segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Janelas Abertas nº 3

"Mas eu prefiro abrir as janelas..." (Caetano Veloso em Janelas Abertas nº2)

Aqui ela se chama Samira. Não sei se possui outros nomes, outras pessoas, outras janelas. Chega com muita, muita fome. É uma bela gata malhada de branco, amarelo e cinza. Olhos esverdeados, carinhosos. Patas e unhas nem tanto. Já experimentei. Fiquei brava, fechei a janela. A gata sentiu. Se tornou um pouco mansa após o ocorrido. Um pouco. Não mais que isso. O suficiente: um pequeno carinho quando sirvo o leite. Não lhe agrada entrar. Toma seu leite e depois senta na janela olhando para fora, de onde veio, enquanto eu fico olhando-a de dentro, donde estou. Outro dia o Samir, meu namorado, se deu conta da estátua viva sentada na janela, tentou espantá-la. Ela não gostou e não se moveu. Eu ri. Gosto dela. Está prenha. São dois meses de uma discreta amizade e respeito entre nós duas. Na verdade ela apareceu antes. Mas meu susto gritou tanto que o vizinho colocou a cabeça para fora da sua janela para ver se estava tudo bem comigo. Estava. A gata desapareceu e eu passei por maluca. Mas ela voltava a voltar, espionava meu silêncio.

Na semana em que entrei com o pedido de doutorado na Universidade Hebraica de Jerusalém, há uns dois ou três meses atrás, a gata ganhou leite pela primeira vez. No dia seguinte, apareceu de novo, leite outra vez, e nessa ganhou o nome, Samira. Conforme a gata vinha, as semanas iam, a geladeira escasseava devido a quantidade de documentos traduzidos e juramentados que a Universidade Hebraica exigia e Samira passou a tomar água aqui em casa. Ela e eu. Dei para conversar com a gata em português. Palavras poucas: -Samira, as coisas vão melhorar e vamos voltar a ter leite, nós duas. A gata fazia que entendia. Generosa, me poupava traduções.

Quando fui ao escritório da Universidade Hebraica entregar a última tradução juramentada, e, enquanto a senhora Tova abria o armário para retirar a pasta do meu processo de doutorado e falava, eu apenas ouvia e via caixinhas e caixinhas de leite transformadas nela. Voltei para casa nessa tarde pensando no ônibus que miséria pouca era bobagem mesmo, e , afinal, eu havia conseguido traduzir e juramentar todo meu curriculo. Hora de comemorar. Passei no supermercado, comprei um litro de leite e esperei Samira. Nos fartamos. Dali em diante, mesmo contando moedas, passei a comprar leite uma vez por semana muito mais para a Samira do que para mim. Cismei, ou inventei, tanto faz, que a gata trazia um recado de prosperidade em tempo de leites magros.

Posso explicar um pouco melhor para não acarretar sentimentos de comiseração no leitor, coisa que não carece: durante todo esse tempo estive com trabalhos; fotos, a Dona Clarita de quem sou dama de companhia aos domingos, artigos, os Iacoov para quem dou uma ajudazinha na cozinha kasher da senhora Ruth, revisão da tese no Brasil, enfim, superlotada de afazeres remunerados. Não faltou trabalho. Nem dinheiro. O caso, é que tive que diminuir consideravelmente o consumo dos luxos e depois das amenidades conforme aumentavam as páginas que iam para a tradutora juramentada que, talvez, tenha feito o seu supermercado por minha conta durante os últimos dois meses.

Então, eu sabia que minha fase de misere estava escaldada por uma causa justa, o doutorado, porque o processo aqui é completamente diferente do Brasil. Tive banca que leu minha tese de mestrado, que leu meus artigos, que deu pitaco no meu curriculo. Além disso, para você ter o direito à formação de uma banca somente para você não basta ter lindos olhos: é necessário ter aprovação da tese de mestrado acima da nota 85, artigos publicados em revistas especializadas e cartas de referência de profissionais renomados na sua área, dizendo que sim, que você dá conta do recado, além de ser afável, inteligente, pesquisador, leitor, estudioso e possui um futuro promissor. E dá-lhe tradução de toda uma vida dedicada ao estudo.

Claro que essa conjectura era formada também por uma comissão de amigos e conhecidos aptos para ajudar e dar mais que uma força: duas, três, quatro, cinco, seis forças. A comissão era pequena e muito ativa: Hugo, Eduardo Weiss, Yehudá, Samir, Ana Villanueva e minha mãe. Mas a Samira, a gata , virou uma espécie de Ganesha com patas, e ao compartilhar água comigo como se fosse leite dos deuses, trouxe-me a sensação de que a fartura é composta pela expansividade de saber entrar, permanecer e sair pela janela, como se portas fossem coisas por demais óbvias para uma gata que não se incomoda nem se acomoda.

Numa dessas idas e vindas de Samira quando já não havia nada a fazer senão esperar o resultado da Universidade Hebraica, recebi a carta oficial parabenizando-me por ser aceita como pesquisadora. Vibraram, os de longe e os de perto, os que não tinham dúvida e os que já sabiam por intuição. Todas as pessoas que dividiram a vitória comigo, comemoraram. Era certo que eu também comemoria com um bom vinho tinto israelense. Postei em meu MSN e Skipe a palavra "comemorando" e voltei do supermercado com três litros de leite integral. Esperei Samira que chegou sem nenhuma dúvida. Fiz um chocolate para mim, e, enquanto ela se enroscava no vidro da janela, preparei seu leite no potinho vazio de margarina. Coloquei-o no parapeito, e, brindando, desejei que Samira e seus filhotes sempre encontrem janelas bacanas que dividam seu leite com ela.
Le Chaim!*


* "à vida" , brinde em Hebraico.




2 comentários:

Djabal disse...

Le Chaim!!!
Meus parabéns. É bom ser aceito. Seja qual for o motivo. Refresca, renova e aumenta. Beijos.

J.B. disse...

Luciana.

Com certeza vc não me conhece e , sério, passado o tempo não sei mais como cheguei ao seu blog. Talvez tenha sido através do Aleph, desculpe, tenho 44 não mais 22 anos...rs..
Adorei teu texto... Uma amiga minha diz que sou meio doido quando digo que estou estudando para o concurso de carreira diplomática e meu primeiro posto seria em Israel. Sabe como é? Aquela história de guerra, etc etc.
Talvez vc tenha aberto uma janela para mais que Samira. Particularmente, agrada-me estar aqui , na janela que nos abre.
Parabéns pela admissão! Que sejam momentos de alegria e de muito trabalho bom.
Beijo para ti. Obrigado!