terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Eu, você, depois quarta-feira de cinzas no país

Não. Não saí direto da leitura do "Noites Tropicais" do Nelsinho diretamente para a leitura do "Verdade Tropical" do Caetano,  que estou fazendo agora. Fiz uma estranha ponte mas fui mesmo é de trapézio: tresli Memórias Póstumas de Brás Cubas. Uma volúpia do aborrecimento, talvez. 
Vamos dizer, então, com outros termos:
Saí do DancingDays, me diverti, encontrei amigos, refresquei a memória das lembranças (Nelsinho vai da Bossa Nova à Era Collor num estilo gostoso, onde cada detalhe se torna episódico  amarrando a narrativa como uma onda no mar. Parabéns, "Seu Nérson", como dizia a Angela Rorô quando era alegre e jovem). Dormi, descansei, acordei, tomei um banho caprichado, coloquei minha melhor roupa, passei perfume (Memórias Póstumas de Brás Cubas) e agora estou tendo aula de pós graduação (Caetano Veloso).
O exilio migrou. Pós anistia começamos a  exilar nos departamentos das Universidades mais distantes, remotas do mapa,  ou trancafiados em casa, remotos e distantes, deixando nossa voz em teses, artigos, quando muito. Fomos afundando no sofá junto com a esperança de um país melhor, desenvolvido, com nossos amigos, discos e livros na sala de jantar. Enquanto- o Nelsinho expressa bem isso- a música sertaneja corria solta, se tornando a cara do país.  Gente apareceu, verdade seja dita, para dizer, ei, não somos alienados: Renato Russo, Arnaldo Antunes, Cassia Eller, Cazuza, Nando reis. Mesmo assim  o trópico continuou meio triste.
Desde que cheguei aqui só penso no Brasil. Mesmo no Brasil eu só pensava no Brasil. Aqui, definitivamente, aprendi que é possível  construir um país. Me sinto com 500 anos nessa terra de meu D'us. O Brasil ficou mais velho aqui. Os judeus inventaram D'us, a gente inventou o Brasil e D'us está solto dentro de mim que consigo, de uma feita só, citar Caetano, Torquato, Rita Lee e Frenéticas.
Uma das características do mito (grego, não midiático) é que queira você ou não, ele existe. O mito não depende de você para existir. O mito, diz Pessoa, é o nada que é tudo. E me diz respeito também: nenhum acústico do mundo poderia surgir se não houvesse um homem chamado João Gilberto, muito menos o meu. A realidade é que aprendemos com João para sempre a ser desafinados; bem baixinho; com a pena da galhofa e a tinta da melâncolia; Chega de Saudade.





12 comentários:

Karina Meireles disse...

olá!
Muito obrigada pela visita..
gsotei muito da sua escrita
parabéns
e parar jamais

saudações!

Djabal disse...

Tive a mesma sensação num exílio voluntário. A tristeza pós coito também me perseguiu durante o tempo todo. Melhorei ouvindo música e lendo Guimarães. Todo dia, todo dia e a abençoada não se ia.
Contruir uma nação é possível, precisamos apenas da experiência de adquirida em cinco mil anos. Simples assim. Besos. Muchos

Shlomit Or * Luciana Gama disse...

Djabal...e você dizendo só deixa as dicotomias mais estarredecoras (para usar uma palavra bonita porque na verdade tô bem assustadinha)
Eu sabia que vc estava viajando porque estou esperando texto novo seu no seu blog e fico aqui olhando o "Non Liquet" para ver se mudou o texto. Escritores de verdade como você são de muitos esmeros e estimas com a palavra. Coloca logo seu conto novo no Blog para eu ler e criticar, ô!
Fiquei com inveja do seu Guimarães nesse carnaval. Estou sem os meus aqui. Ler Guimarães cura do "mal de Brasil". para mim o remédio é "Grande Sertão: Veredas"
Qual é o seu?

Shlomit Or * Luciana Gama disse...

Tenha a certeza de que quis dizer:

ESTARRECEDORAS...

Amilcar disse...

Pra onde vão os trens meu pai? Para Mahal, Tamí, para Camirí, espaços no mapa, e depois o pai ria: também pra lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti.
Hilda Hilst
Há os que se exilam sem sair do lugar, nômades imóveis. Ando mais para Hildas que Rosas ultimamente.

Amilcar disse...

PS: Seria estarrecedora sem decoro, o que quis dizer?

Shlomit Or * Luciana Gama disse...

Fiquei emocionada ( coisa rara) com o seu/dela sempre em boa hora : "Tu não te moves de ti"
Estou escrevendo meu memorial. Pensei num capítulo, sim, com a sua HIlda frase, mas tudo que consegui foi escrever um chamado "Seja Literal. seja herói" onde descrevo que sou fruto de uma geração que só ensinou a gente a ler nas entrelinhas e o mal que causou em mim, simplesmente, não ter acesso ao óbvio. Coisa que só recuperei com o estudo da Retórica e já era tarde, obrigada que estava a conviver num mundo sem linhas.
enfim, to escrevendo o Memorial porque não vou aguentar esperar a livre docencia. Eu me decretei Livre Docente porque é fato que num ataque de insanidade eu jamais me achararia Napoleão.
bjs
Tu não te moves de ti. Nem eu de mim.Nas pausas, dialogamos.

Amilcar disse...

Hilda é sempre um Hilst, me emociono muito com ela e com a pá da palavra que lavra a terra do pesamento desse mundo sem linhas. Quero ler esse memorial quando estiver pronto. Está pensando em prestar algum concurso de livre-docente em linhas tortas?

Shlomit Or * Luciana Gama disse...

bem, digamos, que talvez você será meu único leitor até a massa crítica comer a madeleine fina que eu fabrico...:)

Amilcar disse...

A massa crítica? Tá pensando em voltar para a Unicamp e distribuir varal de poesia no ônibus???
Esse blog tá parecendo msn.
Bisous

Shlomit Or * Luciana Gama disse...

mas que idéia MARAVILHOSA e puquiana. Por falar nisso o pessoal ainda fica na curva da ladeira da PUC tocando violão e cantando Raul?
Bem, em VC era assim, ainda...

Amilcar disse...

Raul não se canta mais, tem muito samba e capoeira agora. De vez em quando música eletrônica no tal museu da cultura. Varal de poesia também não tem mais, e massa crítica é algo só encontrado hoje em dia na Anhanguera-Bandeirantes em direção a Barão Geraldo!