segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Protocolo de Leitura


Tanta coisa para contar, uma semana tão intensa e meus comentários cada vez mais entrando no mundo das letras. Acontece que essa semana revisitei pessoas e lugares tão conhecidos e que há muito tempo não via e devo voltar a conviver com eles de forma intensa. Sim, de uma feita- já que eu nunca me permito recuperar os procedimentos do caminho que tomamos- estava eu envolta e mergulhada em velhos conhecidos: Torquato Tasso, Palaviccino e Cicero e Quintiliano. Ainda bem que gosto e me divirto porque é uma palmilhada dura, pedregosa, e muito, muito solitária, porque é coerente que quase ninguém no mundo está interessado em discutir retórica do século XV ou XVI. Muito menos ouvir você contando as maravilhas que ela produz, sua eficácia, vamos dizer assim. Uma paisagem chumbo com reflexo ouro. E no fecho da tarde, enquanto as Instituições Oratórias se misturavam ao silêncio de meus croqs de plástico embaixo da mesa, eu folholhava tão desenganada uma edição digital, pensando que estava com saudades de virar as páginas ao invés de ficar apertando o teclado, o dedo já cansado, pensando que tinha tantas fotos para fazer e não faria mais por causa dos estudos do doutorado quando a máquina do mundo se abriu na minha frente:




Você repare: essa imagem é uma sinedoque da mulher que escaneou as Instituições Oratórias de Quintiliano, a partir da coleção de livros da Universidade de Michigan. No caso, essa edição é uma edição que gosto muito, de 1788, compilada nos moldes do iluminismo português por Jeronimo Soares Barbosa, lente da Universidade de Coimbra, salvo engano. O arquivo está corrompido para download em pdf mas pode ser lido on line no googlebooks. E há essa maravilhosa intervenção que deixaria qualquer amante de protocolo de leitura, encantado: na foto há a inscrição da rapidez e da desatenção ao trabalho proposto, isto é, a digitalização das Instituições Oratórias. O dedo que vira a página é como uma iluminura contemporânea, rosa e anel indicando que uma mulher faz esse serviço. Com uma certa pressa deixa sua assinatura digital num exemplar do século XVIII, digitalizado. O que mais me comove é que ela virou as páginas que eu não posso tocar, apenas ler, embora eu saiba que o acesso visual ao livro seja muita coisa quando você está no Oriente Médio convivendo com um mundo de palavras semíticas e quadráticas e eu sigo minha leitura vagarosa enquanto minhas mãos continuam pensas.







Um comentário:

Djabal disse...

Estamos entrando em uma nova era. A transformação propiciada pelo éter. irá nos transportar. Uso de propósito o verbo de movimento, não de fundamento (transformar). Esse é um problema que não quero nem tocar. Ele é mais complexo. Podemos nos transformar continuando iguais. Mas, diferentes. Muito diferentes, confiantes e quem sabe; sábios? Beijos.