sábado, 6 de junho de 2009

Shlomit (s)


Amos Oz me proporcionou* em sua biografia (de amor e trevas) mais uma clave para a minha Jerusalem. Narrando sobre sua avo, Shlomit, maniaca por limpeza desde que pisou aqui na cidade em 1933 e proferiu a frase que repetitiria por toda a vida: "O levante eh cheio de microbios" . Amos rele sua avo Shlomit, observando  o impacto das cores e cheiros do Oriente numa imigrante  que veio de uma cinzenta aldeia da Europa oriental e ficou apavorada -assim como todos os imigrantes, assevera Amos- com a transbordante sensualidade de Jerusalem o que, segundo Amos, se tornou  uma ameaça cuja unica protecao era construir guetos para si mesmo:

"ameaças? A verdade e que nao era para se proteger das ameaças do Levante que minha avo mortificara e purificara o corpo em banhos escaldantes nas manhas, tardes e noites de todos os dias de sua vida em Jerusalem, mas sim, ao contrario, pelo fascinio que seus encantos sensuais exerciam sobre ela, pela voluptupsidade do seu proprio corpo, pela atracao poderosa dos mercados que transbordavam e fluiam e ondulavam impetuosos a sua volta, deixando-a quase sem respirar, com uma vertigem na boca do estomago e um incontrolavel tremor nos joelhos pela abundancia de verduras, frutas e queijos tentadores e pelos perfumes penetrantes, entorpecentes de todas essas comidas estrangeiras e estranhas que a excitavam, e as maos gulosas e insaciaveis que apalpavam-penetravam ate o mais recondito das montanhas de frutas e verduras, e os pimentoes vermelhos, e as azeitonas temperadas, e toda nudez daquelas carnes polpudas, sangrentas, sem pele e sem vergonha que balancavam nos ganchos das feiras, e todos os temperos, e os pos, especiarias, ate o dissolver dos sentidos, ate quase o desmaio, toda sorte de tentacoes lascivas que lhe lancava esse mundo amargo, azedo e salgado, e tambem a fragancia pungente do cafe que a penetrava ate o fundo do ventre, e as grandes jarras de vidro cheias de bebida de mil cores, e nelas pedacos de gelo e limao, e os carregadores do mercado, robustos, bronzeados, peludos, nus da cintura para cima, com todos os musculos das costas tremendo pelo esforco sob a pele quente, reluzindo ao sol, ensopada de suor."

A citacao eh longa, eu sei. Nela, do angulo que vivo em Jerusalem, nao ha nada que possa ser retirado. A descricao de Amos corresponde exatamente a que tambem podemos encontrar agora se sairmos daqui da minha casa em Katamon e formos para o Quarteirao Arabe na Cidade Velha.
Ha muito tempo  venho caminhando e fotografando pelo bairro arabe. Desde que pisei ali, pela primeira vez, senti uma especie  de riso maduro, e continuei caminhando como quem sente os pes sendo arrancados do chao antes de cada passo no Mercado Central, Salvador. Sim, ali nao havia os negros do Pelo, as baianas cheias de dentes e malevolencia. Mas havia as cores, os suores, os musculos , os gritos misturados aos risos e muita, muita gente colorida e sadia e eu estava em casa, de novo quem diria, serpenteando feliz pela minha e pela sensualidade alheia.

Logo que cheguei aqui em Jerusalem fui alertada pelo meu namorado da epoca que nao era para eu ir ao Kotel, se sozinha, pelo bairro arabe. Foi uma boa pedida porque aprendi a andar pelo bairro ortodoxo. Ele me dizia, para o meu bem ( e, hoje sei, para o bem dele) que sozinha era perigoso porque eu poderia ser sequestrada ou coisa assim. As mulheres religiosas judias que conheci logo que cheguei  advertiram o mesmo, mas,  acrescentaram que era para eu ter cuidado com os homens arabes que "pegavam" mulheres sozinhas nas vielas do Shuk. Entao, a primeira vez que errei o caminho -guiada pelo meu sensato inconsciente- e me perdi nas vielas arabes, lotadas de homens (entenda, lotadas mesmo, o Shuk arabe eh um lugar masculino, nao ha mulheres trabalhando nas lojas por la) percebi rapidamente que eu estava ali caminhando pela minha propria sensualidade que jah vinha escaldada de uma Bahia de feiras e pessoas livres, sem camisas, de saias muito curtas e esbanjando vida. Entendi instantaneamente porque as ruas do mercado arabe nao sao para todo mundo: nao eh um simples passeio  caminhar pela sua propria sexualidade. Eh menos assustador na nudez  e menos feminino do que na Bahia. Para mim, a diferenca, e por isso, o encantamento, estava exatamente no masculino dessas ruas arabes o que gera uma forca bruta, forte, e risonha mesmo assim . Notavel. Parece que quanto mais as mulheres islamicas andam cobertas mais os homens sao descobertos na fala, no olhar, no riso. Elas se cobrem e eles sao nus. Completamente ao contrario do Brasil onde as mulheres sao nuas e os homens cobertos e nada parecido com a Bahia onde todo mundo esta nu o tempo todo. Entenda: quero dizer com "nu" o mesmo que diria sobre  a disposicao e encontro de cada pessoa com a sua sexualidade. Entenda tambem: a Bahia, para mim, nao eh Sao Paulo, Brasil.

Ha poucas mulheres islamicas por ali. O lugar eh deles, homens. Voce as ve, completamente cobertas, comprando ou olhando roupas. Algumas sao mais idosas e podem vender suas ervas e folhas de uvas estendidas no chao em cima de tecidos dolorosamente descorados pelo sol. Somente. As pequenas e escuras ruas do Shuk arabe sao dos homens e dos turistas que andam, obviamente, de bermudas, blusa sem manga e chinelos com todos os tornozelos a mostra. O unico inimigo ali, no Shuk arabe, eh a sua sexualidade caso voce se intimide com a sua  incontrolavel natureza e fracas redeas. Vovo Shlomit tinha razao em sentir vontade de desmaiar e o cheiro do cafe arabe, moido na hora seus graos, ai, sobe pelas trompas ateh atingir o utero.  Nenhum pudor. Estonteante.

Tenho uma unica amiga aqui e ela eh judia religiosa. Toda sexta de manha ela me telefona para me desejar Shabat Shalom e toda sexta de manha eu estou no bairro arabe, fotografando. Ela, que sabe disso, diz: "Shlomit, sai dai, eh perigoso" e eu, andando de telefone na mao, digo, toda sexta feira: " o dia que vc vier aqui voce nunca mais vai embora", rindo. Minha amiga graceja e pergunta toda sexta feira: "Por que?". Toda sexta feira eu respondo "eles sao fortes, morenos, cabelos negros, olhos profundos e sacanas...". Minha amiga querida, entao, ri prazeirozamente ao telefone e completa, muito seria, ja de volta para seu gueto: " cuidado, Shlomit..."

Sim, eles sao descarados. Querem namorar, trepar, casar, ter filhos em meio minuto . Quase ninguem usa alianca por essas bandas e entao a pergunta mais comum eh " voce e casada?" para os mais destemidos ou " voce tem filhos?" eh a sutil pergunta dos mais timidos. Se voce diz nao comeca, entao, uma recepcao cheia de riso e acrescentada de  entao vamos casar e apontam a mesquita mais proxima. Se voce ri eles riem ainda mais. E fica por isso mesmo. Eh uma brincadeira sensual assim como os pedreiros, em toda cidade do Brasil, assobiam e proferem palavras chulas ou toscas para as mulheres que passam. Igualzinho. Nada demais. Eles estao ali trabalhando, ganhando a vida, e tudo o que querem eh vender suas mercadorias aos turistas. No meio disso, se divertem cantando todas as mulheres que passam. Sao alegres e bem armados de alegria o que acaba constratando com os soldados verdes, israelenses, que estao perambulando ou parados nas vielas ou esquinas mais importantes com suas metralhoras imperiosas e seus ombros apolineos bem treinados, a fase disciplinadamente severa e os olhos atentos. Qualquer coisa que por ventura, possa acontecer ali, simplesmente nao acontece, o exercito israelense estah ali, ora bolas, para defender qualquer mocinha de boa familia que possa vir a ser sequestrada ou bombardeada pelo colorido e sensualidade arabescas. Um perigo como os arabes jogam suas sensuais cantadas sem muita precisao atingindo alvos brancos, madeixas virgens, cuidado, nao faca esse caminho, voce pode gostar das cores, dos gorjeios e dos trinados. Nao passe pelo Shuk na Cidade Velha em Jerusalem se voce nunca foi a Bahia, aquela, que como dizia meu bom e ex marido Eduardo Sinquevisque, so se pode ir com crase. Regua e Compasso,  Gil tem toda razao, soh a Bahia, dadeira, com seus  dindins, dadis, pode ofertar. 

Ha em meio a toda essa algazarra um codigo de etica que aprendi com o Samir. Se voce, por acaso, diz a eles que possui um namorado, eles nao se importam e continuam seu gorjeio. Mas se voce diz que possui um namorado "muslim", ou " arabe", eles perguntam nome e sobrenome, onde mora e estando a resposta coerente (sim, existe aquele nome, aquele sobrenome e aquele lugar), param de falar com voce e lhes dao imediatamente as costas como se voce nunca estivesse estado ali. Nao somente nessa situacao. Em qualquer situacao. Trabalhei outro dia numa casa onde havia alguns arabes tambem. Eles foram muito simpaticos comigo, dividiram sua comida, fizeram cafe, ateh ouvirem eu falar ao telefone com o Samir. A partir dali eu me tornei um ser humano invisivel desprovido de  cafeina. Tentei entabular uma conversa em vao, como uma Alice. Telefonei para o Samir, reclamando. Ele riu: "Eu disse, Shlomit. Tome seu cafe na makolet da esquina. Eles nao vao mais falar com voce."

* atraves de Andre de Leones que tem abastecido minhas leituras. Andre chegou com uma mala de livros com algumas roupas pelo meio. Creio que as roupas faziam papel de escora para que os livros nao quebrassem. Fiquei tao extasiada frente aquela mala que a fotografei sem piedade alguma.



3 comentários:

Valdemir Reis disse...

Olá belissimo texto, ótima publicação, honrado e feliz por visitar este importante, belo e original espaço... Registro a minha imensa satisfação ao passar aqui, valeu! Quero compartilhar com você o poema abaixo de William Shakespeare
”Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.”
Votos de um final de semana divertido e repleto de alegria. Muita prosperidade e bênçãos. Paz, luz, saúde e proteção. Felicidades, um fraterno e caloroso abraço. Fique com Deus.
Valdemir Reis

Djabal disse...

"Eu sou fútil, útil, instrutivo." Kaidara.
Seu texto está maravilhoso, percebe-se que você entrou em sintonia com tudo e todos que envolvem sua vida, e ela andou harmonicamente, enquanto durou o texto, enquanto as palavras se sucediam, o sorriso da alma se abria e mirava de frente aquele que lia e este atônito riu sem querer, saber ou sentir. Beijo. Hazir, macabeu.

Uri disse...

Shlomit,
nem Jerusalém é Jerusalém de Shlomit, nem Bahia é Bahia de todos os santos, nem o shteitl é o shteitl de Scholem Aleichem. Teu lado benevolente telavivistano "amiga judia ortodoxa" diz prá ter cuidado, teu lado malevolente árabahiano se diverte e prefere se expor e a apreciar as personagens de Jorge Amado de kefia. Jerusalém tem 70 faces ou mais. Duas cidades santas, por manterem o sagrado da expressão humana, se encontram numa alma tão brasileira que se aquece no falafel com acarajé, bem quente. Isso aqui é um pouquinho de Brasil aiai. Seu pouquinho está na cidade velha de Jerusalém, seu pedaço de Bahia. Um dos meus pedacinhos esta em Emek Refaim, voltando para o centro à noite. Me lembra um pouco dos Jardins, região próxima ao Ibirapuera.
shabat shalom saalam:-)