domingo, 7 de junho de 2009

GORDA GORDONA

Conto de Eduardo Sinkevisque.

Para Luciana Gama.

Rapunzel jogou suas vistas. Engano redondo. Tranças redondas em gomos. Um oito, uma música numa oitava acima. Um zero em cima, outro em baixo: quem ousa brincar de cima em baixo? Um por cima, outro por baixo. Redondo engano. Todo começo. Todo desenho. Todo poema redondo que conto. Então, Sr. Seu Pinto, continua, e aí?

Rapunzel jogou suas tranças. Aquelas que nos trançam em vistas e abrem maços de margaridas, no pinto, pinta que pinto, te pinto como o Sr. Seu Pinto.

Ele não era um invólucro, nenhuma subjacência, mas desinências de gênero correndo risco. Seu Pinto era os gomos, os comos nos gomos que faziam tranças: pegue no lápis, aponte, na benga - quando os meninos mostravam sua máxima potência, afirmando-se homens por terem pintos, pintos... Então, Sr., continua: Rapunzel engomou as vistas, salvou as do príncipe aos poucos. Não te explico, porque não te explico... explicam teus olhos quando piscam.

Quando o caminhão de gás ia embora, saindo da porta das casas, balões amarelos abriam tangerinas, margaridas, fitas e cortinas de papel nas vistas. Jogue-me, Rapunzel, as suas. Um dia, certos olhos dissociados de certo corpo bateram olhos em outros gigantescos. O negro era amarelo-roxo. O roxo, amarelo, redondo ovo, redondo ondo. Repuxavam ondas em pálpebras, pupilas nos leitores de Cecília em cílios de gato, piscando samba, gatomaquia. Ovais de olhos quase mais que redondos.

Outro dia, uns tantos faziam o que nunca tinham feito: se olhavam. Olho no olho, entre olho. Engano redondo: Gorda Gordona tinha olhos gordos, daqueles de regalar as vistas quando vistos. Quando o caminhão de gás saía, os de boi, taurobovinos, enxugavam-se. Gorda Gordona sabia que engordava os olhos de quem a via. De gorda não tinha nada, de boba também nada tinha. Seus olhos sabiam, neste é irmão deste, que os olhos de quem a via viam olhos magros de pupilas de leitores de Cecília engordarem em galos na cabeça. Tatiana batia nele, dilatando-se: coq que é coq forma galo na cabeça. Flosi jogando milho. Gorda Gordona catando: coq que é coq não dá stop.

Então Seu Pinto, o que dizia Maria na Paulista? Certos olhos não tinham esquinas. Vinham no ônibus. Na paisagem fixa das esquinas, nas janelas do ônibus quando passava pela Paulista. Cecília perdendo neons em folhas heróicas, veias heroínas da Paulista em ruínas quando Tatiana achava Tatianas, perdendo o fundo dos olhos, o Sena dos olhos no cerne das esquinas.

Certos olhos vinham no ônibus, no corredor corre mão dos olhos dos outros. Sr. Seu Pinto pediu mais quatro. Quatro enganos, desenganos, com os do forno mais de seis gomos. Gordas, gordas, nenhuma gorda, como Gordona a viam.

Seu Pinto vinha no ônibus. Gorda Gordona o olhava. Ele pediu sua mão: guia-me por onde fores, que te perdôo por me traíres. Depois daquele encontro, nunca mais foi o mesmo. Depois daquele beijo. Depois de aproximá-la dentro.

Olhos de quem a via abriam pernas, a Gorda G. que gostava de abrí-las. Seu Pinto, cleptomaníaco, tinha ciúme. Botava os olhos nos olhos gordos que a cobiçavam. Pedinte, devolveu os quatro. Olhos de onde viam, de onde vinham, faziam o que nunca tinham feito.

Um dia, Gorda G. , com aquelas suas lágrimas de doce de leite, com aqueles seus olhos de copo de leite, disse que as pessoas não precisavam de regimes. Disse a Seu Pinto que elas precisavam de óculos fundo de garrafas. Desde que as garrafas fossem cheias de olhos fundo de garrafa.

Seu Pinto virou príncipe quando os príncipes bateram os olhos nele. Gorda Gordona leu Memórias Póstumas de Brás Cubas, contando a ele por telefone. Suas memórias e a publicação póstuma com a morte do amor que mata, e o amor que se mata com a morte.

Ah, Gorda Gordona... que nada! A palavra lhe dava raiva, quando mal usada. A Gorda G. que engordava os olhos de quem a via. Seu Pinto quando olhava: quanta pele, quanta carne, que de gorda não tinha nada, se não fosse por ele também nada tinha. Se iludia quem a olhava e engordava quem gorda ela achava: Cecília usando botas, retirando stops quando o ônibus parava. Gorda G. nele tonteava. Todo redondo. Todo ovo. Todo ônibus redondo sem olho, sem rosto, testa, cabelo. Redondo dois pontos: o corpo de Gorda Gordona se abria sem ponto, frase, vírgula ... De novo, Gorda Gordona, dois pontos: Seu Pinto pegou as vistas. Pecou em alongar-se, alagar-se. Alongar-se em avisar que se alongaria.

Como era mesmo aquela cantiga? Uma música, um oito numa oitava acima: um maço de margaridas despejadas por um menino. Deixa que te conte. Gorda que te engorde: depois daquele beijo, engordaram de língua na boca, na boca em namoros. Seu Pinto pedindo beijos de língua na boca. Língua engordando na boca. Seu Pinto gordo no ônibus e Gorda G. virando mulher.

Outros olhos: havia? Outros gordos que a viam. Os olhos de quem a via viam conversas engordando:

- Deixa que te conte, jogue-me sua estória. Gorda Gordona que de estória não tinha nada, engordava. Mais nada. Os olhos de quem a olhava. Mais nada. Não tinha palavra. Quem lia não via mais nada. Quem não via o que havia, não engordava. Quem no gás em gomo engano engordava. Mais nada. Nadava ao cais do dia em que Seu Pinto lhe carregasse flores:

- Fosse o que fosse no dia em que Seu Pinto fosse lhe dar flores.


...

Eduardo Sinkevisque
1989-2009

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