sábado, 10 de outubro de 2009

Jerusalém: uma cidade,


três religiões. Esse é o título do ensaio fotográfico que apresentei para uma comissão da secretaria de Cultura de Jerusalém. Um ano de ensaio fotográfico, trinta anos de leitura nos olhos, nas costas dos olhos. A recepção foi muito, muito surpreendente. Ouvi vários "Óóósss" e "Aaaaaaaah" quando as fotos foram colocadas na ordem da exposição. Não calculei que as fotos iam causar tanta surpresa, mas depois, voltando a pé para casa, comecei a pensar que eles, os da comissão, tinham razão pelo impacto. Fotografei Jerusalém com muita intensidade, horas e horas nos mesmos lugares, voltando dias e dias para as mesmas pessoas e cenas. Sol a pino, croqs gastos, inverno queixoso, um ano. Não poderia produzir coisas básicas com tamanha dedicação. As fotos estão lindas e depois de reveladas, em grande formato, fiquei com lágrima nos olhos. Pura emoção. Era além de mim, além da minha narrativa, além dos meus olhos: era Jerusalém.

Mas, tudo bem, enquanto espero a resposta sobre a exposição em Jerusa, preparo mais duas pastas de apresentação do ensaio. Estou literalmente moída com tanto trabalho mas quem espera para ver meu ensaio fotográfico sentada na mesa de casa ou do escritório é nada mais, nada menos que a Karen Armstrong, autora do livro que me guiou e inspirou o ensaio. Sim, nos falamos essa semana. Karen espera meu ensaio fotográfico em Londres. Veja bem, ela, enquanto autora, guiou meu ensaio. Sem ela, ele não existiria, e eu, bem, eu seria bem mais ignorante sobre a história de Jerusalém sem os livros da Karen Armstrong.

Mas não só. Também preparo uma pasta carinhosa para o Moacir Amâncio, poeta e crítico, bom das vistas, das cores e um grande conhecedor de Jerusalém e da cultura judaica. E, vamos ver se consigo uma exposição no Brasil. Sinceramente, eu sempre tenho esperança de fazer alguma coisa no Brasil mas eu faço um esforço enorme para não entender porque há sempre espaço para mim no mundo e o Brasil nunca consigo ter tempo ou lugar . E, então, contribuinte da saga dos Luizes Costas Limas e dos João Hansen, vou seguindo reconhecida e respeitada em outros lugares , menos no Brasil, onde basicamente, não existo, nunca existi. Mas eu tenho esperança. Tenho esperança no Brasil. Bom lugar para olímpiadas sendo que fica a desejar quando se trata de fortalecer músculos intelectuais ou os ouros do intelecto.

Além da dor nas costas hoje acordei com a noticia do ano, uma passagem intensa de Amilcar Torrão por essas bandas. Agora sim poderei compartilhar Jerusalém com um historiador de cidades. Jerusalém, a retórica da cidade, é fundamental para se caminhar, melhor, voltar para nossos caminhos historiográficos. Durante a estadia de Amilcar aqui, não farei mais nada há não ser acompanhá-lo e deixar-me surpreender, de novo, pela cidade, que não se desloca jamais dos livros. Jerusalém, cidade-livro. Amém.


6 comentários:

Djabal disse...

Pois daqui da Terra dos Papagaios eu digo: existe sim.
Continue mostrando o seu trabalho para quem merece e entende e o resto virá. Estou, e esteja, certa. Beijoss.

Shlomit Or * Luciana Gama disse...

você, um otimista, o que seria do mundo sem vocês? puxa, Djabal, nessa maluquice toda, mudança de casa, universidade, ensaio fotográfico, me esqueci que posso mandar o ensaio para você ver porque agora é assim: eu mando minha exposição para a casa das pessoas, expo particular! não dá para ver pela internet porque o trabalho perde muito e tb não quero que vejam assim. enfim, deixa seu endereço que eu monto uma exposição para você, manda o endereço por email!

J.B. disse...

Eu acredito que vc náo tenha oportunidades aqui pq , na nossa mente colonizada, há sempre a necessidade de aprovação de alguma "autoridade metropolitana" se é que me entende.
No entato, eu só tenho que dar meus parabéns já que vc conseguiu oferecer a quem está acostumado com a paisagem, um novo olhar.
Isso não é pouco, aliás, é tudo.
Beijos!

Anônimo disse...

Boa dica, vou ler a Karen Armstrong como guia para minha viagem à Terra Santa. Vou tentar achar o Itinerário de Paris a Jerusalém do Chateaubriand também.Afinal, toda viagem é um livro, e todo livro nos leva a uma viagem. O mundo só existe no texto mesmo, isso é algo que compartilhamos. Bem, agora para você ele também existe nos pixels, que não deixam de ser um texto.
Beijos
Amilcar

Anônimo disse...

Fiquei pensando nessa síndrome de Costas Limas, acho que não temos como escapar, eu, você, Ana Villanueva. Não que sejamos tão bons como o Costa Lima, mas acho que somos sempre uma idéia fora de lugar, ummpensamento nômade e deslocado. A vantagem é que isso nos faz viajar. Espero que em janeiro possa ver essa exposição de fotos que deve ser o máximo. Imagens peregrinas, como é peregrina a Jerusalém Celeste!
Amilcar

Anônimo disse...

Já comprei e estou lendo o Itinerário de Paris a Jerusalém de Chateaubriand. Não farei a mesma rota, infelizmente, mas serve de guia.
Amilcar