segunda-feira, 25 de maio de 2009

Postagem Aberta para Amilcar Torrao

Quinho,

Ontem eu peregrinava insana pela Cidade Velha pensando em voce. Pensava, exclusivamente, na impossibilidade da pureza de descricao de um lugar, pensava no quanto se narra a partir de si, do seu proprio referencial e o quanto isso me irritava profundamente, afinal,  se antes tinhamos, enquanto historiadores narradores, consciencia disso, agora ela se perdia definitivamente, e os narradores acreditavam efetivamente que a partir de si, o que descreviam, era a SUA verdade. Pois, andava eu irritada com isso, pensava que queria falar com voce, discutir isso com vc, ouvir a enciclopedia dalembertiana de voce, quando ouvi meu nome, um chamado dentro da irritacao da narracao das cidades. Era meu ex rabino.
Num sorriso bem judaico de quem ja antecipa, simpatico, a piada que la vem, ele me perguntou, : 'Como vai a Sua Jerusalem?'
Era a resposta que eu precisava para minha irritacao que terminou numa gargalhada minha, vai bem, vai bem, eu disse e a Sua Jerusalem como estah? ele respondeu, rindo, bem tambem. E nos despedimos, cada um andando pela sua Jerusalem, cientes disso.
Saudades.


9 comentários:

Amilcar disse...

Ora, S. Agostinho não dizia que Jersualém era uam cidade viajora? Ela viaja de cabeça em cabeça, de sonho em sonho, como as cidades de Calvino.

Shlomit Or * Luciana Gama disse...

mas voce sabe que minha raiva toda era sobre a falta de historicidade, de consciencia da estrutura dos discursos tambem. O vocabulo sobre descricao na Enciclopedia tem mais de 20 paginas escritas por Rousseau, dando um show, claro,sobre retorica.
Jerusalem ja foi de todo mundo. Foi desolada varias vezes. Toda a mitica gira em torno do Domo da Rocha desde sempre.Muito antes do ano Mil o que fomenta a cidade eh o Turismo. Qual a diferenca daqui, entao, para as outras cidades?
Claro que sei a resposta. Mas para que nao se apropriem da minha vasta inteligencia, vou ficar calada aqui...:)

Amilcar disse...

"O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas: a cidade diz tudo o que você deve pensar, faz você repetir o discurso, e, enquanto você acredita estar visitando Tamara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela define a si própria e todas as suas partes".
Italo Calvino

Amilcar disse...

"Você deve saber melhor do que ninguém, sábio Kublai, que jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve. Contudo, existe uma ligação entre eles".
Italo Calvino

Amilcar disse...

“Para distinguir as qualidades das outras cidades, devo partir de uma primeira que permanece implícita. No meu caso, trata-se de Veneza".
Italo Calvino

Amilcar disse...

Qual é a cidade implícita de quem escreve sobre Jerusalém? É a Jerusalém viajora, que vai de imaginário a imaginário, numa mímesis do deslocamento? É a Veneza de cada um? É Pinheiros e suas esquinas arrabalianas?

Amilcar disse...

Divida conosco o vocábulo de Rousseau. Rousseau é sempre dividível (não confundir com divisível).

Amilcar disse...

PS: Com Umberto Eco e Calvino, a Itália não precisava nem da Renascença ou de Veneza. É verdade que Berlusconi não compensa tudo isso...

Ricardo Calmon disse...

Carta contundentemente doce,nos viajar faz de Jerusalém em busca!
Cultura,simplicidade e doçura pura!

Belo oráculo esse seu!

Viva a Vida!