...) Mário voltou para casa puto, atordoado, mais atordoado do que puto, varou o resto da noite, madrugada adentro, retirando e abrindo livros da sua biblioteca, nenhum, nenhum, nenhum, nenhum, nada sobre macunaítas, esses macunaítas não existem, concluía Mário, exausto, lá pelas sete e meia da manhã, agora muito puto, pressentindo que caíra numa piada invenção de Oswaldo que levou toda sua noite. Acordou tarde, meio dia, desperto pela conversa entre sua mãe e tia Nhanhã, uma ladainha sussurrada que chegava até seus aposentos e desceu as escadas, sonolento, no robe de seda, que interromperam a conversa com sorrisos de senta aqui, meu filho, vamos preparar seu desjejum. Pouco importava para elas, mãe e tia, tão bom era aquele filho sobrinho, suas peregrinações dentro da noite veloz e tampouco se acordava tarde ou cedo tamanha a dedicação que Mário, sujeito pacato e estudioso desde menino, pena que não continuou sua dedicação à igreja, começou tão menino, coroinha exemplar, pensavam em conjunto mas jamais comentavam entre si que Mário, depois de dezessete mais ou menos, nunca mais as acompanhou à missa, pouco importava, nosso menino, agora moço, continuava exemplar, cuidadoso, cada dia mais refinado, discreto, estudioso , caseiro e tímido, o que era a mais pura verdade: pouco importava para a mãe, para a tia, para o irmão, para os moços de então que se sonhavam futuros escritores e poetas  que escreviam cartas que Mário respondia com dedicação e ardor, como Carlos e Fernando, pouco importava para amigos mais íntimos como Manuel e Rosário Fusco, ou para aqueles alegres rapazes de Clima, ou mesmo para as viúvas de Mário, como ficaram conhecidas à boca miúda as cuidadoras oficiais do seu espólio intelectual no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo incentivadas por aqueles mesmos alegres moços de Clima, agora homens feitos, pouco importava que nosso menino não casou, que nosso menino gostava de meninos e meninas e bananeiras e galinhas e uma vez, uma mula, arre, tão pouco importava que esse pedaço da história não foi importado mas deliberadamente ocultado aqui, ajustado ali, será o benedito, importava mesmo que nosso menino, naquele dia, sentado no sofá, cruzando as pernas do robe de seda sulferino escuro que deixava uma listra larga da perna  direita do pijama de fora, enquanto a mãe e a tia preparavam o café gostoso, o café bom, o café preto que nem a preta velha, haveria de numa pulsão nunca cometida por ele antes, nem mesmo em Há uma Gota de Sangue em cada Poema ou na torrente de inspiração lírica que o acometeu em Paulicéia Desvairada, haveria de no dia seguinte, de noite, já em Araraquara e poucadissímo esquecido da raiva que Oswald o havia feito passar, ora bolas, uma noite toda procurando em sua vasta biblioteca por um povo que jamais existiu, começar, deitado na rede, o que viria a ser também em seis dias, o seu gênese, o nosso antigo testamento, o livro que o tornaria Deus: Macunaíma, o Herói sem nenhum caráter. (...) (Gama, Luciana. Os Macunaítas, In: cap II, O Sequestro da Sátira ou O Rapto dos Macunaítas ou O Nome da Palmeira)


sábado, 17 de julho de 2010

Senhores tão bonitos quanto a cara de seus filhos

Ha Palmach Street, Jerusalém Shlomit Or Gama © 2010 All rights reserved







Dia redondo, hoje. Não bastasse a beleza dos dias de verão aqui em Jerusalém, amenizados pelo ventos que chegam da Judéia, a luz intensa do sol apontava na janela da sala lá pelas sete e meia de uma manhã escancarada com a chegada radiante do sorriso de Janaína, passando pelo portão, com bagagem de mão rosa, encardida de pó da estrada, ônibus, passeios e calçadas. Atrás de Janaína, um sorriso de pai, luminoso. Michel Rosenthal Wagner, enfim chegava, com seu livro na mala e sua filha pela mão. Eu os esperava com bolo de cenoura integral e calda de chocolate. Pai e filha encontraram-se no aeroporto em Tel Aviv. Michel vindo de Málaga onde foi visitar seu pai, Janaina por sua vez já estava em Israel e havia percorrido o país inteiro com o Taglit. Jerusalém, anota: um bom lugar para encontros.

Mala de escritores são fascinantes porque a primeira coisa que sai delas é livro. Foi assim que Michel me mostrou orgulhoso a publicação do seu: A árvore onde meu Pai catava Nozes. Sim, o livro é caprichosamente editado pela Sefer editora. A narrativa, como sabemos, magnífica porque é fruto de uma viagem, melhor, de um mergulho de Michel nos lugares onde seu pai e avós passaram a infância no Leste Europeu. No entanto, naquele momento, entre malas, café e bolo de cenoura, Michel me mostrava a capa, orgulhoso, porque a foto espetacular da nogueira em frente à sinagoga e na frente do livro, a árvore da infância do seu pai, era da Janaína, que por sua vez, sorria mais radiante ainda, revelada fotógrafa para mim Eu estava, portanto, diante do pai de Janaina que era pai do livro sobre seu pai. Sorri com a compreensão que só os olhos conseguem expressar quando se apertam.

Em algum momento da manhã, na rua Ben Yehudá, no centro de Jerusalém, vi Michel olhando Janaína olhar o que ela olhava pela rua enquanto estava uns passos a nossa frente. Este é um momento único. Eu tenho três filhos. Poder encontrar com cada um é tão especial, confabulou emocionado. Filhos, livros e árvores: amor; palavras que iam e vinham no ônibus, enquanto as ovelhas, cabras e os pastores da estrada da Judéia me enterneciam na paisagem montanhosa e redonda da janela.

Já em casa, entre um copo de água e outro, vi o José Ruy Gandra no facebook, com foto de perfil de lua crescente. Vamos lá seu Zé, quero ser sua amiga, reencontrá-lo. Em poucos minutos conversávamos. Dali, papo em dia, fui ler as colunas do José Ruy. Meus olhos se apertaram de novo, agora marejados, não da orla da Judéia, coisa comumente de tão bela, mas dos textos do Ruy sobre Pedro e Paulo, seus filhos, com direito a galhos de jaboticabeiras, almoços árabes, situações inusitadas. O Zé possui duas colunas onde nos dá o luxo e a honra de compartilhar seu amor, seus filhos e o amor ao seus filhos, chamadas Coração de Pai e Pátrio Poder : http://gandraedit.com.br/revistas/

Hoje foi um dia perfeito do pai dos outros nos outros: na Janaína, na nogueira, na jabuticabeira, no Pedro, no Paulo, na pretinha, nos livros, nos textos, dentro e fora porque o dentro só vale fora, o fora só vale dentro: se diz por aqui que a gente sabe quando uma benção é uma benção porque ela faz bem pra todo mundo. Anota isso também.



















domingo, 27 de junho de 2010

Saramago e anti semitismo

Estou, enfim, lendo Caim. Ontem dormi na página vinte. É claro que estou gostando. Posso me dar ao luxo de dizer que sou leitora de Saramago. Alguns de seus livros li e reli até a exaustão, até poder citar cenas sem a menor parcimônia como se uma passagem de Saramago ou estar em Tatuí fosse a mesmíssima coisa. Evitei Caim até onde consegui. Saramago é um escritor que influência na minha escrita narrativa: volvo e revolvo a língua portuguesa com Saramago. Um amigo me escreveu, tão logo Saramago passou a não respirar, que o Alcir Pécora disse numa entrevista que Saramago não era tudo isso. Não sei se é verdade, não escutei e esse meu amigo me garante que o Alcir Pécora não gosta dele, amigo. Eu morro de inveja do Alcir Pécora. Eu tenho uma lista de pessoas que me dizem: o Alcir Pécora não gosta de mim. Todos escritores. Dessa lista eu já briguei e já fiz as pazes com pelo menos a metade deles. Briguei de brigar mesmo, de virar a cara, de aprontar. Alguns não me perdoaram; de outros, recebi abono. Troco cinco James Joyce por uma boa briga e ainda de quebra lanço uma Pedra do Reino quando a pessoa vira de costas, indo-se. Adoro livros e tijolos e tenho preferência por livros deste formato. O Alcir Pécora é uma flor de criatura perto de mim. Nunca ouvi dizer que ele é briguento, que não é flor que se cheire ou que é grosseiro. Queria eu que as pessoas dissessem em chororô: a luciana gama não gosta de mim. Mas a luciana gama praticamente não existe e o alcir pécora é um fato. Talvez entre eu e ele possamos ponderar a diferença entre a expressão galinho de briga e briga de galo. Eu cego prá valer. Brigo com todo escritor vampiro que se aproxima de mim. Eles costumam vagar pela noite, em bares específicos, sugando histórias dos simples mortais que tomam cervejas e no dia seguinte seguirão anõnimos como personagens de escritura. Quero deixar bem claro que conversas que eu posso ouvir em mesas de bar com pessoas interessantes dentro não me servem como representação literária já que  para tanto basta ir ao bar da esquina. Eu gosto de ler. Passar frases inteiras do bar da esquina para o papel não é literatura, é vampirismo. Também não suporto leitores que não vão ao bar da esquina mas ficam em casa lendo essa literatura que seu medo do mundo alimenta como literatura. Sim, eu sou brutalmente criteriosa e rachei de rir com a declaração do Pécora sobre Saramago. Mesmo que não seja verdade do meu amigo, eu gostei da história, porque ela cabe na boca do Pécora, esse cordeiro na pele de lobo. Samarago era tudo isso sim senhor. Concordo que Ensaio sobre a Cegueira é uma bosta e aqueles diários de Lanzarote de fechar-se na página um mas o que ninguém disse ainda é que Saramago pulou Vieira no jogo céu inferno da literatura dele. Rendeu-se à Camões, mil vezes ao Fernando, mas conseguiu o feito extraordinário de saltar por cima do Padre imperador da Lingua Portuguesa. Talvez, o Pécora saiba disso, assim como eu sei porque sou leitora voraz de Saramago. Vieira deve ter sido a Clarice Lispector de Saramago, ou seja, aquele escritor que quando a gente lê se questiona dolosaramente se não se está tudo alí, não havendo necessidade de dizer o que dito, às claras, já está. Obviamente que estou me referindo aos contorcionismos miraculosos da língua portuguesa em Vieira. Eu também fico atéia de palavra quando visito Vieira, esse fazedor de sombras em nosso  português a haver.
Saramago era amargurado, enjoava nas curvas de sintra e sentia o fígado aos ver pasteis de santa clara, por certo: era escritor, conhecia a vida por obrigação de vivê-la, não sendo fugitivo que se esconde em livros ou mesa de bares. Eu conheci Saramago, eu sei. Levando-se em conta que sou possuídora de talento raríssimo para desnortear pessoas sobre o que eu realmente vivenciei e o que foi vivenciado por mim realmente, suponhamos que eu tenha conhecido Saramago durante sete segundos e duzentas e oitenta nove páginas de livro, coisa que assim se deu: cheguei em Portugal, vinda de navio, nas comemorações do terceiro centenário do Padre Antonio Vieira. Todo mundo sabia disso, menos eu. Só me dei conta porque fui parar numa missa, no bairro alto, para o padre. Não era missa, era congresso. Mas era missa. E fui porque tinha salgadinho. Nessa época eu acreditava que bolinhos de bacalhau originais e tradicionais não eram os feitos na Lisboa Ocidental vulgo bar do mané portuga na esquina da cardeal Arco verde com a Fradique Coutinho em São Paulo. Dali da missa, do bairro alto, da rua do alecrim, até me sentir sardinha enlatada num comboio barco no tejo para Almada, entrei no meu quarto e dei para ler Saramago durante oito dias consecutivos. assim que cheguei no que será então minha casa portuguesa havia dois Saramagos na estante da sala. Almocei e jantei História do Cerco de Lisboa mas o outro a minha espera não me moveu dali: passei mais quatro dias trancafiada saboreando o Evangelho Segundo JC. Sim, era minha forma de absorver Portugal com a missa bolinho frio de bacalhau sem gosto mas com Vieira. No domingo, logo pela manhã, não havia mais Saramagos na estante para mim e fui dar uma volta. Entrei num taxi. Me leve para qualquer lugar, não conheço nenhum. O motorista achou por bem me levar para Cascais, cassinos, taximetro e tal. Mas no primeiro farol fechado emparelhamos Saramago e eu, carro a carro. Gritei de dentro: Saramago! o escritor assustado, assustou. Dei acenos e sorrisos. Ele se refez do susto e acenou numa primeira engatada. Só nos reencontrariamos de novo no Memorial do Convento mas essa é outra história. Eu gostei daquilo, daquilo de assustar o escritor que me assustava, bu Saramago, tô te lendo, caderno rosa purpura de Cascais.
Mas chegamos onde eu não queria: onde eu acho que devo me posturar: eu confesso que sempre achei que Saramago estava gagá quando fez declarações sobre Israel, país que em dá guarida, casa, comida e namorado. Então, nunca dei muita atenção ao fato. Em todas as livrarias por aqui há Saramagos em inglês, em Hebraico para todos os lados, todos os títulos. Que as declarações tivessem vindo do senso comum, eu até compreenderia, mas não vindo de um intelectual. Israel hoje pode ter um governo que eu e mais uma tonelada de gente aqui não concorda mas isso não significa que Israel não tenha uma bela formação sindicalista, democrática que permite que o sistema funcione confortavelmente para seus cidadãos: estou falando de bens comuns como saúde e educação em fases de governos que eu discordo como esse de Netaniahu, por exemplo. O fato desse governo israelense de direita não estar nesse momento construindo uma história que a meu ver não é dignificante não apaga a história de Israel com seus sindicalistas, politicos, sionistas que construiram o país que eu habito hoje e muitos palestinos também. E palestinos sorriem nas ruas aqui, trabalham, dividimos os mesmos ônibus, as mesmas filas e são alegres e falam alto como os israelenses. Na prática do mercado da Cidade Velha, tirando os religiosos com suas fardas, não se sabe quem é palestino quem é israelense. Eu namoro um palestino e tenho amigos aqui religiosos, ateus, israelenses e árabes, eu sei do que estou falando, da vida viva em Jerusalém, da vida que acontece fora dos extremismos dos jornais que circulam pelo mundo. Infelizmente, lendo as primeiras páginas de Caim tive a certeza de que Saramago, nas declarações sobre Israel, não estava gagá. Velhinho gagá não escreve Caim. Que belo livro. Quarta feira eu vou fotografar Amos Oz. Amos Oz, esse  escritor fabuloso, comentou as declarações de Saramago: "Esta é hoje a comparação preferida dos antisemitas em todo mundo. Saramago demonstrou uma cegueira moral incrível. Como integrante da esquerda, como alguém que luta pelo direito do povo palestino a um Estado independente junto a Israel, vejo as declarações de Saramago como um golpe na cara as  vítimas dos nazitas, dos pacifistas em Israel e toda a humanidade”. Ademais - para usar uma palavra pecoriana- Saramago deveria, ao menos, alguma espécie de gratidão ao povo que inventou a personagem principal do seu derradeiro livro. Convenhamos assim.



quinta-feira, 24 de junho de 2010

trecho

aspas são raspas de texto. tacho. acho. não gosto de quem junta dedos aspas ou parenteses no ar médio e anular. não posso. não deixo. me afasto, quero outra coisa:  nuvem, papel, pedra. gosto do gosto da escrita escrita, colher na panela de brigadeiro. escrever é somente. aspas falam demais: madeleines, brevidades das citações, torrada com geléia, chá das três marias: aspas são visitas, não lavam a louça da escritura,  pia  até a boca, etiqueta no pote de vidro, dossiê de alcaparras, vodca, sonho de valsa. aspas são falsas, telefonema injusto, desde(se)nham  reticências, o sono das Preguiças do Brasil. aspas são ossários com nada dentro, noves fora, primas entre si, onânicas com ânsia de nanicas: minha terra tem exílios.
(Gama, Luciana. In Os Macunaítas: Exéquias.)



sábado, 1 de maio de 2010

sábado, 24 de abril de 2010

Pastoreio de Cabras com os Beduínos Jahalin



"Liberdade de fome e sede/da ambulante prisioneira./Não é que ela busque o difícil: é que a sabem capaz de pedra." (João Cabral de Melo Neto In Poema(s) da Cabra)

Não que eu não desejasse uma tarde cabralina no deserto da Judéia. Simplesmente, não esperava que pudesse ser tão bom, caminhar, sentar, conversar com os beduínos. Nem quando morei na caatinga baiana estive tão misturada entre as pedras e as cabras como hoje. As ovelhas estavam lá também. Quietinhas. Como são silenciosas as ovelhas, como são comportadas, não dão trabalho aos pastores. Em compensação as cabras são uma confusão. Hoje descobri que pastorear cabras é uma tarefa árdua, elas vão que vão, se dispersam em grupos e quando você repara estão todas em todos os lugares e sempre montanha acima. Mantê-las juntas não é tarefa fácil.


Passei, então, algumas horas com quatro pastores: Ali, Mohamed, Ahmad e Abu. Como eu havia previsto eles também me observaram por vários sábados, sempre a mesma hora, no mesmo lugar, fotografando seu pastoreio. Eu, sempre meio ao longe, no alto de uma montanha. Todo sábado. Aqui:





Então hoje uma cabra veio ao meu encontro. Ahmad veio atrás com seu burrico. E pudemos sorrir um para o outro. Ele desceu do jumento e eu pude lhe mostrar as fotos que venho fazendo faz dois meses. Ele ficou muito agradecido e perguntou se eu queria acompanhá-lo. Esperava dois meses por esse encontro, fui. Este é Ahmad no deserto da Judéia, beduíno Jahalin. Aviso que os beduínos não se deixam fotografar. Ainda não descobri porque. Mas adoram câmeras e fazer fotos. Ahmad queria que eu subisse no burrico. A hospitalidade começou aí. Eu não aceitei só porque imaginei que amanhã não conseguiria andar. Eu ri, negando. Ahmad achou graça na minha risada. Ele me perguntou num árabe remoto, denso e soletrado  da onde eu era. . Eu disse Brasil, ele sorriu muito: Futebol. Uma palavra  anjo, uma palavra gol de placa. Jogada celestial no deserto da Judéia. Os beduínos me mostrando sua malícia e sua raça. 






Então acompanhei Amahd colina abaixo. Algumas cabras mézaram a tarde inteira enquanto eu conheci os outros três: Ali, Abu e Mohamed, um lider daqueles três pastores, ao menos, entendi assim. Depois descobri que foi Mohamed que disse para Ahmad trazer a cabra e e eu para perto deles que me esperavam embaixo de uma árvore com café árabe feito na hora, com fogo fátuo, nascido da areia. Levantaram-se quando cheguei, abrindo os braços e indicando para me sentar com eles. Mohamed quis ver minha câmera. Entreguei. Ele gostou desse ato e se tornou o fotógrafo do dia. Coloquei a câmera no automático e mostrei para ele, aperta aqui. Mohamed é o lider deles. É um moço muito forte, com os músculos delineados, dentes lindos e olhos ferinos, esverdeados. Ele é o dono dos camelos e das ovelhas que  fotografo aos sábados. É menos docíl do que os outros e mais ligeiro também. Sua beleza causou-me uma profunda impressão de que queria fotografá-lo de qualquer maneira e que vai ser uma operação delicada, conquistada. Prefere ficar com minha máquina e me fotografar. Líder. Eles me receberam para um café nesse vale, embaixo dessas árvores:

Então, Mohamed, o fotógrafo registrou e roubou minha alma:



Sobre Cabras. Em casa, pastavam solenes.  Um lugar onde eu posso plantar meus amigos, meus livros e nada mais:















Consegui fazer uma única imagem de Mohamed, por fim, sem ele perceber. Sábado que vem combinamos de nos encontrar para a entrega das fotos em papel. Ficaram felizes com o presente. Eu também. Cantaram em despedida para mim. Eu, emocionada, vi a esperança- essa coisa intelectual para mim e pro Zé Rodrigues- com muito menos óculos.







terça-feira, 20 de abril de 2010

Sobre Cadeiras e Ventos do Bem

"- Te peguei, niilista! O sedentarismo é justamente o pecado contra o espírito Santo. Apenas os pensamentos caminhados têm valor. Só se pode pensar e escrever sentado." ( Nietzsche)



Sentar em cadeiras é um dos próprios do homem que mais é dificultoso para mim. Odeio sentar. Sou uma pessoa afobada, atarantada, tenho bicho carpinteiro e não consigo assistir televisão apenas porque tenho que sentar. Sentar para mim é sinônimo de estar parada. Não gosto de ir ao cinema também. Sei que soa tosco. Mas é assim.
Nunca gostei de nada que nos obriga a sentar: assistir aulas e estudar e escrever. As duas últimas coisas eu só faço deitada ou em posição de leitora da corte francesa. Sou peripatética. Escrevo andando. É um tormento quando termino de escrever e tenho que sentar para colocar opensamento em desenho de letra. Sentar, definitivamente, não é um protocolo justinho para mim.
Também não gosto de ármários e tenho horror por paredes. É um tipo de privacidade que não me diz nada. Nem mesmo para ir ao banheiro. Adoro entrar para morar em casas vazias, essas, sem ármários. Odeio guarda-roupa, armário de cozinha, uma vida projetada, vamos dizer assim.
Mas cadeira é meu calcanhar de Aquiles. Daí meu gosto pela fotografia que me obriga a ficar zanzando, bater perna. Escrevo copiosa e verborragicamente, mesmo assim. Sei que sou uma máquina de escrever. Todas as minhas mesas tem que ser enormes. Agora, adquiri uma de um metro e meio de comprimento, estamos felizes, eu e ela. Mas havia a questão da cadeira. Claro que meu(s) oficio(s) me obrigam a ter uma cadeira confortável.
Fui ver o preço. Daria para comprar umas duas ou duas e meia mesas iguais a que comprei. Desisti, simplesmente, porque odeio cadeiras, imagina, comprar uma. Foi fácil. Faz quase dois anos que moro em Israel e escrevo e leio na cama. Dois notebooks me acompanham. Ligados full time.
Duas ou três semanas atrás achei uma cadeira boa, dessas pretas, fortes, que giram de lá para cá, me esperando em frente ao lixo. Já escrevi um post aqui no blog sobre o lixo em Israel. Não é exatamente lixo: as pessoas deixam em frente ou perto coisas que não vão usar mais para quem necessita: livros é coisa comum. Enfim, tenho um post sobre isso aqui, provavelmente de 2009.
A cadeira estava um pouco capenga, não muito. Faltava uma rodinha que eu imediatamente substituí por um tijolo de dolomita enrolado lucianicamente com durex. Funcionou. A cadeira ia e vinha. Com a mesa nova, espaçosa e já bagunçada, a tal da cadeira começou a me incomodar. Nada demais. Apenas me incomodava olhar para ela com aquele tijolo como ornato. Ontem, feriado, não resisti: voltei a cadeira para o lugar que encontrei no lixo. Não sem antes desenrolar a prótese de tijolo. Queria entregá-la exatamente como a achei. Sou generosa mas, literal. Causo algumas confusões nas pessoas com duas características tão disformes, juntas. Vamos dizer que sou uma cangaceira altruísta, uma brasileira pé duro, adorável.
Enquanto trabalho, todos os dias, ando pela casa, abro a porta da rua, ando até a esquina e volto. Tudo ao mesmo tempo. Só não posso e não consigo ficar parada. Num desses vai e vem resolvi ir até o lixo da rua para ver se a cadeira estava lá. Estava. Levei um susto. Pisquei duas ou três vezes e me certifiquei que não estava pirada. Mas me senti bem doidinha por um átimo. Havia uma cadeira novinha, com plástico e tudo e rodinhas no pé. Inverossímel, eu sei, mas era para mim.
Por que? Muitas hipóteses. Poderia dizer que aqui é Israel e alguém deixou uma cadeira melhor no lugar para que eu mesma pegasse. Essa hipótese não é impossível aqui. Outra: alguém viu a cadeira que deixei e se lembrou que havia uma em casa sem serventia, aproveitou o ensejo e jogou fora. Mais uma, parecida com a anterior: trocaram as cadeiras. A minha ex não estava lá, a outra, igualzinha estava: alguém se divertiu fazendo isso, uniu o lixo ao agradável. Mas a hipótese de que mais gosto é a de que um vento bom do deserto passou por ali e me deixou um recado mais ou menos assim: "Toma sua cadeira. Você merece uma cadeira nova."

sábado, 20 de março de 2010

O Inconfessável: Escrever Não é Preciso por Alcir Pécora



fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil. Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do não-fazer
(O Artista Inconfessável. Museu de Tudo, 1975, João Cabral, adulterado)



1. Ao contrário do que usualmente se supõe, a passagem dos anos não tem obrigação nenhuma de revelar algum grande autor ou mesmo um autor apenas razoavelmente bom. A regra estava valendo para o passado que revelou tantos autores extraordinários, quanto vale para os próximos cem ou mil anos, que talvez nunca vejam nenhum outro, assim como podem ver centenas deles. Se grandes autores apareceram com regularidade, ou aparecerão da mesma forma, isto são contingências, não necessidade ou decorrência lógica de um conjunto quantitativo sempre crescente de escritos.

2. Antologias de autores promissores ou novos lançamentos de escritores contemporâneos não cessam de aparecer, por piores que sejam eles. Alguns são jovens, outros são célebres, outros são simples amigos do editor: qualquer coisa basta. Por isso mesmo, nada é suficiente como critério de edição, e o publicado basicamente ajuda a encobrir a percepção evidente de que não há nada de relevante sendo escrito, e nem mesmo há indícios de que essa relevância possa ser descoberta outra vez no domínio da literatura.

3. Não parece haver nada relevante sendo escrito, e esta é a mais provável razão desse poço, desse mar de coisa escrita.

4. A suposta necessidade de aparecimento de novos grandes autores é, no melhor dos casos, apenas uma reação contra a situação de contingência radical que é a nossa. Nada garante, entretanto, que, no futuro, leremos algum novo grande autor, a despeito de todos os grandes que existiram antes. A despeito mesmo da probabilidade amigável de que, num mundo sem fim, algum escritor decente se ponha de pé, e ande, assim como num mundo de macacos há boa probabilidade de que um deles possa tomar um desvio inesperado em sua evolução e virar homem.

5. Probabilidade, mesmo uma boa probabilidade, não é necessidade, mas apenas média projetada de eventos. Resulta, portanto, que um grande autor é o resultado imponderável de um conjunto de circunstâncias e ocorrências inesperadas sem qualquer garantia de repetição de seus termos de existência.

6. A suposta necessidade, já agora como hipótese medianamente ruim, se apresenta como um efeito psicológico primário associado a uma estratégia usual de mercado que finge lançar novos produtos “definitivos” a cada dia. Isto posto, é certo que nenhum crime contra-natura foi cometido, quando se percebe como são poucos os escritores brasileiros surgidos nos últimos 30 anos a que se poderia aplicar a categoria de autor a sério.

7. Agora, na pior das hipóteses possíveis, as publicações de novos bem como as novas publicações, salvo raríssimas e imponderáveis exceções, nascem da crença efetiva de que eles tenham realmente qualidades de grande autor. Evidentemente, há pouco a fazer em casos assim. Pode-se, por exemplo, tentar falar mal da antologia ou dos autores em questão, mas não há a menor chance de que eles não se julguem perseguidos pessoalmente por um crítico desonesto e mau-caráter. Um ou outro (os melhores deles), com muita sorte, deixarão de escrever, mas a maioria absoluta – ao menos enquanto continuar sem sucesso - tratará apenas de aumentar a cumplicidade e a camaradagem que guarda entre si (cf. Leopardi, Pensieri: il mondo è una lega di birbanti contro gli uomini da bene).

8. Se me perguntarem o que imagino definir a seriedade de um escritor, o que me vem primeiro à cabeça é justamente a idéia de alguém que busca resistir à vulgarização do escrito. Isto é, penso em alguém que admite, mesmo contra o seu mais íntimo desejo e a sua mais teimosa vontade, que absolutamente nada o obriga a escrever, a não ser uma falácia lógica tomada como falso imperativo de cultura.

9. Uma vez que seja assim, o escritor sério deve pensar mil vezes antes de se pôr a escrever. De preferência, como efeito de ter pensado seriamente no assunto, deve inclinar-se a não fazê-lo. Não admira, deste ponto de vista, que um pensador sério como Giorgio Agamben, imagine que Bartleby, o escrivão que se recusa a escrever, seja o melhor exemplo de um escritor que conhece a sua contingência e não abusa de sua condição fazendo o que faria melhor desde que não o fizesse. Quer dizer, quanto melhor fosse potencialmente o escritor, menos poderia sê-lo em ato, por absoluto pudor de tornar-se apenas um cotejador e copiador de uma montanha de outros escritos, já produzidos, sem senso nem motivo a não ser o de girar a própria engrenagem burocrática de escrever.

10. Mas não precisamos chegar à inteligência superior de Bartleby ou àquela que o criou, ele mesmo personagem de uma obra-prima altamente improvável. Se escrever não é preciso, alguma auto-crítica não faria mal ao aspirante de escritor ou ao escritor de ofício. Ao contrário, faria um bem enorme, a ele e a nós. Luis Antonio Verney, homem de não poucas luzes, insistia em que o pretendente talvez fosse mais útil, ou menos irrelevante, trabalhando com rigor em alguma outra coisa mais à medida de seu talento, que fosse igualmente mais útil à república.

11. Se escrever não é preciso, devemos absolutamente concordar com Horácio quando nos diz que não é razoável retirar do poço os escritores que tiverem o bom senso de se atirar lá, fingindo inspiração ou loucura. Simplesmente não é civil salvar escritores da morte prematura.

12. Pessoalmente, por incorrigível vezo de criação católica, sugeriria aos jovens pretendentes que, se não têm um poço por perto, tentassem antes a vida como copydesk, ou como tradutor de algum texto de escritor reconhecidamente superior de outros tempos e lugares (se bem que, muito provavelmente, neste caso, eles acabariam por arrastá-lo para a mediocridade em que vivem), ou mesmo, em último caso – mas último caso mesmo --, que puxassem o saco de alguém que lhes descolasse alguns trabalhinhos free lance numa página de cultura ou numa editora mainstream.

13. Quaisquer dessas atividades modestas -- mas não baixas, pois apenas puxar o saco é verdadeiramente baixo, embora não tanto quanto escrever porcamente (cf. Bernardo Soares e o horror dos aleijões da página mal escrita) --, além de tantas outras atividades verdadeiramente medíocres que podemos imaginar, valem muito mais a pena do que escrever, tanto em termos públicos quanto pessoais. Ao menos, são atividades seguramente menos irritantes para os outros, obrigados (por educação ou por sentimento cristão) a ler tanta irrelevância escrita. Mas deixar de escrever, sobretudo, será (seria) um enorme alívio para o próprio pretendente a escritor, que se livraria do fardo de afetar um talento que não possui e de ter de se expor continuamente à crítica de algum detrator malvado.

14. Enfim, não adianta disfarçar, escrever, em geral, é apenas deixar-se arrastar pela maré dos lugares comuns sub-letrados. É anunciar mais cedo a própria inexistência, a própria morte irreparável como autor. Publish and Perish, disse muito propriamente Marjorie Perloff.

15. Paradoxalmente, uma maneira de adiar a compreensão simples da absoluta não necessidade de escrever é pretender humildemente que escrever seja justamente apenas mais uma atividade entre outras, e o escritor, alma singela, apenas mais um homem comum, por mais coquette que se apresente em seus gestos e maneiras.

16. Chamo a isso especificamente “pretensão” e não, por exemplo, “desejo”, porque não há um só sujeito, que afirme que escrever seja uma coisa qualquer, que saiba também tirar a conseqüência óbvia dessa afirmação: a de que seja uma atividade tonta, indiferente e desprovida de valor pessoal ou público como a maioria absoluta de todas as outras atividades comuns e quaisquer.

17. Se não se tratasse de pura afetação arrivista, o escritor pretendente a gente comum teria de concluir que a inserção da literatura no patamar da vida média se traduz como uma simples rotina, um automatismo, cujo pressuposto (necessário, portanto) é apenas a adesão ao lugar comum. Enquanto tal, é basicamente forma de alienação da vontade própria em favor, digamos, do ganha-pão, o que definitivamente nada tem a ver com um projeto de criação artística, autocriação pessoal ou intervenção pública através da literatura produzida.

18. A conseqüência, pois, da pretensão da escrita como atividade ordinária é a de que escrever não apenas não constitui autores, enquanto criadores, como, ao contrário, submete-os rapidamente ao movimento da prática tosca e maquinal de reprodução do mundo no estado de merda no qual existe.

19. Esse maquinismo fabril-escriturário tem como desfecho infeliz um mar de escritos. Nessas circunstâncias, que papel feio não fazem os escritores! Para fazer deles uma imagem apenas ruim e não odiosa, teríamos de vê-los como um amontoado de corpos devolvidos à praia, pois, como alertava o quinhentista Bernardim Ribeiro, o mar não sofre coisa morta.

20. Na praia inglória, findam sobretudo jovens escritores, novas promessas, futuros talentos. De modo algum, entretanto, devemos nos comover, pelo mesmo motivo que repreendia Virgílio a Dante, enquanto observavam os sofrimentos dos precitos: é simplesmente justo. Ademais, não faz a menor diferença para nós: juventude, novidade e futuro são apenas faces simpáticas do mesmo engano que dissolve a qualificação ou a excelência do autor na banalidade do escrito.

21. Exatamente porque escrever não é preciso, escrever pode ser tudo menos uma atividade entre outras quaisquer. Escrever é um ato que, de saída, já deve uma explicação: ele tem de reinventar a sua própria relevância, a cada vez, ou então condenar-se a ser apenas uma idéia torta de novidade: o retorno do mesmo, piorado.

22. Cada escritor, conformado com a condição de exercer uma atividade ordinária, dissolve a sua vida numa linha que enuncia inexoravelmente o mesmo: o escrito é apenas uma forma de morte vil.

23. Isto é o que se pode dizer dos autores e da literatura mediana, que é o único ofício que não admite mediania virtuosa: Horácio revém. Isto é, em matéria literária, ou se é radicalmente bom, ou se é radicalmente imprestável.

24. Da crítica, entretanto, não se pode dizer o mesmo. Longe de se atirar com a força e a ingenuidade estúpida da juventude contra o mar de quantidade que a devora e contra o qual nada pode (a não ser acreditar baixamente que a banalidade é a destinação universal da escrita), a crítica foi sendo morta na cama, enquanto dormia, e seu corpo paulatinamente sendo substituído por simulacros que Foucault (cf.) chamou certa vez de meninos bonitos da cultura.

25. A especialidade dos meninos bonitos, na perfeita inversão que caracteriza a atividade dos invasores de corpos, não é evidentemente a crítica, mas o seu contrário: o colunismo social.

26. A crise aqui é a total falta de crise. A desistência da crise é a matéria básica de que se formam os bodysnatchers durante o sono da crítica. Eles são sempre gente boa, simpática, quase variantes sem mandato de vereadores e deputados, cuja habilidade profissional se mede pelo coeficiente de agilidade com que barganham os votos dos leitores pelo tráfego entre os agentes institucionais da literatura, vale dizer, grupos universitários de poder, lobbies de editoras, cadernos culturais da grande mídia, revistas literárias com algum público ou prestígio etc. O coeficiente de barganha se nutre da capacidade de estabelecimento de um círculo de cumplicidade, auto-proteção e confirmação mútua entre todos os participantes do sistema de tráfego em questão.

27. Claro que isto tudo pressupõe a adesão, mesmo inconsciente, a lugares comuns e paradigmas teóricos conhecidos e transformados já em imperativos políticos e institucionais de circunstância, os quais são, por definição, conservadores – o que nos traz de volta ao autor enquanto prático de uma atividade ordinária. Neste aspecto, o diferencial do dublê de crítico é a faculdade de se manter completamente cego diante de tudo que possa revelar o profundo desinteresse, o imenso tédio das práticas literárias contemporâneas.

28. Os meninos bonitos estão lá, no meio da névoa cerrada do presente sem futuro, pintando freneticamente de luz as sombras de sono e banalidade de que são feitos. Com seu farol tingido, asseguram aos passantes que tudo vai bem, que aquele mar não é abismo, que aquele poço tem fundo, que novos grandes autores estão surgindo naturalmente, que novas obras-primas continuam a ser geradas, e até que a literatura de “nosso país” é fecunda e pujante.

29. Quando se chega a esse anúncio maravilhoso, o sistema de tráfego de banalidades está completo. O escritor qualquer coisa encontra o seu crítico sem crise. Admiram-se, respeitam-se, amam-se.

30. Se os meninos bonitos fossem mais que invasores de corpos, os quais despossuíram de crítica, tudo o que deveriam ou poderiam fazer era iluminar as trevas da própria cegueira, a obnubilação do sono, o cerco implacável do nevoeiro feito de tédio, ignorância, arrivismo e inconseqüência a que estamos submetidos quando escrevemos.

31. Escrever como atividade média é o grau zero da necessidade e da utilidade.

32. Neste cenário de horror banal, mas que curiosamente se representa como euforia de criação, pouquíssima gente destoa. Isto ocorre porque quase toda gente acha, com razão, que pode fazer parte do elenco de “grandes autores”, ultimamente identificado com a mediania das atividades quaisquer. Claro que, nessas circunstâncias, muito mais difícil e desejável é, por exemplo, obter um bom emprego.

33. Os poucos e raros que desacreditam de escrever, isto é, que não entendem a escrita como atividade necessária e mediana, entendem também que praticá-la é apenas confirmá-la moribunda ou já defunta, mas não enterrá-la de vez. Escrever, freqüentemente, é apenas um cadáver que passeia, um defunto que procria e multiplica, como o homem; ou que faz cento por um, como o semen de Deus, mas cujos frutos apenas proliferam a secura e o vazio.

34. Se escrever é prática vulgar e inútil, melhor é não-fazer (ao contrário do que pensava Cabral, que tinha, entretanto, razão, enquanto era ele a fazê-lo).

35. Nenhum motivo é bastante para escrever. Não precisamos de entretenimentos. Precisamos ainda menos de ficção, de estética, de fazer de conta que não estamos saturados de ficção no campo comum da atividade medíocre. Não precisamos de mais atividade na roda.

36. A condição do escrever é a crise. A literatura que vale a pena que escreve responde pela destruição do escrito ou simplesmente já não responde a nada.

37. O mar não sofre coisa morta etc.


13 de outubro de 2005